Por Roberto Azoubel
No próximo dia 18 de julho, às 16h, realizaremos mais um lançamento de Novos engenhos — ensaios e artigos de cultura contemporânea (2003-2025) no Museu Regional de Olinda ー Mureo, Rua do Amparo, 128, Cidade Alta. Para comentar sobre o livro, penso que seja importante destacar um aspecto fundamental para a sua concepção: a ordenação cronológica dos textos. Tal aspecto ajudará o leitor a percebê-lo como uma espécie de testemunho intelectual autobiográfico.
Novos engenhos é composto por treze textos publicados em diversos veículos e suportes, escolhidos (e atualizados) por mim, de acordo com os temas das suas duas partes, com cada uma delas seguindo sua própria sequência temporal ascendente, do trabalho mais antigo ao mais recente. Uma divisão e uma ordenação que, além de dar sentido aos ensaios e artigos selecionados, refletem três momentos distintos de minha trajetória como observador-leitor dos objetos/acontecimentos culturais tratados no livro.
A Nave-Mãe Manguebeat: antropologia e disputas de poder no Recife
O primeiro desses momentos se localiza ao longo de toda década de 1990, tendo como locus a cidade do Recife, nave mãe da última grande movimentação cultural brasileira, conhecida pela híbrida nomenclatura Manguebeat. Nesses anos, a capital pernambucana gestou uma cena (com maior impacto no campo da música) repleta de referências e alegorias que estimulavam a discussão sobre os binômios local/global, regional/universal, coincidentemente no mesmo período em que eu dava meus primeiros passos acadêmicos como aluno do curso de Ciências Sociais da UFPE — ou seja, a metrópole se oferecia como um banquete para um estudante que, na ocasião, graduava-se em Antropologia.
Foi através das vivências da consolidação dessa cena e, logo em seguida, pelos contatos e amizades com alguns de seus formuladores que mergulhei nos debates/embates sobre a criação/produção artístico-cultural que só mais tarde descobri fazerem parte de uma rica genealogia de disputas de poder simbólico. Disputas que não estavam apenas restritas à geografia do Recife e da Região Nordeste, mas que também mediam forças com os grandes centros do País.
De Foucault a Deleuze
O segundo momento corresponde aos anos em que residi na cidade do Rio de Janeiro, por ocasião de minha entrada no Programa de Pós-graduação em Estudos de Literatura (atual Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade) da Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Foi nele que tomei contato (e precisei me aprofundar) com os autores pós-estruturalistas, sobretudo nas leituras das obras de Gilles Deleuze e Michel Foucault.
Aqui vale destacar o peso do pós-estruturalismo na PUC-Rio. Para se ter uma ideia dessa força, foi na sua segunda visita ao Brasil que Foucault proferiu na instituição as Conferências de Maio de 1973, que posteriormente foram transformadas na famosa publicação A verdade e as formas jurídicas. Pode-se dizer que, desde então, a universidade ficou marcada como um dos redutos pós-estruturalistas do País. Meus estudos na PUC-Rio ocorreram entre os anos de 2002 e 2007, período em que começavam também a surgir no referido programa as primeiras recomendações bibliográficas no campo dos chamados Estudos Culturais. Nesse contexto, conceitos como os de Genealogia, Margem, Dobras, Rizoma, entre outros, fundiam-se perfeitamente com análises e valorizações das chamadas subalternidades, das visadas decoloniais, as estéticas periféricas, construindo em minha formação um sentido potente. Deu-se então uma fácil fusão entre o vivido e o estudado que solidificava meu olhar e minhas interpretações (em última instância, minhas verdades) sobre os fenômenos/acontecimentos culturais. Resultado deste amálgama: tomei como objetos de minhas dissertação e tese justamente o ambiente (e suas produções culturais correlatas) do que vivenciei no que foi descrito acima como primeiro momento. Os textos que integram a primeira parte de Novos engenhos, intitulada LADO A – Regionalismo e Manguebeat, trazem temas e reflexões desses dois primeiros períodos.
Lado B: políticas públicas e a transição para a crítica literária
Por fim, um terceiro instante se inicia com meu retorno ao Recife no final do ano de 2008 e se estende até o tempo presente. Diferentemente dos dois intervalos anteriores, que, conforme acabo de revelar, dialogam e se fundem conceitualmente, trata-se, de fato, de um outro momento de meu percurso como ensaísta/articulista.
Ele começa com a minha incursão no universo das políticas públicas de cultura e é marcado por um envolvimento mais intenso com a literatura (sem que uma coisa tenha, necessariamente, a ver com a outra). Nas políticas culturais, apesar de ter me aprofundado e trabalhado mais próximo do setor do livro e da leitura, certamente meu afastamento do mundo acadêmico acarretou um distanciamento de uma bibliografia mais voltada às teorias literárias. Tal fato me colocou numa relação, digamos, mais impressionista com os textos de criação. Uma relação mais íntima, despida, talvez com percepções mais cruas e sem tantas “prestações de conta” teóricas, coerentemente exigidas pelas instituições e vivências universitárias. O resultado disso é percebido nos ensaios/artigos que compõem a segunda parte da obra, denominada LADO B – Crítica e Literatura.
No trecho final da publicação, há ainda um adendo com três textos curtos: uma crítica sobre a banda Nação Zumbi (publicada no site do Dicionário Cravo Albin da música popular brasileira em 2008); uma apresentação de uma exposição (inédita) do artista visual Márcio Almeida (escrita em 2012) e um pequeno artigo sobre o Movimento Ocupe Estelita (publicada no blog do Direitos Urbanos-Recife, em 2014). Por tratarem de objetos bastante relacionados ao Recife, são textos que dialogam mais diretamente com a primeira parte do livro.
Por fim, vale ainda revelar aqui que o título da obra foi inspirado numa passagem de uma crônica do site O Carapuceiro, cujo texto desloca o sentido do substantivo engenho — vocábulo que, em Pernambuco, está imediatamente vinculado às velhas edificações de moagem da cana-de-açúcar, ou seja, um espaço de produção de uma economia material — para uma significação que se refere à capacidade humana de criar, de inventar coisas, atrelando a palavra ao universo do simbólico. É no ambiente desta segunda direção que Novos engenhos se realiza.



















































































































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