Amaraji, a grande tela da Mata Sul

20 ago 2026 | 0 comentários

Foto Breno César/Divulgação

Por Cleodon Coelho

Em uma noite de sábado, em abril do ano passado, o agricultor Joseni Cosme da Silva deixou sua casa no Assentamento do Engenho Estivas e percorreu dez quilômetros de bicicleta até chegar ao centro de Amaraji. Tudo isso para acompanhar o encerramento da quarta edição do Cinema na Mata - Curta a Palavra. Sob a lona de circo instalada no Pátio de Eventos Valmir Soares especialmente para a mostra, ele pegou um saco de pipoca e se sentou na segunda fileira. Durante algumas horinhas, deixou as preocupações de lado  e se emocionou com os curtas-metragens exibidos naquele dia. Voltou para casa feliz e prometeu nunca mais perder uma edição do festival. “A gente se diverte vendo os filmes, mas também aprende muita coisa”, garante ele, que se emocionou com a história da bacamarteira Mestra Leninha de Taquaritinga.

Um ano e quatro meses depois, Joseni se prepara para experimentar novas emoções. Uma seleção especial de longas-metragens, incluindo o premiadíssimo “O Agente Secreto”, integra a programação do V Cinema na Mata - Curta a Palavra, projeto criado e desenvolvido pela cineasta e jornalista Clara Angélica e pela produtora Jô Conceição, que este ano tem como tema “Histórias de Resistência”. Para Clara, escolher Amaraji como sede tem um significado particular. “Tanto a minha família materna como a paterna têm origem em Amaraji. Eu nasci no Recife porque não tinha maternidade, mas cheguei à cidade aos 21 dias e vivi os primeiros anos por lá”, conta Clara. “É uma alegria participar dessas celebrações, que são pensadas realmente para o município. Geralmente fico muito emocionada, quase paralisada, quando chega o momento de viver esses projetos. De alguma forma, é uma maneira de devolver à cidade o tanto que ela foi e é importante na minha formação como pessoa. O amor, o afeto, a solidariedade, a gentileza, a amizade, os livros, tudo isso e muito mais eu descobri, vivi e continuo usufruindo na cidade”.

Clara Angélica e Jô Conceição são as idealizadoras da mostra. Foto Edson Gomes/Divulgação

Antes do Cinema na Mata, Clara e Jô haviam realizado duas edições do Livros Andantes, projeto de leitura que levava aos assentamentos do MST, nos caçuás dos jumentos, livros de autores nacionais, formando bibliotecas comunitárias. “A partir daí, pensamos em como apresentar a literatura utilizando outro suporte, mostrando que filmes podem ser adaptados dos livros. A primeira edição gerou uma expectativa muito grande na equipe porque, além das exibições, estávamos trazendo oficinas com formações totalmente desconhecidas: stop motion e cineclubismo. Ao mesmo tempo, havia uma tranquilidade porque Amaraji tem essa característica de acolhimento, de hospitalidade. E foi uma experiência extremamente exitosa e proveitosa. O envolvimento das pessoas, tanto na Zona Rural como na cidade, foi impressionante.  Procuramos criar uma ambiência lúdica, montando a sala de cinema sob a lona do circo”, recorda Clara.

E Amaraji, distante quase 100 quilômetros do Recife, já está com a lona novamente pronta para a festa. A mostra começa na segunda-feira (24), com duas oficinas. Ministrada por Rodrigo Philippini e Lujan Farias, “Do Papelão ao Livro: Costurando Memórias sobre Amaraji” vai acontecer até a sexta (28) na Biblioteca Municipal Dom Carlos Coêlho, das 8h30 às 12h30, com o objetivo de produzir e difundir livros cartoneros - feitos de forma artesanal -, resultando na criação de obras que resgatem memórias, narrativas e aspectos culturais do município. Já “Do Livro ao Filme”, que terá o cineasta, professor e crítico de cinema Alexandre Figueirôa como condutor, será realizada nos mesmos dias, das 13h30 às 17h30, na Escola Municipal São José da Boa Esperança, possibilitando que os participantes conheçam os processos de adaptação de modo a entender a relação entre cinema e literatura. A ideia é capacitá-los para transformar uma obra ficcional em roteiro cinematográfico.

