I
Manhã de agosto. Estou em Cordisburgo, no quintal do espaço Recordança, com folhas secas nas mãos. Seu José Osvaldo dos Santos – o famoso Brasinha – arrisca que não sou desses “acadêmicos que sabem de tudo”. Ao confiar que não vou interrompê-lo à toa, que o visitei para realmente escutar e aprender, ele começa os trabalhos com um belo jacá de perguntas retóricas:
— Num é isso? Quem lê o Rosa aprende a pegar as palavras com a mão. E descobre que, se o sertão tá em todo lugar, inclusive dentro da gente, também é verdade que o mundo cabe entre os dedos. Maravilha, né? Só que aí vem a dúvida: o que a gente faz depois, com isso tudo que a gente pega e carrega?
Seu Brasinha, além de grande leitor, é mineiro. Nesses primeiros três contos de prosa, ele certamente tem consciência de que já recordou e botou pra dançar o Rosa, o Drummond e a Adélia Prado. Quase perguntei se ele conhecia também o poema “Arte poética”, da Adília Lopes. Mas pra quê?
Se o mundo todo cabe entre as velhas mãos que não param de desenhar e dizer coisas, por que atrapalhar as veredas do seu valioso monólogo? Fico calado. Pego outra folha do chão.
II
Dois meses passam. Tenho comigo a simples e bela edição de Bagagem (Record, 2026),com capa de Leonardo Laccarino. Nela, o leitor encontra Um segundo rio corre neste que todo mundo vê, tela da artista Manoela Monteiro. E, na página 28, o poema “Antes do nome”:
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
III
Publicado em 1976, o primeiro livro de Adélia Prado completa seu primeiro meio século como uma das estreias mais marcantes da literatura brasileira contemporânea. O título antecipa que a sua autora (aos quarenta anos de idade) não chegou de mãos vazias. Muito pelo contrário, trouxe consigo na Bagagem a casa, os fazeres, as memórias de família, a religiosidade mineira, corpo, desejo, morte e um anjo esbelto, “desses que tocam trombeta”.
No rescaldo da contracultura, em plena ditadura militar e no momento de efervescência da poesia marginal, uma professora e filósofa de Divinópolis, mãe de três meninos e duas meninas, foi assim saudada por Drummond: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”. E o célebre conterrâneo contou mais, em sua crônica publicada no Jornal do Brasil (em outubro de 1975, ou seja, antes mesmo do lançamento de Bagagem):
Em política, Adélia diz que "já perdeu a inocência para os partidos". "Sou do partido do homem". E sai no meio do discurso. Quer comer "bolo de noiva, puro açúcar, puro amor carnal, disfarçado de corações e sininhos: um branco, outro cor-de-rosa, um branco, outro cor-de-rosa". (...) Adélia já viu a Poesia, ou Deus, flertando com ela, "na banca de cereais e até na gravata não flamejante do Ministro". Adélia é fogo: fogo de Deus em Divinópolis.
IV
ARTE POÉTICA
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Em “Antes do nome”, ao apanhar “um peixe vivo com a mão”, Adélia busca algo anterior à linguagem, uma revelação próxima do divino, que produz “susto e terror”. O peixe não é apenas palavra viva, mas sim a imagem de um mistério que só pode ser tocado – e de alguma forma vivenciado – através da poesia. Anos depois de Bagagem, no citado “Arte poética”, a escritora portuguesa Adília Lopes retoma e leva a imagem para a luta “corpo a corpo”. Ou, como destacou Marília Garcia no Pensar com as mãos (WMF Martins Fontes, 2025), Adília aproxima a escrita de um gesto, uma ação material e artesanal, “apanhar um peixe em movimento, pegar alguma coisa no ar, ligar o botão de rádio que faça tocar uma voz e que nos tire do lugar”.
Semana que vem, a coluna Corte&Costura continua no quintal do Recordança, entre Rosa, Drummond, Adélia, Adília, Brasinha e mais um tanto de mundos entre as mãos.

Bagagem
Adélia Prado
Record
160 pp.
R$ 45



























































































































































































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