Por Fefa Lins
A obra parte da imagem clássica dos tormentos de Santo Antão, representada por tantos artistas ao longo da história da pintura. Mais especificamente, tomo como ponto de partida a versão associada a Michelangelo. Nela, a figura do santo é cercada por demônios que o atacam, ameaçam, agarram e arrancam suas roupas, mas que, apesar de tudo, não conseguem desviá-lo de seu caminho.
Mas me interessa imaginar outra possibilidade. Ao inserir-me nu com as criaturas, não temo nem resisto ao desejo. Cedo, experimento e me misturo. Ainda que existam facas, cordas e porretes, tudo é consentido. Ser tocado, puxado, atravessado, não me parece inteiramente um mal. O encontro é uma ferida.
Morder a fruta, flutuar em harmonia com as bestas, ter um corpo, aproveitar o banquete. Lamber as feridas, honrar as cicatrizes. Não há virtude na integridade.





0 Comentários