Rodrigo Philippini e Lujan Farias vão dirigir a oficina de livros cartoneros. Foto Edmar Gomes/Divulgação 

Em setembro, o Assentamento do Engenho Estivas, onde o agricultor Joseni mora, recebe a oficina “Para Se Acercar das Próprias Histórias”, com Verônica Pragana, cuja proposta é reconectar os participantes com suas próprias histórias, estimulando a memória, a escuta e a ressignificação de experiências muitas vezes esquecidas. Haverá também exibição de filmes, entre os quais O Auto da Compadecida 2. “Essa mostra é importante por levar cultura para territórios onde as políticas públicas dificilmente chegam. Nos assentamentos por onde o Cinema na Mata passa, a grande maioria das pessoas nunca foi ao cinema. Por isso, o cinema vai até eles para proporcionar vivências inéditas”, frisa Jô Conceição.

Já a programação de longas no centro de Amaraji começa na quarta (26), às 16h, no EREM Antônio Alves de Araújo, com Corisco e Dadá. Festejando 30 anos, o filme escrito e dirigido por Rosemberg Cariry marcou presença em importantes festivais mundo afora, incluindo os de Toronto, no Canadá, e Ankara, na Turquia. Na história, o capitão Corisco é um condenado de Deus, cuja missão é lavar com sangue os pecados do mundo. Um dia, ele rapta Dadá, e suas vidas mudam completamente. Diante da morte de um filho, tomado de fúria, Corisco rompe com Deus, e Dadá tenta salvá-lo do abismo do ódio. No elenco, estão Chico Diaz, Dira Paes, Regina Dourado, Denise Milfont e Virgínia Cavendish.

Filmes para a criançada também compõem a programação. Foto Breno César/Divulgação

Na quinta (27), além dos curtas “Quem Semeia Lixo Colhe Inundação”, de Anninna Dias e Céu, e “Cidade Apagada: Declínio da História”, de Ana Paula, Gerlany Barros, Lóren Stayner e Márcio Meira, o Pátio de Eventos Valmir Soares recebe ainda “A Luneta do Tempo”, dirigido por Alceu Valença e estrelado por Irandhir Santos e Hermila Guedes, nos papéis de Lampião e Maria Bonita. “Fiquei muito feliz de saber que esse trabalho, tão especial na minha trajetória, seria exibido em Amaraji. Foi num engenho na Zona Rural da cidade que eu fiz o meu primeiro trabalho em cinema, o curta ‘O Pedido’, de Adelina Pontual, com a maravilhosa Geninha da Rosa Borges”, vibra Hermila.

Hermila Guedes e Irandhir Santos em A Luneta do Tempo, destaque do Cinema na Mata. Foto Divulgação

A tarde da sexta (28) será dedicada à criançada. A programação, que começa às 16h, conta com “Salu e o Cavalo Marinho”, de Cecília da Fonte, “As Aventuras de Pety”, de Anahí Borges, “O Menino que Sabia Voar”, de Douglas Alves Ferreira, e “Quintal”, de Mariana Netto. A partir das 19h, serão mostrados os curtas “De Criança a Idoso: Todo Mundo Acorda Povo”, de Lóren Stayner, que conta a história do Acorda Povo, manifestação cultural que atravessa gerações e transforma as ruas de Amaraji em um grande cortejo de memória, identidade e celebração, e “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, sobre a inesperada falência de um McDonald's. Logo depois, passa “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira, sobre a cidade pernambucana que tem o mesmo nome da capital da Argentina.

E no sábado, encerrando o festival, o Cinema na Mata recebe, a partir das 19h, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que foi indicado em quatro categorias ao Oscar 2026. No elenco, encabeçado por Wagner Moura, destacam-se a própria Hermila Guedes, Robério Diógenes, Maria Fernanda Cândido e Fabiana Pirro, que será a mestre de cerimônias da mostra. “A primeira vez que estive em Amaraji foi atuando como atriz, dentro da programação do Fliamar, com #MedusaMusaMulher. Agora, volto como apresentadora. Será uma honra ser porta-voz deste projeto tão importante, que leva grandes filmes de forma gratuita para a população desta cidade que tanto valoriza a cultura e que sabe da importância do cinema para despertar o olhar crítico sobre a nossa própria história”, festeja Fabiana. A Mata Sul agradece.

Fabiana Pirro encenou #MedusaMusaMulher e volta como apresentadora. Foto Beatriz Prata/Divulgação

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