Afinidades e contrastes compõem a forquilha de dois Fernandos

16 jul 2026 | 0 comentários

Fernando Duarte. Reprodução

Por Guilherme Moraes, curador

A forquilha é um instrumento associado à busca de água subterrânea. Trata-se de um galho bifurcado, em forma de Y, retirado de árvores de lenho flexível. Segurando as duas extremidades do ramo, o praticante caminha pelo terreno à procura de sinais. Acredita-se que, ao passar sobre um lençol freático, a ponta da forquilha se mova involuntariamente, inclinando-se em direção ao solo. Com o aparato, lê-se o invisível, revela-se possibilidade nas entranhas do incerto. É esse gesto que esta mostra toma como imagem fundadora.

Fernando Augusto e Fernando Duarte. Foto Sofia Lucchesi

Fernando Duarte está imerso numa rotina-ritual. Seu fazer é um continuum, tênue entre o obsessivo e o meditativo. Seus interesses vão do sumiê — técnica milenar chinesa de pintura monocromática — a aspectos sociais do mundo contemporâneo. Debruçado sobre a figura humana, Duarte apresenta um povaréu de feições impassíveis. Contudo, o estoicismo de seus personagens é contradito por uma paleta ampla e vibrante, por onde transpiram
cromatismos de sabor gráfico. Do sumiê vem o desprendimento: gesto que prescinde de racionalização, imagem transposta para a tela sem intervalo entre tomada de decisão e ato, onde o pensar é surpreender-se com o fazer. Nas palavras do artista, “O processo, território de elaboração, é mais significativo que o fim pictórico”. Sua singularidade nasce justamente da contradição: o encontro do pensamento-gesto com um colorido deliberadamente
artificial, construído, a partir de decisões cambiantes entre arbitrariedade e precisão que as lança da singeleza da pintura chinesa milenar para as presenças pictóricas que em profusão nos encaram com suas vistas faltantes.

Fernando Augusto parece operar em direção oposta. Se em Duarte a figura humana concentra as tensões do que vemos, Augusto dispersa o olhar em composições onde atmosferas, animais e entidades guardiãs disputam protagonismo em espaços mutáveis, próximos do visionário. Seu cromatismo, também exuberante, é de outra natureza. Não se organiza como irrupção emocional sobre uma superfície contida; a cor é o próprio terreno onde a pintura se constitui. Seus matizes se expandem em relações de contaminação, aproximação e contraste, produzindo campos visuais densos, por vezes vertiginosos, de narrativa feérica. O mundo que propõe não é síntese, mas erupção, mata e abundância cromática. Seus planos meandrantes se entrelaçam, rios tornam-se céus ou estradas, florestas convertem-se em labaredas e a exuberância frequentemente tangencia o apocalipse. Surdamente, o mundo pulsa. Em algumas telas, presas e predadores, interesse que acompanha o artista em diferentes linguagens para além da pictórica, estão prestes a engalfinharem-se.

Ambos operam a partir de diferentes solturas do pincel. Com mais controle, Fernando Duarte propõe linhas mais assertivas, retas, padrões pictóricos. Estes também se manifestam em Fernando Augusto, a estampar suas paisagens numa hachura imperfeita. Também reproduz imagens gravadas em sua constituição, transplantadas para uma, duas, três telas. Se a mão reflete um pulso mais maleável, o primeiro apresenta curvas, pinceladas mais fartas. O segundo, por sua vez, traceja sem rigor e colore ao sabor da intuição. Se um faz da figura humana o lugar de condensação das tensões do mundo, o
outro dissolve fronteiras entre paisagem, animalidade, mito e acontecimento, onde a figura humana é um detalhe engolido por um todo constituído da mesma matéria que lhe compõe.

Fernando Augusto. Reprodução

A dupla aproxima-se não só pelo teor gráfico da imagem, na força do contorno, nos blocos de cor. Esta exposição é também resultado de uma convivência, inclusive de anos de trabalho empreendido por ambos em função do setor da cultura no Recife. É indício de que a prática artística é, sobretudo, maneira de acrescentar densidade à experiência de uma vida. Ao longo dos anos, Fernando Augusto e Fernando Duarte acompanharam
mutuamente seus percursos, observando transformações, desvios e permanências em seus respectivos trabalhos. Esse diálogo prolongado é aqui extravasado. Forquilha emerge como trilha num território onde afinidades e contrastes coexistem, onde duas trajetórias permanecem distintas, mas nos permitem intuir pelos veios subterrâneos, que as conectam.


A produção de Fernando Duarte, artista plástico, abrange pintura, gravura, desenho, aquarela e objetos.

O artista visual Fernando Augusto transita entre pintura, fotografia, instalação e intervenções urbanas.

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