Para iluminar a cidade: Mautner e o Kaos no Recife

16 jul 2026 | 0 comentários

Foto Acervo Túlio Velho Barreto

Por Túlio Velho Barreto

Esta semana começou iluminada no Recife com a presença do multiartista Jorge Mautner no Paço do Frevo. "O filho do Holocausto", como ele se autodenomina – esse é, inclusive, o título do seu livro de memórias –, foi homenageado com uma apresentação e um bate-papo sobre o seu mais novo livro, Poemas selecionados, lançado na ocasião. O evento foi seguido de um breve show de artistas locais interpretando várias de suas canções mais conhecidas.

O bate-papo foi intermediado pelo "ministro da informação da Manguetown", o jornalista e gestor cultural Renato L, com a presença da produtora Ana Paula Jones e o advogado e empresário musical Fábio Cesnik. E o show teve a participação de Fred Zero Quatro, Juliano Holanda, Breno Lira, Valdi Afonjah e Zeh Rocha, além do Mestre Zé Borba, do Cavalo Marinho Boi Estrela do Brasil. Para fechar, e antes de assinar os livros, Mautner cantou uma dezena de suas canções acompanhado pela ótima atriz, violonista e cantora Cecília Beraba, emocionando as pessoas presentes — inclusive os artistas e o próprio Mautner, que não escondeu a emoção em momento algum. Digna dele, foi uma tarde-noite iluminada, sem dúvida.

Mautner foi acompanhado por Cecília Beraba. Foto Túlio Velho Barreto

Formado por pessoas de todas as idades, o público compartilhou o mesmo sentimento. Provavelmente surpresas pela presença de Mautner no Recife, as pessoas compareceram em peso para reverenciá-lo, daí sua entrada no palco ter sido recebida com calorosos e longos aplausos com todos em pé. Aos 84 anos, Mautner não vinha se apresentando desde os anos pandêmicos. A retomada dessas breves aparições tem tido o objetivo de lançar o seu novo livro e, assim, permitir que os fãs matem a saudade e o homenageiem. Ouvi-lo interpretar, por exemplo, "Lágrimas negras" levou muitos às lágrimas, literalmente — o que foi o meu caso, inclusive.

O Kaos e a Manguetown

Nessa breve turnê, não podia faltar o Recife. Com efeito, assim como a obra e o pensamento do cientista e político pernambucano Josué de Castro tiveram novo impulso a partir da Cena Mangue, com as canções das bandas Chico Science & Nação Zumbi e do mundo livre s.a., o mesmo ocorreu com Jorge Mautner a partir da gravação do clássico "Maracatu atômico", composição que fez com o grande amigo e parceiro Nelson Jacobina, pela CS&NZ. Foi a partir do início dos anos de 1990, com o Manguebeat, que Mautner passou a ter outra relação com a cultura pernambucana, em particular com a música e músicos locais.

No passado, a cena psicodélica recifense dos anos de 1970 não deixou de ser a manifestação ou a versão local do que ocorria em outras partes do país, e no exterior, desde a década anterior. Tinha a mesma fonte, sobretudo o rock britânico, com pitadas das manifestações culturais locais e do Tropicalismo, tendo Caetano Veloso e Gilberto Gil como referências. Jorge Mautner, o Kaos e o "Maracatu atômico" aportaram na cidade depois com o Manguebeat, assim como Tom Zé, ambos presentes na origem do Tropicalismo. Sim, basta que lembremos o impacto que teve o primeiro livro de Mautner, Deus da chuva e da morte, em Caetano, por exemplo, como citado em seu livro de memórias, Verdade tropical, e na autobiográfica canção "Sampa".

Breno Lira, Ana Paula Jones, Mestre Zé Borba, Mautner, Cecília Beraba, Zeh Rocha, Fred Zero Quatro e Valdi Afonjah no Paço do Frevo.
Foto Túlio Velho Barreto´

Mautner, eu e uma entrevista psicodélica no meio 

Apesar de acompanhar o seu trabalho desde 1972, meu primeiro contato pessoal com Jorge Mautner foi apenas em outubro de 1999, após um show que ele e Nelson Jacobina fizeram na antiga Estação Central do Recife, que pertencera à Rede Ferroviária. Foi numa festa aberta com esse show e outro da icônica banda da psicodelia recifense Ave Sangria. Mautner e Jacobina se apresentaram primeiro. A Ave Sangria, em show extemporâneo, pois não se juntava há uns 20 anos, não contava com Marco Polo, mas tinha o virtuoso Ivinho na guitarra e praticamente todos os demais membros, com exceção do baterista Israel Semente, então já falecido, e Marco Polo, que preferiu acompanhar da plateia.

