Quatro anos depois, nenhum dia sem poesia

6 ago 2026 | 0 comentários

Foto Éber Pimenta

Por Marcelo da Silva 

Embora reconhecido como um dos principais nomes da poesia brasileira contemporânea, com direito a fazer parte da exposição permanente do Museu da Língua Portuguesa, João Flávio Cordeiro da Silva, o Miró da Muribeca, jamais reivindicou para si esse lugar. Sua poesia é de cotidiano sólido, de reencontro com a infância, da criança com perguntas diretas que desestabilizam adultos — “Deus também tem dúvidas?”. Miró dizia que sua poesia entendia o gari e o engenheiro, e ora aqui ora ali o trabalhador surge em seus versos carregados  de sensibilidade: é uma poesia que está nos bares, nos mercados, no pregão dos vendedores de óculos do centro do Recife. É poesia de ágora e agora, nascida nas ruas e nelas encontrando sua permanência. 

Segundo o escritor Marcelino Freire (leia o artigo dele sobre Miró nesta edição), em depoimento para o livro Estou quase pronto: uma biografia de Miró da Muribeca, escrito por Wellington de Melo, “Miró é a poesia defendida no corpo”. De fato, a relação de Miró com o espaço urbano e com a performance é tão grande que levou o pesquisador, poeta e professor André Telles do Rosário à criação do neologismo corpoeticidade, usado em sua dissertação de Mestrado de 2007 para caracterizar a literatura performática de Miró. Esse conceito une três elementos centrais da sua criação artística ー o corpo, a poética e a cidade ー e se desdobra em três dialéticas fundamentais: a forma da poesia no corpo, a habitação desse corpo na cidade e a presença da cidade na sua poesia. Dada essa relação intrínseca entre a poesia de Miró, seu corpo e a cidade, e depois de sua partida do plano terreno, ainda há quem pergunte: sua poesia resistiria à sua ausência?

Miró na permanência na ausência

Quatro anos após sua morte, em 31 de julho de 2022, sua presença parece ainda mais intensa. No entanto, o caminho mais fácil é pensar que Miró, por conta de sua oralidade e de suas performances, não permaneceria nas estantes. A realidade, no entanto, é outra. Segundo Jefferson Marques Pessoa, superintendente comercial da Cepe Editora ー que detém os direitos da obra do poeta ー Miró é um long-seller. “Miró até agora está na sua décima reimpressão. Desde sua publicação, ele sempre aparece entre os seis primeiros títulos mais vendidos da editora”, afirma. A biografia Estou quase pronto é o segundo título mais vendido da editora ー atrás apenas de Pelas ruas que andei, biografia de Alceu Valença. Além disso, a editora tem planos de publicar a poesia reunida do poeta (confira a entrevista com o editor Diogo Guedes). 

A obra de Miró segue também cruzando fronteiras: em 2023, integrou a antologia Versos no cartão: poesia vívida no Brasil e Galiza, ao lado de Micheliny Verunschk e Antonio Carlos Secchin ー o título foi reimpresso este ano durante oficina a alunos do curso de Letras da Universidade de Santiago de Compostela e integra a biblioteca da instituição. A revista Latin American Literature Today publicou este ano poemas de Miró traduzidos para o inglês, por Robert Smith, e espanhol,  por Rogério Mendes e Wellington de Melo. 

Miró já havia sido publicado em 2019 na antologia Quilombo – Cartografía, Autoría Negra, Brasil (Tinta Limão, 2019) organizada pela pesquisadora argentina Lucía Tennina.  A organizadora conheceu a obra de Miró por meio do Sarau do Binho e de Marcelino Freire, e, do encantamento com a leitura, veio o desejo de traduzi-lo. “A antologia não é o lugar de chegada, a ideia é que a partir dela alguns desses autores possam ter livros autorais circulando em espanhol, e nosso próximo projeto é publicar um só com Miró”, afirma Tennina.

