Há 20 anos encantando plateias

2 jul 2026 | 0 comentários

Clarice Niskier estreou “A Alma Imoral” em 2006, no Rio de Janeiro. Foto Dalton Valério/Divulgação

Por Cleodon Coelho

Um dos maiores fenômenos do teatro brasileiro contemporâneo, o espetáculo “A Alma Imoral” completa 20 anos ininterruptos em cartaz e segue emocionando plateias por todo o país. Protagonizado por Clarice Niskier, o premiado monólogo já assistido por mais de 800 mil espectadores em cidades de todo o Brasil, chega ao Recife para duas apresentações especiais nos dias 3 e 4 de julho (sexta e sábado), às 20h, no Teatro do Parque.

“No palco, é sempre a primeira vez. Quando me perguntam como é possível fazer uma peça tanto tempo sem se cansar, eu respondo: ‘Assim como é possível amar tanto tempo a mesma pessoa sem se cansar’. Nesse caso, o tempo é muito subjetivo. Se a relação está viva, está viva. Dá trabalho, mas não cansa. Assim é na ‘Alma Imoral’. Eu amo esse trabalho, esse texto. Que vocês se sintam vivos diante de mim. Assim como tenho vontade de me sentir diante de vocês: viva”, afirma Clarice Niskier, que ao longo da carreira já contracenou com monstros sagrados dos nossos palcos, a exemplo de Walmor Chagas e Tônia Carrero, na peça “Um Equilíbrio Delicado”.

Agora, sozinha em cena, ela estabelece uma relação íntima com o público, rompendo a chamada “quarta parede”. Baseada no livro homônimo do rabino Nilton Bonder, a montagem - que tem supervisão de direção do grande Amir Haddad - é uma adaptação assinada pela própria atriz e propõe uma profunda reflexão sobre temas universais como ética, moral, tradição, liberdade e transgressão.

Sozinha em cena, a atriz conta histórias e parábolas das tradição judaica Foto Dalton Valério/Divulgação

Com linguagem direta e provocativa, o espetáculo desconstrói conceitos milenares da civilização, abordando dualidades como corpo e alma, certo e errado, obediência e desobediência. Para contar histórias e parábolas da tradição judaica, ela utiliza apenas uma cadeira e um grande pano preto que, concebido pela figurinista Kika Lopes, se transforma em oito diferentes vestes – mantos, vestidos, burcas e véus. O espaço cênico, criado por Luis Martins, é limpo e remete a um longo corredor em perspectiva.

Em 2026, “A Alma Imoral” celebra 20 anos ininterruptos em cartaz – um feito raro no teatro brasileiro. A trajetória começou em junho de 2006, no Rio de Janeiro, em uma pequena sala de apenas 50 lugares. Logo depois, seguiu para um teatro de 400 lugares, onde chegou a ser apresentada de terça a domingo. Desde então, percorreu o Brasil em turnês por teatros de Norte a Sul, consolidando-se como uma das obras mais marcantes da cena teatral contemporânea.

A adaptação de Clarice Niskier para “A Alma Imoral” também já ultrapassou fronteiras: recebeu várias propostas de montagem no exterior, teve seus direitos cedidos para a Espanha em 2007 e ganhou uma montagem na Argentina em 2010, quando esteve em cartaz no Teatro Payró, em San Martin, Buenos Aires.

Ao longo de sua trajetória, a peça acumulou importantes reconhecimentos, em seu primeiro ano, três indicações ao Prêmio Eletrobrás de Teatro (Melhor Atriz, Melhor Peça e Melhor Figurino) e, no segundo ano, duas indicações ao Prêmio Shell (Melhor Atriz e Melhor Figurino), vencendo na categoria de Melhor Atriz. Também foi contemplada em 2007 pelos Prêmios Caixa Cultural e Caravana Funarte de Circulação Nacional de Teatro, além de receber em 2008 o Prêmio Qualidade Brasil de Melhor Atriz.

Celebrando duas décadas de sucesso, “A Alma Imoral” reafirma sua força como uma obra atemporal, capaz de provocar, emocionar e despertar reflexões profundas sobre o comportamento humano.


Cleodon Coelho é jornalista, pesquisador e biógrafo

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