Logo após o show, abordamos Jorge Mautner. Aliás, o fotógrafo e poeta Antônio de Pádua o abordou para perguntar se ele toparia dar uma rápida entrevista para nós três: outro Antônio (o Balduíno, já falecido), ele e eu. Mautner topou e nos dirigimos para o fundo da Estação, próximo aos trilhos, de onde não se escutava muito a música que já rolava enquanto se preparava o palco para a "Ave" sangrar. Toninho, como chamávamos o Balduíno, e eu passamos a tarde preparando umas 10 ou 12 perguntas absolutamente psicodélicas, baseadas na obra literária e musical de Mautner e em temas e fatos contemporâneos.

Munido de uma câmera VHS-C, que eu usava para registrar a infância da minha filha e fazer filmes caseiros, nos preparamos e fizemos então a breve entrevista, já que sabíamos da dificuldade de realizá-la. De fato, alguém que acompanhava Mautner e Jacobina demonstrou não estar de acordo com a entrevista, e Jacobina queria ir logo embora, provavelmente cansado após o show. O vídeo tem uns 15 minutos e é extremamente viajado e divertido, com Mautner interagindo de uma forma que apenas ele é capaz de fazer. Na gravação, fica evidente o entusiasmo dele com as perguntas feitas, que dialogam claramente com a sua obra. A certa altura, o próprio Jacobina também se divertia com a entrevista. Atualmente, estou empenhado na digitalização do vídeo, antes que se torne mais uma lenda recifense, assim como aconteceu com a “perna cabeluda”.

No Fiat Uno com o "Mestre dos Mestres"

Nos anos seguintes, continuamos a encontrar os dois, em especial Mautner. Certa vez, durante uma prévia carnavalesca, o presenteei com uma fita VHS contendo a cópia da entrevista. Outra vez foi num bar chamado Seu Cafofa, que hoje tem outro nome e configuração. Nessa ocasião, Mautner e Jacobina fizeram um show intimista, do qual o cantor Geraldo Maia participou de improviso. O show está registrado nas fotos feitas por Pádua. Após a apresentação, Mautner perguntou se não tínhamos uma daquelas então famosas ervas locais para a gente desfrutar. Claro. Como não haveríamos de tê-la? Aliás, Toninho sempre a tinha. E fomos: Toninho ao volante do seu Fiat Uno, Mautner ao lado, e Pádua e eu atrás, saboreando o produto — que na época ainda honrava a fama — pelo bairro de Casa Forte. Até passar inadvertidamente pelo posto policial do bairro e bater em retirada de volta ao bar para reencontrar Jacobina, que tinha feito o mesmo ao lado de outras pessoas.

Nesse dia, ganhei um "cartão de visita" feito de próprio punho pelo "mestre dos mestres" — como Toninho e eu nos referíamos a Mautner desde sempre - cartão aqui reproduzido. Acontece que, nos nossos alcoólicos encontros no meu apartamento, Toninho e eu, depois de tomar todas — e aqui significa todas, mesmo —, além de eventualmente rolarem otras cositas más, ficávamos ouvindo minha coleção de vinis de Mautner até o dia amanhecer. Isso acontecia também na companhia de outras pessoas. Pois bem, no último domingo, quando chegou a minha vez de pegar o autógrafo em seu novo livro, mostrei o tal "cartão de visitas" e o meu raríssimo exemplar da primeira edição da antologia Kaos, de 1963. Foram momentos de muita emoção junto ao criador da Mitologia do Kaos e de canções eternas e misteriosas.

Uma obra do tamanho do Kaos

Possuo álbuns e livros de Jorge Mautner. E são muitos. Mautner escreveu, pelo menos, 12 livros, entre eles o premiado Deus da chuva e da morte (1962), Kaos (1963) e Narciso em tarde cinza (1965), definidos como a "Trilogia do kaos", que juntos a Fundamentos do kaos (1985) expõem suas principais ideias sobre a maneira filosófica e original de ele estar no mundo e de encarar a vida. Escreveu também vários livros de poesias, de letras de canções e um de memórias. Outros livros foram organizados por amigos e especialistas, contendo artigos e entrevistas. Em 2002, saiu Mitologia do kaos, em três volumes, trazendo sua obra completa até aquela data, um catatau com quase 1.500 páginas.

Considerando apenas os LPs e CDs, sem contar os compactos e um EP, sua discografia tem o tamanho da obra literária. E vai desde o primeiro álbum, Para Iluminar a Cidade (1972), relançado recentemente, até o Não há abismo em que o Brasil caiba (2019), lançado apenas em vinil, passando por obras-primas como Antimaldito (1985), o meu preferido Árvore da vida (1988), com Nelson Jacobina, e o Eu não peço desculpas (2002), com Caetano Veloso. Foi exatamente com o cantor e compositor baiano que fez, durante o exílio dele e de Gilberto Gil em Londres, o filme experimental O demiurgo (1970). Pois é, isso antes de lançar o seu primeiro LP, mas já como um escritor premiado e compositor reverenciado pelos pares.

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Túlio Velho Barreto é cientista político, pesquisador e escritor.

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