Valentine Bonomo, tradutora de Miró para o francês. Foto Joan Calvet/Divulgação

Por fim, está prevista para este ano a publicação, na revista francesa Papier Machine, da tradução de Valentine Bonomo de alguns poemas de Miró. “É uma poesia muito sensível, muito subjetiva, mas também reflete realidades sociais difíceis e violentas que devem ser visibilizadas. Ele mostra que nessas vidas também há amor e contemplação, necessidade de luta pela vida”, afirma  Valentine. Sobre o processo de tradução, afirma que é ao mesmo tempo difícil e divertido: “Acho o ritmo dos poemas extraordinário. Parecem, mas na realidade têm muitos jogos, humor, duplos sentidos, referências, deslizamento nos significados. Como traduzir sem perder as referências? Como transpor especificidades idiomáticas? Nunca há equivalência e sempre vamos perder coisas. Acho muito importante não esquecer que ele brinca com a língua e fazia uma poesia para ser lida em voz alta”, reflete a tradutora.

Todas essas iniciativas formam  um percurso que amplia o alcance internacional de uma obra profundamente enraizada nas ruas do Recife, mas que cada vez mais é universal.

A memória de Miró nas ruas

A poesia e a memória de Miró seguem caminhando pelas ruas mesmo após sua partida. Seus poemas circulam nos ônibus, nas salas de aula, em diversos saraus, são compartilhados nas redes e em pesquisas nas universidades e nos encontros sobre literatura. Mas é nas ruas do Recife que reside a maior identificação com seu trabalho, e nada mais justo que essa marca ficasse registrada no coração da cidade. No dia 14 de março de 2024, foi inaugurada na avenida Rio Branco uma estátua do poeta, esculpida pelo artista Demétrio Albuquerque, que conheceu Miró ainda nos anos 1980 ー é de Demétrio a capa do livro São Paulo é fogo

Inauguração da estátua de Miró no Recife Antigo. Foto Acervo Miró da Muribeca

O projeto da estátua, que integra o Circuito da Poesia, foi iniciativa da vereadora Cida Pedrosa, amiga de longa data e parte do grupo de apoio que o ajudou nos últimos anos durante o tratamento contra o câncer. “As esculturas são importantes para a gente deixar no passeio público a história da vida de nossos escritores. Miró é uma dessas pessoas, e a estátua dele está num lugar maravilhoso, na Rio Branco. Ali passa muita gente que conversa com ele”, afirma a poeta, que também submeteu em 2022 um projeto à Câmara Municipal do Recife para instituir o dia 6 de agosto, dia do aniversário de Miró, como Dia Municipal do Alegrismo.

O “alegrismo” é um neologismo registrado no poema “Manifesto alegrista”, do livro aDeus (2015) [“o alegrismo requer um riso incansável/ um bom dia todo dia/ tanto bate até que um dia/ eles levem a sério”], mas Miró já o utilizava, para brincar com os “ismos” que rodeiam a literatura, chamando-se de “alegrista”. Hoje, o alegrismo pode ser entendido como uma forma de olhar para o mundo com irreverência, sensibilidade e compromisso social. Em seus versos, Miró fazia rir, mas também expunha as desigualdades, desmontava discursos perversos e revelava a humanidade escondida nas pequenas histórias da cidade.

Embora o projeto do Dia do Alegrismo ainda aguarde votação na Câmara, desde  2023, o Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, Muafro, que fica bem pertinho da estátua de Miró no Recife Antigo, celebra a memória e a obra de Miró. Para o professor Auríbio Farias, um dos articuladores da celebração, manter o Dia do Alegrismo vivo é contribuir para que Miró seja lembrado como um poeta importante. “Um poeta que, com paixão e com humor, soube observar Recife, seus bairros, o vai e vem de anônimos pelas calçadas, a indiferença nas estruturas sociais. E, com esse olhar atento e sensível, criou uma obra que deve ser conhecida pelas novas gerações. Precisamos celebrar a obra de Miró”, afirma Auríbio.

