Não te direi adeus, caro Jomard Muniz de Britto

22 out 2026 | 0 comentários

Foto Divulgação

Por Marcius Cortez

Digo sem medo de cometer equívoco. Jomard foi um homem livre. Brincando, eu o chamava de homem-livro. Cheguei nele graças a meu tio Zica, José Rafael de Meneses. Escritor, professor e crítico de cinema. Logo de cara saquei que Jomard era um dos meus. Me envolvi com suas tiradas geniais. E me acostumei com os sustos que ele provocava por conta da sua radical originalidade. Foi marcante quando acompanhei sua leitura de "A maçã no escuro", de Clarice Lispector. E foi maior ainda a imensa admiração pelas suas altas leituras: Heidegger, Karl Jaspers, Hegel, Sartre, Simone Beauvoir e Edgar Morin. Sem falar de sua intimidade com a literatura brasileira. Na sua casa da rua Gervásio Pires, guardadas nas gavetas, suas fichas de leitura impressionavam pela letra caprichada, acompanhadas de comentários eruditos.

Jomard me mostrava fotos da viagem que fizera a Salvador e do seu novo amigo. Ele, outro famigerado, o senhor Glauber Rocha. Coincidiu com a filmagem de O Pátio, um dos primeiros filmes de GR. Nessa ocasião, Jomard me passou uma ótima fofoca. Glauber morria de ciúme da Helena Ignez e portanto sobrou para JMB pastorar a bela estrela.

Jomard morava a alguns metros do Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife. Dirigido por Paulo Freire, nosso local de trabalho. Ou seja, quando eu não filava a boia da mãe do Jomard eu me juntava a Paulo Freire, a Jarbinhas Maciel, a Luís Costa Lima, Juracy Andrade e José Laurênio de Melo. No dia em que o almoço era macarrão com ovos, Paulo Freire se excedia. Bom, basta de conversa fiada pois o golpe de 64 se pôs a avisar que aquela "subversão" estava com os dias contados. 

Jomard Muniz de Britto acabara de publicar "Contradições do homem brasileiro", seu primeiro livro. Para combinar com JMB, o lançamento do livro tinha que ser nas ruas. Plácido, o office boy do SEC, mostrou ser um grande vendedor. Conta ele que em frente ao Cinema São Luiz aproximou-se de um carro chapa branca e mostrou para o motorista o livro do Jomard. Nesse momento, alguém abrira o vidro da porta traseira e fez sinal que queria o livro. Plácido assegura que o dono daquela mão grandallhona era o governador Miguel Arraes de Alencar.

Impossível dizer adeus a Jomard Muniz de Britto. Pois temos que enfiar a viola no saco. O golpe foi aquilo que ele chamava de psicanálise selvagem.


Marcius Cortez é publicitário, cronista, escritor e crítico de cinema brasileiro. 

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