Gleide Selma: o pioneirismo como marca na fotografia 

3 set 2026 | 0 comentários

Por Pedro Cunha 

Quando Gleide Selma chegou ao Recife, em 1978, tinha 20 anos de idade, vinha de Natal e carregava mais disposição do que certezas. Encontrou uma oportunidade de estágio como laboratorista no Diario de Pernambuco e entrou em um ambiente que dizia muito sobre o jornalismo daquele tempo. Havia dez fotógrafos trabalhando no jornal, todos homens. A presença de uma mulher naquele território era uma novidade, quase uma exceção que precisava diariamente justificar sua existência.

“Eu era a primeira mulher a entrar nesse cenário fotográfico. Não tinha mulher na fotografia pernambucana, no fotojornalismo”, lembra. Sem discursos grandiosos sobre pioneirismo, começou pelo lugar possível: observando, aprendendo, revelando filmes e entendendo a mecânica de um ofício que logo se tornaria uma maneira de estar no mundo.

A fotografia de imprensa do fim dos anos 1970 era uma profissão fisicamente exigente e marcada por uma cultura essencialmente masculina. Não havia câmeras digitais, muito menos a possibilidade de conferir uma imagem segundos depois do clique. Fotografar significava dominar equipamento, filme, luz, laboratório e saber estar no lugar certo quando alguma coisa acontecia. Para uma mulher jovem, significava ainda disputar um espaço historicamente reservado aos homens. Gleide prefere recordar aquele período pela curiosidade que carregava. “Eu estava com toda a energia da vida, disposta a aprender, disposta a fazer”, conta. O laboratório era o ponto de partida. A rua logo se tornaria seu lugar de trabalho.

Pouco tempo depois, veio o Jornal do Commercio. Gleide foi contratada como fotógrafa e novamente se tornou a primeira mulher naquele setor. A câmera passou definitivamente para suas mãos em um momento particularmente intenso da história brasileira. Era o Recife dos últimos anos da ditadura militar e do processo de abertura democrática, quando as ruas começavam a recuperar uma movimentação duramente reprimida. Manifestações, atos estudantis e de trabalhadores ganhavam força, enquanto sindicatos e movimentos sociais retomavam espaço no debate público. Pernambuco acompanharia a campanha pela anistia, as mobilizações pela redemocratização e, mais tarde, a efervescência das Diretas Já, que levariam multidões às ruas da capital pernambucana.

Gleide: "Eu era a primeira mulher a entrar nesse cenário fotográfico". Foto Acervo pessoal

Fotografar naquele ambiente era acompanhar um país que reaprendia a ocupar o espaço público. Passeatas, conflitos, personagens políticos, reivindicações e cenas cotidianas se apresentavam diante das lentes. O trabalho exigia rapidez, atenção e capacidade de perceber aquilo que poderia desaparecer no instante seguinte. Gleide estava no meio desse movimento com a câmera nas mãos, não mais observando fotografias surgirem no laboratório, mas escolhendo seus próprios enquadramentos em uma cidade que também mudava diante dela.

A busca pela independência 

A experiência nas redações, no entanto, não demorou a mostrar seus limites. Depois da passagem pelo Jornal do Commercio, Gleide escolheu a independência. “Eu compreendi que precisava ser livre e ser freela”, diz. Passou a produzir para veículos de São Paulo e jornais alternativos do Rio de Janeiro, construindo uma trajetória para além do circuito tradicional da imprensa pernambucana. Não era necessariamente o caminho mais estável, sobretudo em uma profissão marcada por estruturas rígidas e relações hierárquicas. Para ela, porém, a possibilidade de trabalhar de outra maneira pareceu mais importante.

Foi nesse período que sua câmera chegou também a momentos particularmente duros da história latino-americana. Nos anos 1980, Gleide esteve no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet para realizar uma cobertura política. Em um evento, sofreu violência física enquanto trabalhava. O episódio revela uma dimensão menos romantizada do fotojornalismo: estar perto dos acontecimentos também significa estar perto do risco. Fotografar regimes autoritários, manifestações e conflitos nunca foi apenas procurar uma boa imagem. Era preciso compreender a tensão das ruas e continuar trabalhando mesmo quando a realidade se apresentava de maneira brutal. Anos depois, sua trajetória seria também objeto de pesquisa acadêmica, incluindo um artigo publicado pela revista História Oral.

Quando fala sobre aqueles anos, Gleide costuma deslocar a conversa dos equipamentos para as pessoas. “A fotografia me ensinou a viver. Aprendi a olhar o mundo, enxergar as pessoas, sentir as pessoas, perceber as diferenças sociais e ver como os seres humanos são diferentes uns dos outros”, expressa a fotógrafa. Foi também por meio do ofício que passou a observar com mais atenção gestos de solidariedade e contradições que apareciam diante da câmera. “Uma série de coisas me formaram cada vez mais como mulher. Devo muito à arte da fotografia por esse meu desabrochar para o mundo.”

