Marília Pêra (re)vive na tela do cinema

17 set 2026 | 0 comentários

Marília fez trabalhos marcantes no teatro, TV e cinema. Foto Divulgação

Por Cleodon Coelho

É surpreendente pensar que Marília Pêra, uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos, já nos deixou há mais de dez anos. Sua figura é tão presente na nossa cultura que fica parecendo que ela está dando um tempo, preparando um novo espetáculo para estrear. Infelizmente, é mesmo só uma impressão. Marília faleceu em 5 de dezembro de 2015, aos 72 anos, depois de lutar contra um câncer de pulmão.

E nunca foi segredo para os fãs que ela não gostaria de ver sua vida contada em biografias. “Ela tinha pavor a isso”, reforça Nelson Motta, seu ex-marido. Mas com certeza ela ficaria feliz com a homenagem que acaba de receber: o filme Viva Marília, documentário dirigido por Zelito Viana, com codireção de Esperança Motta, fruto do casamento da atriz com o próprio Nelson, que assina o roteiro do trabalho, já em cartaz no Recife.

A personagem dona Genu, na novela “Lua Cheia de Amor”. Foto Divulgação

O grande charme do longa é a narração, feita pela própria Marília a partir de trechos de entrevistas concedidas ao longo de uma carreira que começou aos 4 anos de idade. Com falas extraídas de conversas com nomes que vão da xará Marília Gabriela ao saudoso Jô Soares, a atriz vai recriando passo a passo a sua rica trajetória.

Resultado de uma pesquisa riquíssima – feita por Remier Lion em parceria com Sandra Pêra e os outros dois filhos da atriz, Ricardo Graça Mello e Nina Morena –, também podemos rever Marília em trechos de peças, como “Apareceu a Margarida” e “Alô, Dolly!”, em cenas de filmes, como “O Rei da Noite”, “Pixote - A Lei do Mais Fraco” e “Central do Brasil”, e de novelas, como “Brega & Chique” e “Cobras & Lagartos”. “E olha que muita coisa ficou de fora. A gente não conseguiu incluir todos os projetos de que ela participou”, comenta Esperança.

Como Dalva de Oliveira no musical “A Estrela Dalva”. Foto Divulgação

Durante quase uma hora e meia, a voz da atriz vai revelando suas escolhas profissionais e pessoais, suas paixões e, ainda, suas inquietações, além da disciplina com que conduzia cada passo. Paralelamente, acompanhamos as transformações vividas pelo país ao longo dos anos. Marília esteve presente em vários momentos emblemáticos, como o triste episódio em que o elenco do espetáculo “Roda Viva”, escrito por Chico Buarque e dirigido por José Celso Martinez Correa, sofreu um ataque do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, durante a ditadura militar.

“Não há realmente nenhum plano filmado. Ele é inteiramente feito através dos arquivos”, reforça Zelito Viana, cujo último trabalho em cinema, “A Arte Existe Porque a Vida Não Basta”, era uma homenagem a outro grande nome: o poeta Ferreira Gullar. “Marília tinha consciência de que era uma pessoal especial. Ela guardava tudo. Era muito organizada. A quantidade de fotografias de seu acervo é impressionante”, revela o cineasta. “Acho que um dos grandes momentos do documentário são as imagens dela ainda criança, feitas pelo pai, o ator Manuel Pêra, em filmes domésticos de 16 mm. São uma preciosidade”.

Marília com os pais, os atores Dinorah Marzullo e Manuel Pêra. Foto Divulgação

Foi o próprio Zelito, irmão de Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira, que levou Marília para a tela grande. Ele era produtor da comédia O Homem Que Comprou o Mundo, de 1968, dirigido por Eduardo Coutinho, cujo trabalho é mais lembrado pelos premiados documentários – um deles, Jogo de Cena, também conta com a presença da atriz, que recria um dos depoimentos reais colhidos por ele.

Ao longo da carreira, Marília Pêra fez diversas temporadas concorridas pelos palcos pernambucanos. No Teatro do Parque, encenou com Marco Nanini a comédia Doce Deleite, no início dos anos 1980. No Teatro Guararapes, mostrou Brincando em Cima Daquilo (1984), o musical Elas por Ela (1991) e o já citado Apareceu a Margarida (na remontagem de 1995), além do recordista O Mistério de Irma Vap (1989 e 1993), talvez a sua direção mais famosa. E também cantou o repertório de Carmen Miranda em uma apresentação especial no Teatro Apolo, no final dos anos 1990.

Quem teve a sorte de vê-la ao vivo deve lembrar até hoje de sua força cênica. Para quem – infelizmente – não conseguiu, o filme Viva Marília a recoloca no centro do palco, da tela e das conversas, fazendo jus ao título. “Com certeza ela ia adorar o que nós fizemos. É um tributo à genialidade artística dela”, afirma Esperança.


Cleodon Coelho é jornalista, pesquisador e biógrafo.

Busca nas Edições

As mais acessadas

Leia também

0 Comentários

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Todas as Edições

Explore também outras edições da Revista Araçá e descubra novos olhares, temas e narrativas que expressam nossa proposta editorial. Cada edição reúne conteúdos exclusivos organizados por seção, ampliando o debate cultural e aprofundando diferentes perspectivas. Escolha a edição em que deseja navegar e mergulhe nas histórias, reflexões e experiências que compõem o universo da Revista Araçá.