Por Cristiano Santiago Ramos
I
Uma amiga da Unicamp (nos tempos do doutorado jamais concluído) perguntou por que eu não escrevia sobre a poesia da Claudia Roquette-Pinto. É que eu sempre lhe dizia gostar muito. Eis que, uma década depois, sigo sem justificativas. Mas essa foi uma das razões desta coluna na Revista Araçá: ter um lugar – possível e nada resolvido – para as incontáveis questões das quais nunca dei conta.
Em vez de análise, de juízos e outras bobagens, abro A extração dos dias: poesia 1984 – 2005 (Círculo de Poemas, 2025) em busca dos meus versos preferidos (e de alguns sustos).
Só então, depois de tantos anos, ao reler o “Zerando” (ah, como gosto desses versos de abertura: existe um mês que desconhece o branco/ tropéis de inseto estreiam seus metais), veio à cabeça a canção de mesmo nome, parceria dos irmãos Antonio Cicero e Marina Lima.
Tem alguma coisa nisso? Penso rápido (e sem querer) que existe sim, um deus ou dois, ou muitos, com uns lances assim... Deixa pra lá! Porque, duas páginas e dois meses depois,
março me deserta como se eu fosse um átrio
na fuga o pano persa faz estardalhaço
lufada: anos áureos maltratam os ares
outono aponta depressa e dilui os terraços.
II
É inevitável. Você começa a ler os poemas da Claudia, e as paisagens e coisas ao seu redor começam a ganhar vida, mover-se, dizer, desejar... Mas eu já disse: não quero e não vou teorizar. Saibam apenas que já são os anos 90, quase metade do livro se passou, e tem esse “Vão”
Palavra-persiana
poema-lucidez
imanta o ar fora do cômodo
das frases um outono
rente à janela
ouro tonto sobre a tarde derrubada
entrementes, entre dentes
(e quatro paredes)
tua boca ainda invoca
equivoca e pobre.
na penugem além da vidraça
os deuses-de-tudo-o-que-importa
cerram as pálpebras de cobre
Nesse fim de inverno quase frio do Recife, abro um documento no computador. Veio assim, entre os dentes do poema, o parágrafo de abertura do meu próximo romance (o segundo de uma trilogia sobre as mulheres que resistem a ditaduras). Suspeito que o raio e as palavras cairão pela segunda vez e, no domingo, já terei um livro pronto.
O título? Tá naquele mesmo disco da Marina, na faixa “A virgem” (outra parceria com o poeta que não sai da minha cabeça nem da Corte&Costura): As coisas não precisam de você. O parágrafo? Logo aí. E a protagonista, não é óbvio? Chamarei de Claudia.
“Eu sei. Vocês gostariam de ler sobre a noite em que matei aquelas pessoas. Mas fui escritora e roteirista, vivi disso por mais de trinta anos, e posso lhes garantir: seria relato dos mais enfadonhos, além de absolutamente inútil. Em vez, ofereço a história que mastiguei por anos (com paciência e delicadeza só possíveis quando temos entre os dentes algo que não deveria ser publicado). É a única coisa que ainda pode me render algum dinheiro, porque fugi com quase nada de valor, apenas dez mil reais emprestados, duas câmeras fotográficas e esse relógio que ganhei de presente nem sei mais por qual razão. O relojoeiro da fronteira levou minutos para consertá-lo. Fiquei parada diante do espelho da loja, afastei os cabelos e confirmei a irrelevância de qualquer disfarce; deixara meu nome e meu rosto numa calçada lá do Recife, apoiados no meio-fio, vendo-me subir no ônibus para nunca mais.”
III
É domingo. Terminei o romance.
É Domingo. Dia de Obaluaê.
Atotô.

A extração dos dias
Claudia Roquette-Pinto
Círculo de Poemas
368 pp.
~ R$ 88


















































































































































































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