Mostra de filmes celebra a diferença pernambucana

30 jul 2026 | 0 comentários

Por Paulo Cunha

Deve ser culpa de Vicente Yañez Pinzón — aquele espanhol que, em dezembro de 1499, comandou a pequena frota que saiu do porto de Palos, na Andaluzia, e que, exatamente a 13 de janeiro de 1500, descobriu Pernambuco antes de o português Pedro Álvares Cabral descobrir o Brasil. 

Pernambuco veio antes do Brasil, e a antecipação está bem explicada no primeiro dos dez volumes dos Anais Pernambucanos, do historiador F. A. Pereira da Costa: Pinzón e sua tripulação deram de cara, quatro meses antes do abril cabralino, com um premonitório elevado e depois com um ancoradouro natural — na verdade eram o Cabo de Santo Agostinho e a enseada de Suape. 

E não é apenas a antecedência histórica. É a própria natureza pernambucana que exagera, como descreve lindamente João Cabral de Mello Neto:

O sol em Pernambuco leva dois sóis,
sol de dois canos, de tiro repetido;
o primeiro dos dois, o fuzil de fogo,
incendeia a terra: tiro de inimigo. 
O sol, ao aterrissar em Pernambuco,
acaba de voar dormindo o mar deserto; mas ao dormir
se refaz e pode decolar mais aceso;
assim, mais do que acender, incendeia,
para rasar mais desertos no caminho;
ou rasá-los mais, até um vazio de mar
por onde ele continue a voar dormindo.

Aliás, é o próprio poeta da faca só lâmina que se refere a Pinzón — o navegador culpado da nossa prevalência: 

Pinzón
diz que o cabo Rostro Hermoso (que se diz hoje de Santo Agostinho)
cai pela terra de mais luz da terra (mudou o nome, sobrou a luz a pino);
dá-se que hoje dói na vida tanta luz: ela revela real
o real, impõe filtros: as lentes negras, lentes de diminuir,
as lentes de distanciar, ou do exílio. (O sol em Pernambuco leva
dois sóis, sol de dois canos, de tiro repetido; o segundo dos
dois, o fuzil de luz, revela real a terra: tiro de inimigo).

Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes. Foto Divulgação

Aprendemos portanto a gostar disso, em Pernambuco: primazias, originalidades, inovações, estilo próprio. Provavelmente como antídoto para as nossas tantas misérias e nossas vergonhas, que não são poucas, como sabemos. Pernambucanos foram espoliados das formas mais cruéis pela rebeldia: pedaços enormes arrancados de território, gente boa fuzilada e até mesmo pagando impostos para iluminar o Rio de Janeiro quando a capital foi transferida para lá com a chegada da família real. 

Alienígenas olham para nós com muita curiosidade e um certo despeito — e disso resulta que muitas vezes nos colocam (com nossa ajuda, é claro) em prateleiras para nos apartar ou em microscópios pra tentar nos entender.

Jean-Thomas Bernardini, fundador da distribuidora Imovision, realça a ideologia da diferença numa entrevista ao Diario de Pernambuco (não por acaso “o jornal mais antigo em circulação na América Latina”): “Há 21 anos, quando o alcance do cinema pernambucano  ainda era limitado dentro do cenário nacional, tive a oportunidade de distribuir um filme de Pernambuco pela primeira vez e fiquei muito impressionado com a força desse cinema e com o talento natural que o povo pernambucano tem para todas as artes. Tive a certeza de que aquele movimento iria muito longe, não apenas no Brasil mas também no mundo.” O filme citado por Bernardini é Baile Perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Caldas), que ao lado de Baixio das Bestas (Cláudio Assis), Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes) e Boi neon (Gabriel Mascaro) compõe a Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano, que estará no Cinema São Luiz a partir de 6 de agosto.

Baile Perfumado completa agora exatos 30 anos. Foi o marco inicial da chamada Retomada Pernambucana, quando se tornou possível realizar um longa-metragem depois de duas décadas de intervalo: o último longa feito em Pernambuco imediatamente antes havia sido O Palavrão, dirigido por Cleto Mergulhão, em 1976. Com a pesquisadora Amanda Mansur, escrevi A aventura do Baile perfumado: 20 anos depois, em 2016, com fotos, entrevistas, diários de gravações, storyboard, artigos e o roteiro original do longa de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. O livro foi lançado pela Cepe, está esgotado e infelizmente sem previsão de relançamento.

O longa de Paulo Caldas e Lírio Ferreira foi filmado entre junho e julho de 1995 no Recife e no sertão nordestino, reconstituindo a história real do mascate libanês Benjamin Abrahão, que fotografou e filmou o bando do cangaceiro Lampião. O Baile é quase um milagre, devido às condições de extrema precariedade com que foi feito, e inaugurou um sistema colaborativo dos realizadores pernambucanos — o chamado "cinema de brodagem”. 

