Por Lucas Elias
A série de aquarela “Fitado” surge da tentativa de registrar o meu primeiro carnaval. Apesar de ser nascido no interior e ter a experiência de estudar em Portugal e aproveitar o carnaval nas ruas de Porto, considero que vivi meu primeiro carnaval em Recife, aos 24 anos.
De forma improvisada e singela, a ida à folia se deu por meio da fantasia com fitas coloridas amarradas na roupa, em meio à imensidão dos blocos em movimento pelas ladeiras íngremes de Olinda. O chão de pedra se tornava invisível, tapado pelos pés da multidão. Era apenas uma crença que sentia sob meus pés, sentindo, mas não vendo. Restando apenas a vista das casas coloridas e do céu de um azul sólido que fazia toda a quentura do mundo descer naquelas ruas.
De alguma forma, as fitas tinham vida própria e pareciam dançar sozinhas as músicas e marchinhas, algo tão miúdo, mas que fixou em minha memória. Penso nessa lembrança desses objetos em um diálogo direto com a poética de Manoel de Barros, que descrevia essas “inutilezas”, esses aprendizados sutis e a “valorização das coisas menores do mundo”, na visão de alguém do interior. Assim, de memória, desenho em lápis essas linhas paralelas fechadas embaixo, parecendo fitas, que vão por cima e por baixo fingindo não saber de sua bidimensionalidade na folha de papel. O colorido da aquarela parte das cores primárias intercaladas de forma aleatória assim como as casas e se preenchem em secundárias e terciárias.
Levei às ladeiras todo o interior para dançar. As pequenas fitas em suas sutis cintilâncias finas marcaram os meus olhos em meio ao mundaréu do carnaval, acompanhando os movimentos dos corpos e seus contatos, abraços e beijos.

Meu primeiro Carnaval
Lucas Elias
2026
Aquarela sobre papel
50 x 33



















































































































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