A foto que <span class="verde-titulo">Roberto Arrais</span> nunca esquece

3 set 2026 | 0 comentários

Foto Roberto Arrais

Por Roberto Arrais

Em julho de 1982, o nosso partido, o PCB - Partido Comunista Brasileiro, sofria um processo de disputa de ideias, levantadas pelo seu mais expressivo dirigente e revolucionário brasileiro, Luiz Carlos Prestes, que fez uma longa “Carta aos Comunistas”, finalizando com o pedido de que os militantes “tomassem o Partido em suas mãos”. Quem o acompanhou nessa luta foi o camarada Gregório Bezerra, e com ele seguimos nós, Mano Teodósio, eu e muita gente.

Mantivemo-nos organizados em torno da “Carta aos Comunistas”, formamos uma direção estadual e decidiu-se coletivamente pela formação de uma chapa para a disputa eleitoral em 1982. Gregório para deputado federal, Mano Teodósio para deputado estadual e eu para vereador do Recife. Ficamos legalmente filiados ao PMDB, o partido que enfrentou a ditadura civil-militar de 1964 e nos acolhia, mesmo sabendo de nossa militância clandestina.

Com essa decisão, fomos ao Foto Beleza, na avenida Manoel Borba, fazer a fotografia de Gregório, porque lá era a grande referência em qualidade de fotografia, especialmente de candidatos a cargos públicos, porque eles caprichavam, até corrigindo alguns problemas que o tempo na vida das pessoas expressava no seu rosto. 

Fomos buscar a foto no outro dia e quando Gregório viu a sua imagem, disse: “Tá muito boa, mas não sou eu!”. Virou-se para mim e disse, dando voz de comando: “Vamos para minha casa, agora, para você tirar a foto da minha campanha”. Fiquei desesperado, até porque não tinha estúdio e nem flash naquele momento, só a minha câmera Pentax- Spotmatic F, comprada em 1976, por intermédio de uma amiga que tinha ido a Manaus, e o laboratório que mantinha para revelar os negativos e ampliar as fotos.

Fomos para a casa dele e lá foi um Deus nos acuda porque ele decidiu que queria uma foto mais natural, com a camisa polo, listrada de verde e branco. Peguei a câmera e o posicionei no terraço de sua casa em Jardim São Paulo, comecei a conversar com ele para criar um ambiente menos tenso para a fotografia fluir. Ele estava com óculos que me incomodavam. Fiz algumas fotos, mas pedi para ele tirar os óculos e ele disse: “São os meus óculos, é com eles que leio e escrevo”. Fui conversando e ele os retirou, mas ficou carrancudo, muito sério. 

Pedi então para ele dar um leve sorriso, e aí ele reagiu mais forte do que no momento dos óculos, dizendo: “Essa é a minha cara, a classe operária e camponesa não está para sorriso, a situação é muito difícil, sou candidato de luta e não para agradar os poderosos, essa é a minha cara”. E eu desesperado, vendo pela lente da câmera ele carrancudo, fechado, até bem diferente do que era no cotidiano, um camarada gentil e amável. Fiquei tentando fazê-lo sorrir, até que ele expressou um meio sorriso, e eu cliquei os segundos de seu breve instante sorrindo. 

O resultado foi essa foto. Quando revelei o filme, de 36 poses, que era o máximo que tinha no mercado,  saiu essa foto, que ele e todos do partido aprovaram. Ficou como a foto da campanha. Sorrindo mesmo, duas fotos, uma com os olhos fechados e a outra foi essa. 

Para mim foi uma grande conquista, pois consegui extrair nessa foto a sua síntese como pessoa, diria até que nela está estampada a sua imagem, cantada pelo poeta Ferreira Gullar: “Mas existe nesta terra muito homem de valor, que é bravo sem matar gente, mas não teme matador, que gosta de sua gente e que luta a seu favor, como Gregório Bezerra, feito de ferro e de flor”. 


Roberto Arrais é fotógrafo.

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