Trago uma lição de um curso sobre arte paleocristã de que participei durante minha formação na Itália, onde aprendi a observar e me ater às discretas mensagens, que podem transmitir equivocadamente a ideia de meros elementos decorativos, virtuosismos técnicos ou detalhes arquitetônicos absorvidos de outros povos, mas que na realidade são conceitos potentes, cifrados e compartilhados por comunidades que transpunham suas crenças e identidades com elegância e sutileza.
Há vários anos que identifiquei um padrão claro, algo que havia sido realizado com esmero, com a vontade da permanência, visto que foi entalhado no piso de madeira de um antigo engenho de açúcar pernambucano. Este padrão fugia da organicidade e casualidade das formas que encontrei no local e me trouxe a paradoxal sensação de familiaridade e estranheza. Por anos fiquei com aquele esquema vivo na minha memória, havia algo ali que queria me contar mais do que a estética ou funcionalidade.
Certo dia, numa daquelas ditas coincidências (que penso que ocorram apenas com quem busca), me deparo na internet com um tal jogo-da-onça. Um longa-metragem se formou na minha cabeça. Jogo-da-onça é o único jogo de tabuleiro pré-colombiano de que se tem registro no Brasil. Trata-se de um enfrentamento numericamente assimétrico entre 14 cachorros e uma única onça. O objetivo dos cachorros é aquele de encurralar a onça, deixá-la impossibilitada de realizar movimentos. A onça, por sua vez, tem a capacidade de não apenas devorar os cachorros, mas de decidir se ataca e de quantos cachorros desgarrados comer. Tudo isto é construído num tabuleiro geométrico com casas que permitem basicamente dois tipos de esquemas de movimento.
Por si só, esta belíssima conexão com o território e seus suspiros inesperados, trabalhar cromaticamente com estes esquemas seria apaixonante. Contudo, após pesquisas, buscas e tantas das já mencionadas “coincidências”, vejo que estou apenas no início de uma jornada que nos transporta à ancestralidade além de determinado povo ou local, é aquela que fala da humanidade e sua unidade adormecida pela constante necessidade de fragmentação identitária. Esta enorme teia ancestral se espalha pelas Américas, Sibéria, Sudeste Asiático, Europa e África, com jogos como o Buga-Shadara, Permian Dam-Daman, Rimau, Perali Kotuma, Alquerque, Fox and Geese, que compartilham desde os esquemas de base dos tabuleiros quanto a narrativa de jogo.

Jogo da onça
Gabriel Petribú
2025
Óleo sobre tela
120 x 90 cm


















































































































































































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