What you see is what you see?

9 jul 2026 | 0 comentários

Foto Tiago Lubambo

Por Jeanine Toledo

O retrato pictórico foi, durante séculos, a representação daquilo que o sujeito queria mostrar através de signos e símbolos sobre quem era e a época em que vivia. Na contemporaneidade como se autorrepresentam e se relacionam os sujeitos no ambiente digital?

As séries construídas em fake/persona foram realizadas no âmbito do mestrado, realizado em Portugal. Deriva-se daí uma cartografia artística das maneiras como os homens heterossexuais se apresentam no universo do aplicativo de relacionamento Tinder. 

A obra contém 74 telas e tem como base as apresentações desses sujeitos encontrados no aplicativo. A cartografia propõe fazer visível o fluxo dinâmico de imagens/textos que a internet possui e o modo como essas autorrepresentações  tornaram-se a principal interface da mediação no que concerne aos relacionamentos.

Na investigação da artista, percebe-se uma radical transformação da linguagem em relação ao modo de olhar e o desejo no campo virtual. Isto posto, foi criada uma persona para a pesquisa no campo que, como descreve Hal Foster, o artista como etnógrafo é aquele que seleciona o local, entra na cultura e aprende seu “idioma”, concebe e apresenta um projeto. 

Na imersão desse campo multissituado, foram constatadas as dificuldades intrínsecas ao espaço, visto que há um campo real, off-line, e o virtual, on-line, acelerado, incorpóreo e muitas das vezes inautêntico. E, por consequência, foi descoberto que essas autoimagens se davam em construções de personas e fakes.

Então como a representação de um perfil que deveria apresentar um homem apresenta um jegue, ou um macaco, ou um aspirador de pó? Isto possibilitará o match?

Podemos pensar que o sujeito (jegue), que está numa situação intensa de competição com outros, queira romper com a uniformidade dos perfis, e, portanto, cria um eu brincalhão. Outro fator pode ser que a identidade real desse sujeito não possa ser mostrada por inúmeros fatores. O fato é que a criação desses perfis, muitas das vezes jocosos, traz a máscara de personas que se diferenciam dos perfis fakes, estes, totalmente falsos. Toda essa construção quebra o normativo de descrever a si mesmo como uma personalidade desejável, que é encontrada em “bulas” de sites de relacionamentos.

A internet, ao mesmo tempo que facilita a vida em inúmeras coisas, nos devora em muitas outras. Ela propiciou mudanças radicais no mundo, principalmente na linguagem. E, referente às relações pessoais, se constata uma racionalização dos afetos e do amor. A lógica é de mercado, pois ela traz consigo a competitiva oferta e procura, rótulos e listagens para a criação de um eu baseado em um produto embalado. Os algoritmos trabalham nessa distribuição e, consequentemente, em novas formas de exclusão, o que chamamos de “racismo algoritmos”.

Exposição fake/persona, na Ceci Galeria. Foto Tiago Lubambo/Divulgação

Então, nos estudos etnográficos, foi constatada a repetição de padrões, a exemplo de “bichos”, “cores”, “objetos”, os quais foram batizados em séries com o nome do “tema” principal. O curioso é imaginar que, apesar dos padrões analisados e re-representados pela artista, há singularidades na origem de cada um deles, como aponta Luiz Amorim para o texto da exposição na Ceci Galeria: São peças indissociáveis na sua origem, porém, sendo dizigóticas, não só a fenotipia as distingue, mas a autonomia de cada peça artística oferece vieses interpretativos. É essa condição que torna ‘fake/persona’ uma meta-representação desses homens perfilados e, por extensão, da própria afetividade humana neste primeiro quartel de século.

Então temos no aplicativo uma lógica mercantilista incentivando o sujeito a descrever-se através de imagens e textos, enquanto que, para o encontro do amor ou até mesmo o sexual, a atração é o que vem primeiro e depois o conhecimento; na lógica do aplicativo isto se inverte, o “pseudo-conhecimento” é o que chega primeiro e não a atração. A coisa se complica ainda mais quando no lugar de um homem existe um sanitário ou um gorila acompanhado de um texto melancólico de apresentação sobre si. A pergunta que surge: qual é o eu verdadeiro, o do texto ou o da conotação que a imagem nos traz? 

Nesse contexto podemos pensar sobre a questão definida por Barthes sobre conotação e denotação. Sendo denotação, a maneira como o sujeito se apresenta, que pode falar de seu status social, saúde e beleza; já a conotação é a segunda mensagem passada, a que está por trás da imagem, não é exatamente aquilo que estamos vendo. E essa não está restrita ao campo dos aplicativos, mas também no campo das artes, fotografia e publicidade.

A escolha de transpor as imagens do meio digital para a pintura se deveu a um verdadeiro desejo de contrapor à lógica digital. Pois no digital há uma aceleração do tempo que, como diz a crítica Catharine David, vivemos uma verdadeira hemorragia de fotos. Enquanto que a pintura, na sua essência, tem um tempo mais lento, desacelerado para sua feitura, tanto quanto para sua fruição. 

Ao apresentar as imagens/textos misturando-as, de certa forma temos a lógica magritteana de La Trahison des Images (René Magritte, 1928), com seu ápice em Ceci n’est pas une pipe. Magritte, nessa obra, nega afirmando: aquilo realmente não é um cachimbo, é a representação de um cachimbo. O gorila não é um gorila, é a representação de um homem.

Esta operação de embaralhamento das imagens e textos nos traz múltiplas possibilidades expográficas e também novas possibilidades de leituras com múltiplos sentidos. Também solicita pensarmos sobre o que é essa representação na atual conjuntura, ainda mais depois do advento da I.A. Ali, no conjunto da obra, existe uma nova temporalidade que nos convida a fruir e desacelerar. 


Jeanine Toledo é artista visual, professora e gestora. Seu trabalho tangencia temas ligados à história da arte, memória/apagamento e questões conceituais que assolam a contemporaneidade, como as representações do retrato no mundo virtual. 

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