Por Paulo André Leitão
A aniversariante vive dentro de um quadrilátero formado pela avenidas Guararapes e Dantas Barreto e as ruas Siqueira Campos e Cleto Campelo.
Para chegar a ela, é preciso ultrapassar o lixo acumulado no meio-fio, construções degradadas ou cercadas por tapume, blocos de concreto dispersos no asfalto, calçadas esburacadas e mau cheiro, mas vale o calvário porque a Praça do Sebo é um oásis.
Cinco grandes árvores recebem quem chega. Três cresceram tão perto uma da outra que seus galhos se entrelaçam, só os troncos distinguem cada uma. A quarta e a quinta fazem da distância das vizinhas o seu trunfo e parecem dominar sozinhas o espaço aéreo, onde, além do céu, veem-se apenas edifícios descoloridos.
O melhor está mesmo em terra firme. O escritor Mauro Mota, estátua sentada em um banco, lê um jornal ao lado de uma pilha de livros. Convite melhor à leitura seria difícil. Os dezenove boxes da Praça ficam de portas abertas de segunda a sábado, das 8h às 17h, quando o fluxo de pedestres e comerciantes nos arredores praticamente termina, exceto nos bares que convivem harmoniosamente com os vendedores de livros. Por questão de segurança, os dois ambientes são separados por uma grade, cujo portão se fecha quando os sebos encerram a jornada.

O mais antigo vendedor é Severino Augusto, do Augusto Livros, boxes 14 e 15. Instalou-se na Praça desde o dia em que ela veio ao mundo, 45 anos atrás. Aos 67 anos, faz questão de dizer que criou os dois filhos com a renda do trabalho de livreiro. Cátia Sales, vizinha de box, chegou há 28 anos e tem cinco filhas, duas das quais trabalham com ela. "Isso aqui é muito bom. De ruim só teve o tempo da pandemia, mas foi sufoco pra todo mundo, não é?", afirma.
Cátia discorre com facilidade sobre o perfil do público ao longo do tempo. Já foi predominantemente de pessoas maduras, idosas até, que sempre compravam livros de conteúdo mais denso. "Marx, Engels, Bobbio", cita. "E os clássicos nacionais e estrangeiros. Machado de Assis, por exemplo, a gente vende o tempo todo". Os atuais consumidores são em sua maioria mais jovens e de gosto mais diversificado. João Gabriel, analista de sistemas, estava na Praça do Sebo pela primeira vez. "Sobrou dinheiro, compro quadrinhos. Achei Batman, comprei. Já andei por outros sebos e gostei muito daqui porque o pessoal sabe vender, sabe conversar com o cliente, descobrir o que ele quer e oferecer o que tem. Fiquei com a impressão de que os vendedores leram tudo. Não é assim nas livrarias dos shoppings", argumenta.
A conversa de Cátia com Janaína Camila, técnica de nutrição, confirma as palavras de João Gabriel.
–Tem O Idiota?
– Temos não. Você já leu algum livro de Dostoiévski?
– Não, me indicaram O Idiota.
– É melhor começar por um mais leve. Se começar com O Idiota, vai parar no meio do caminho. Leia antes Noites brancas.
– Tem ele?
– Tenho não, mas anoto e aviso a você assim que chegar um.

Foto Paulo André Leitão
Conversa vai, conversa vem, Janaína comprou O Velho e o Mar, de Hemingway. Com Matias Ferreira, outro estreante na Praça do Sebo, Cátia não precisou propor nada. "Ouvi dizer que Admirável Mundo Novo é muito bom", disse ele. O Recanto dos Alfarrabistas, nome dos dois boxes de Cátia, tinha o livro. Três clientes, três vendas.
Os comerciantes trabalham com pagamentos em espécie, cartão de crédito/débito ou Pix, mas também trocam ou compram livros. Até livros de graça a Praça tem. Os Alfarrabistas promovem doações no último sábado de cada mês. O cliente pode levar no máximo dois exemplares. Os resultados são tão bons que O Mundo dos Livros e o Sebo Pereira aderiram à iniciativa sábado passado (22), o penúltimo do mês. A única exigência para ganhar os presentes é comprovar ser seguidor dos boxes no Instagram, explica Ivan Matias, responsável por fazer a foto do cliente para brilhar na rede social. As doações chegaram perto de cem livros na manhã daquele dia.
Vinis, CD, gibis e mangás complementam as vendas em volume muito menor que a dos livros, mas servem para ampliar e fidelizar a clientela. Geralmente são produtos fora de catálogo, alguns com valor histórico para colecionadores, outros apenas para garantir a compra de quem tem pouco para gastar. Importante é não deixar clientes na mão.
A Praça do Sebo é um exemplo de escolhas comerciais certeiras, persistência e trabalho coletivo realizado em um ambiente físico que deveria ser bem diferente do que o Centro do Recife oferece. O oásis proporcionado pelas árvores, pelos bancos de praça, pelo universo da literatura e pela interação entre comerciantes e clientes tem potencial para crescer. Os investimentos necessários provavelmente não seriam altos.
Motivos não faltam para soprar as velas dos 45 anos com alegria e confiança no dia a dia. A festa começa às 9h deste sábado (29) e entra pela tarde. Tem exibição de filme, conversas literárias, lançamento de cordel e outros livros, e música, muita música. Os boxes estarão abertos. Quem for terá oportunidade de comprar, trocar ou ganhar um pedacinho do oásis em forma de livro. Aconteceu comigo. Fui trabalhar e comprei, bem mais barato, Como as democracias morrem - título que, espero, nunca sirva de inspiração para a história da Praça do Sebo.


















































































































































































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