Jornais em guerra – A imprensa na Confederação do Equador (1823 - 1825), do jornalista, escritor, blogueiro e consultor literário Homero Fonseca, convida a uma "viagem singular, não pelos trilhos da moderna historiografia, mas a bordo dos vagões sacolejantes da imprensa da época", como ele diz na introdução do livro. O prefácio do historiador George Cabral de Souza, do qual transcrevemos os trechos a seguir, é porta de entrada para o trem. Boa viagem!
Um livro que já nasce como referência
Por George Cabral de Souza
Você tem, em mãos, um livro inovador e que é resultado de uma excelente pesquisa histórica. O seu conteúdo é apresentado numa linguagem leve, informativa e agradável. Produzir um livro com essas características — acessível, sem perder densidade — é privilégio daqueles que possuem a paciência de pesquisador e a maestria de grandes escritores. Tais características já foram, repetidamente, demonstradas pelo autor deste livro, o jornalista Homero Fonseca, em outros trabalhos; e são reafirmadas, com vigor, neste volume.
Num mundo em que as notícias se espalham instantaneamente, de um lado a outro do planeta, pela internet e pelas ondas de televisão e de rádio — elas já são tão onipresentes que parece até que sempre existiram — nos custa realizar o esforço de abstração de recuar a um tempo no qual essas formas de difusão não existiam. É, exatamente, isso que Homero Fonseca nos proporciona em Jornais em guerra: a imprensa na Confederação do Equador (1823-1825). O autor nos transporta aos tempos em que os jornais impressos eram uma das poucas formas de coletar e divulgar notícias. Na realidade, como se verá nos textos, em algumas ocasiões, eles, até mesmo, “criavam” as notícias. E mais: o período abordado por Homero, embora seja curto, foi crucial para o processo de formação do Estado nacional brasileiro. Temos aqui, portanto, uma abordagem histórica de um tema de grande atualidade: como os meios de comunicação interferem e sofrem interferência das lutas políticas (ou das lutas pelo poder, também).
O processo da independência política do Brasil, frente a Portugal, foi marcado por fortes tensões políticas. Ao contrário do que se pensa comumente, o “Grito do Ipiranga”, em 7 de setembro de 1822, por diversas razões, não foi alegre e uniformemente aceito por todos os habitantes da América portuguesa. Como nos alerta o historiador Evaldo Cabral de Mello, também não é correta a ideia de que todo o processo foi pensado e realizado por um conjunto de clarividentes pais da “pátria das Províncias” do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Tampouco é certo que a emancipação, pelas mãos de um príncipe português, com a formação de uma monarquia centralizada, era a única opção possível para o país. Em outras palavras, o processo foi muito mais complexo e prolongado. E essa complexidade do processo esteve, especialmente, evidenciada em como transcorreram estes anos em Pernambuco, mormente o período de 1823 a 1825, estudado na presente obra.

Homero Fonseca nos conduz magistralmente por essa época tão tumultuada de nossa história. Analisa 19 periódicos, sendo nove deles ligados aos revolucionários, e dez produzidos pelos aliados e bajuladores de Pedro I. Em suas análises, o autor nos dá informações sobre os editores dos jornais e suas trajetórias políticas, estabelecendo as ligações entre suas concepções de mundo e as ideias que defendiam e propalavam em suas folhinhas periódicas.
Um aspecto muito importante do texto de Homero é o detalhamento que ele nos dá sobre a própria materialidade dos periódicos da época por ele estudada. As folhinhas “pequenitas” e feias do século 19 eram um assombro para a época, especialmente no Brasil. Os periódicos impressos teriam, a partir daí, praticamente o monopólio da difusão de notícias, até que chegasse o rádio no século 20.
A análise dos periódicos feita por Homero Fonseca nos revela as formas e estratégias de exposição do pensamento político dos grupos em contenda. Diferentemente do que ocorre hoje, não havia na época manuais editoriais que regessem a produção destes periódicos. Homero demonstra de que forma os textos eram construídos para capturar a atenção dos leitores e cooptá-los para os distintos projetos de poder, se valendo, por exemplo, de ataques frontais aos editores do partido adversário. Mais do que noticiar, eles eram veículos de opinião e embate. O combate se travava no campo de batalha, mas também no âmbito dos círculos de opinião pública que começavam a se formar.
O fato de que a maioria esmagadora das pessoas era analfabeta não impedia que as mensagens impressas nos jornais — tanto dos rebeldes, como dos áulicos do imperador — chegassem às massas. Era corriqueiro o hábito de leituras públicas dos textos em tabernas, praças e outros locais de trânsito e ajuntamento. Uma pessoa alfabetizada lia em voz alta e os que não sabiam ler escutavam o que diziam os textos. Esse hábito permitiu que o ideário político ilustrado pudesse ser recepcionado e instrumentalizado, igualmente, pelas camadas subalternas da população, inclusive escravizados, negros livres e brancos pobres.
Um dado interessante sobre os periódicos analisados neste livro é que eles, também, publicavam cartas de leitores e leitoras. Assim, destacamos as cartas enviadas pelas mulheres da Vila de Areia (PB), publicada por Cipriano Barata no Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, de 17 de agosto de 1823, com uma centena de assinaturas; e as cartas das “cunhãs liberais” de Quixeramobim e das “mulheres liberais” da Vila de Icó, ambas no Ceará, publicadas pelo Padre Mororó no Diário de Governo do Ceará, de 22 de maio e 30 de julho de 1824, respectivamente. Essas publicações de missivas, certamente, serviam para incrementar aquilo que chamamos hoje, na linguagem das redes sociais, de “engajamento”, atiçando o debate público e dando voz aos agentes políticos locais.
As recentes comemorações do bicentenário da Confederação do Equador ensejaram o lançamento de diversas publicações sobre a revolução de 1824. Entretanto, nenhuma delas aborda, especificamente, a importantíssima questão do papel e da atuação da imprensa no contexto histórico do movimento. Em boa hora, Homero Fonseca se debruçou sobre o tema, recolhendo os números sobreviventes dos periódicos, analisando-os, situando-os historicamente. Este livro já nasce com o status de material de referência para os estudos da história de Pernambuco. É, como dissemos antes, uma obra com rigor informativo, com pesquisa densa, mas com um texto fluido e agradável.
Jornais em guerra: a imprensa na Confederação do Equador é um livro que reflete toda a maestria de Homero Fonseca como pesquisador, escritor e jornalista. Ao falar sobre jornais de 200 anos atrás, Homero Fonseca nos apetrecha para compreender melhor a nossa própria época. Vivemos também um tempo marcado por profundas convulsões. As tecnologias contemporâneas facilitam a disseminação de desinformação e, portanto, a informação é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Isso, mais uma vez, investe a imprensa de um papel crucial na presente encruzilhada dos tempos.

Jornais em Guerra:
a imprensa na Confederação do Equador (1823 - 1825)
Homero Fonseca
Araçá
351 pp.
R$ 120



















































































































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