O lançamento de  Baile perfumado, em novembro de 1996, no 29º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, foi um acontecimento poucas vezes repetido no Brasil. Rompia a tradição de filmes sobre o cangaço e fazia a montagem dialogar com a trilha coordenada pelo guitarrista Paulo Rafael, congregando o melhor do manguebeat. Só naquele festival, o Baile levou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção de Arte, o Prêmio Unesco, o Prêmio da Crítica e o dos Pesquisadores do Cinema Brasileiro. Na exibição em Brasília, o cineasta Cláudio Assis urrava na platéia, para delírio dos demais espectadores: “Que filme do caralho!”

Baixio das bestas, de Cláudio Assis. Foto Divulgação

A dimensão colaborativa, a brodagem, praticamente acabou — para o bem e para o mal —, embora ainda estivesse um pouco presente em Baixio das bestas (Cláudio Assis), outro filme da Mostra da Imovision. O longa de 2006 está impregnado pela urgência e pela virulência que Cláudio Assis demonstrara no lançamento do Baile perfumado em Brasília, como se os urros do diretor tivessem saído da sala de exibição para  os canaviais de Nazaré da Mata. Poucas vezes um elenco brasileiro (Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Caio Blat, Mariah Teixeira e Irandhir Santos) interpretou com tal entrega de corpos e sentimentos. A trilha, de Pupilo (Nação Zumbi) é uma magnífica construção sonora a partir dos elementos do maracatu rural.  Violento, patriarcal, misógino de certa forma, Baixio das bestas consagra aquele que pode ser considerado o mais visceral criador do cinema feito em Pernambuco. É crucial dizer: a exibição de Baixio das bestas na Mostra da Imovision é quase um reconhecimento da importância de Cláudio Assis, muitas vezes desprezado e injustamente acusado de levar às telas um universo brutal que ainda teima em existir. 

Cláudio Assis, Lírio Ferreira e Paulo Caldas são oriundos do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Mais exatamente do coletivo cinematográfico chamado Vanretrô (contração da expressão “vanguarda retrógrada”, irreverência que tentava dar conta dos tensionamentos entre a vontade de ser moderno e o peso das tradições que impera na cultura de Pernambuco). Além dos três, o grupo reunia Adelina Pontual, Samuel Paiva e Valéria Ferro, entre outros. 

Já Marcelo Gomes, diretor do terceiro filme da Mostra da Imovision, Cinema, Aspirinas e Urubus (de 2005), estudou na Universidade Católica, onde contribuiu com o Cineclube Jurando Vingar, e  posteriormente na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Ao retornar ao Recife, Marcelo Gomes criou a produtora Parabólica Brasil, com Cláudio Assis e Adelina Pontual, e recuperou uma memória de um tio-avô, Ranulpho Gomes, para criar seu longa. Nos anos 1940, o antepassado de Marcelo havia viajado pelo sertão no caminhão de um comerciante de Aspirina alemão. A partir desse enredo curioso, Marcelo Gomes escreveu o roteiro com a colaboração de Paulo Caldas e Karim Aïnouz e foi filmar em Patos, Cabaceiras e São Mamede, no Cariri paraibano. 

Bem longe do estilo violento e acelerado de Baile perfumado e Baixio das bestas, o longa de Marcelo Gomes apostou numa encenação contida, com momentos de silêncio e contemplação, buscando algo diferente do cinema de denúncia que imperava desde as origens do Cinema Novo.

Boi neon, de Gabriel Mascaro. Foto Divulgação

Essa nova maneira de representar o interior do Nordeste também está em Boi neon, de Gabriel Mascaro, que buscou entender melhor as mudanças do sertão no início do século XXI, principalmente com o crescimento do comércio de tecidos e a criação de polos de confecção, como os de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. A gênese do longa de 2015 é o encontro real do diretor com um vaqueiro que, além de correr em vaquejadas, aprendeu a costurar. Assim como o vaidoso Lampião de Baile perfumado, o Iremar de Mascaro se deleita com o consumo de itens burgueses (maquiagem, perfumes, roupas), embora opere num registro totalmente diferente, sobretudo ao transtornar as lógicas de sexo e gênero e oferecer ao personagem interpretado por Juliano Cazarré uma existência que não cabe nem num curral nem no mundo fashion, mas num intervalo, num novo lugar antes improvável.

Quatro filmes, quatro momentos. Não tanto do “cinema pernambucano”, mas do “cinema feito em Pernambuco”, garantindo a importância conceitual e política de um grupo de autores e de filmes que não podem ser fechados numa gaveta ou num mesmo padrão estético. Trata-se de um cinema contaminado por um território, cuja história difere daquela vivida por outros grupos sociais. Filmes e autores que emanam a mesma questão: como é que em Pernambuco, um lugar pobre, desequilibrado socialmente, sem uma indústria audiovisual estruturada, são constituídas trajetórias criativas tão impactantes?


Paulo Cunha é jornalista e cineasta

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