O Observatório, outro pioneirismo

Esse interesse pelo outro ajuda a compreender uma segunda parte fundamental de sua história. Em 1997, Gleide inaugurou, no Bairro do Recife, o Observatório de Arte Fotográfica, espaço que ela define como a primeira galeria dedicada à fotografia no Norte e Nordeste. O bairro vivia um período de transformação e voltava a ganhar espaço na agenda cultural da cidade. Criar ali um lugar dedicado exclusivamente à fotografia significava apostar que aquela linguagem poderia ocupar mais do que as páginas dos jornais: poderia chegar às paredes de uma galeria, reunir fotógrafos, provocar conversas e formar público. 

A primeira vernissage parecia confirmar a aposta. Uma exposição de Daniel Berinson reuniu cerca de 400 pessoas. A imprensa apareceu, vieram matérias, e Gleide saiu da noite convencida de que havia encontrado uma fórmula de sucesso. “Eu disse: ‘Descobri a mina de ouro! Que maravilha!’”, recorda. No dia seguinte, os visitantes haviam desaparecido. Ficaram Gleide e alguns meninos que trabalhavam como engraxates no bairro. Eles continuavam interessados nas fotografias mesmo quando já não havia festa, convidados ou imprensa.

Trabalho social

Foi então que Gleide fez uma pergunta simples: "Eles gostariam de aprender a fotografar?" Os meninos se animaram. O encontro, quase acidental, mudaria o destino do Observatório. “Fiquei pensando: ‘Posso, pelo menos, fazer alguma coisa com jovens’. Isso foi amadurecendo, e eu criei projetos sociais para trabalhar com jovens de baixa renda”, revela. A galeria passou a ser também espaço de formação, aproximando a fotografia de adolescentes e jovens que dificilmente teriam acesso a equipamentos, cursos ou ambientes culturais.

Mais do que ensinar técnica, interessava a Gleide descobrir o que apareceria quando a câmera mudasse de mãos. “Esses jovens, que tinham de 16 a 23 anos, possuíam uma narrativa própria daquilo que estavam olhando. Isso, para mim, era muito importante”, afirma. Ao longo dos anos, centenas deles participaram das atividades ligadas ao Observatório. Alguns seguiram profissionalmente na fotografia; outros levaram consigo a experiência de observar a própria realidade de outro ponto de vista. Em uma cidade marcada por profundas desigualdades, aqueles jovens deixavam de ocupar somente o lugar de quem era fotografado. Passavam também a escolher para onde apontar a câmera.

Homenagem como reconhecimento 

Quase três décadas depois da criação do Observatório e perto de meio século após sua chegada ao Recife, a trajetória de Gleide ganha novo reconhecimento. Neste ano, ela foi escolhida como homenageada do 15º Prêmio Pernambuco de Fotografia, promovido pelo Governo de Pernambuco. A escolha chama atenção para uma carreira que reúne imprensa, produção artística e formação de novos fotógrafos, mas também para uma mudança maior ocorrida no próprio campo profissional desde que Gleide entrou, sozinha, em uma equipe formada exclusivamente por homens.

A escolha de seu nome teve ainda um significado particular para a fotógrafa: partiu de uma consulta pública com participação da sociedade civil. “É uma alegria muito grande perceber que uma história construída ao longo de tantos anos continua encontrando eco nas pessoas. Recebo isso com muito carinho e com a sensação de que tudo o que fizemos valeu a pena”, comemora. Para Gleide, o reconhecimento não se encerra em sua própria trajetória. Ela o relaciona às pessoas que encontrou ao longo do caminho, especialmente aos jovens que passaram por seus projetos e às mulheres que chegaram à fotografia depois dela.

Gleide Selma é homenageada do Prêmio Pernambuco de Fotografia. Foto Acervo pessoal

O prêmio, que anuncia seu vencedor em 2 de dezembro, acaba colocando frente a frente dois momentos bastante diferentes da fotografia pernambucana. De um lado, a jovem que encontrou no laboratório de um jornal a porta de entrada para a fotografia profissional. Do outro, uma geração que trabalha com novas tecnologias, linguagens e possibilidades de circulação das imagens, em um cenário diferente daquele encontrado por Gleide no fim dos anos 1970. A distância entre esses dois tempos ajuda a dimensionar não apenas a duração da carreira da fotógrafa, mas também o tamanho das mudanças que ela viu acontecer.

É justamente quando fala das mulheres que a voz de Gleide  ganha entusiasmo. “A homenagem atingirá todos os jovens que passaram junto comigo, os que ainda virão e, principalmente, as mulheres, porque hoje a fotografia está cheia de mulheres. Isso é de uma riqueza! Isso é fantástico!”, celebra. A cena de 1978 parece distante: aquela jovem que não encontrava outra fotógrafa ao seu lado pode agora observar mulheres nas redações, galerias, coberturas políticas, projetos documentais e espaços de formação. "As desigualdades não desapareceram, mas o terreno deixou de ser exclusivamente masculino".

Aos 68 anos, o percurso de Gleide Selma não cabe apenas no título de primeira mulher do fotojornalismo pernambucano. Está na decisão de buscar liberdade fora das redações, nas coberturas que a colocaram diante de períodos difíceis da política latino-americana, na criação de um espaço dedicado à fotografia e, sobretudo, naquele encontro improvável com meninos engraxates no Bairro do Recife. Depois de tantos anos apontando a câmera para pessoas, conflitos e transformações, desta vez o enquadramento se volta para ela. E talvez seja essa a fotografia que faltava.


Pedro Cunha é jornalista

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