Esse compromisso também orienta as oficinas “Meu Lado Greenpeace”, conduzidas pela poeta Flávia Gomes. Voltadas a estudantes da ETE Porto Digital, as atividades aproximam poesia, direitos humanos e justiça ambiental, temas presentes na obra de Miró. “Esses temas não aparecem como conceitos, mas como experiências vividas. Quando ele fala de moradia, saneamento, mobilidade, violência, desigualdade e pertencimento, está falando da vida das pessoas e da cidade. Aproximar poesia, direitos humanos e justiça ambiental é reconhecer que essas questões estão profundamente conectadas e que a poesia pode e deve nos ajudar a enxergar essas relações com mais sensibilidade e consciência”, comenta a escritora.

Um legado vivo

Além da celebração, outras iniciativas começam a ganhar forma. O coletivo Somos Todos Muribeca trabalha na criação de um Ponto de Cultura dedicado à memória do poeta no bairro onde viveu. A coordenadora do projeto, Rebeka Oliveira, reconhece que, apesar da difusão da poesia de Miró não apenas em Pernambuco, mas no Brasil,  a Muribeca, bairro onde viveu e construiu sua identidade, ainda não possui um local permanente dedicado à preservação de sua memória e de sua obra. “Além da implantação desse espaço, realizaremos uma formação voltada para professores e professoras da rede pública municipal de Jaboatão dos Guararapes, contribuindo para que a vida, a obra e a poesia de Miró cheguem às salas de aula e sejam conhecidas pelas crianças e adolescentes”, explica Rebeka.

O espaço disponibilizará livros, sua biografia e registros audiovisuais, tornando-se um ambiente acessível de consulta, preservação da memória e valorização da cultura periférica dentro da comunidade, transformando a trajetória do poeta em fonte de inspiração para novas gerações de escritores, artistas e agentes culturais. 

Miró vai ganhar um site 

O escritor e editor Wellington de Melo lança no Dia do Alegrismo o site de Miró, resultante da ampliação da pesquisa para a escrita de Estou quase pronto. A plataforma nasce como um espaço permanente de consulta sobre a vida e a obra do poeta, reunindo documentos, registros iconográficos e materiais de pesquisa que permaneciam dispersos. Wellington, que é curador e legatário da obra de Miró e administra seus perfis no Instagram e Facebook, comenta o impacto da ação: “Miró tem uma base fiel, que produz conteúdo de forma espontânea, postando poemas ou gravando vídeos, mas tudo está disperso. O site vai servir a pesquisadores como uma fonte confiável de dados”.

A poesia de Miró  fala sobre o Recife sem separar beleza de denúncia. Esse seu olhar, na verdade, é o mesmo olhar que lança para o humano: aí talvez resida a permanência.  A cada ano surgem novos leitores, pesquisas, traduções e iniciativas dedicadas a preservar uma obra que se tornou patrimônio afetivo da literatura pernambucana. 

Miró e sua poesia seguem, sim, muito vivos.


Programação do Dia do Alegrismo
66º aniversário de Miró da Muribeca

Quinta-feira, 6 de agosto

"Tem certas coisas que até hoje …"

14h –  Encontros do Cinema Pernambucano em homenagem  a Miró

Local: Biblioteca Pública Estadual 

18h – Miró Sinfônico – com Max Antonio

19h – Miró na rede ー lançamento do site de Miró e apresentação da pesquisa  de Wellington de Melo 

20h  – Miró e a rua – Intervenção do Slam das Minas PE

Local: Muafro –Sala Miró da Muribeca ー Rua Mariz e Barros, 328, Bairro do Recife.

Sexta-feira, 7 de agosto

"Quando se gosta, carrega-se tijolos juntos”

19h – Récita alegrista ー Poemas com Cida Pedrosa

19h30 Daniela Câmara em Flagrante Deleit0, Um encontro poético com Miró

20h – Uma Canção para Miró – Pocket show com Juliano Holanda, Jonatas Onofre e Una Menino

Local: Casa de Alzira – Sala Inaldete Pinheiro – Rua Mariz e Barros, 328, Bairro do Recife.

Sábado, 8 de agosto

"Eco Lógico”

16h – Performance Teatral com Bell Puã e Iyadirê Zidanes

17h – O Ato da Escrita – Conversa com Inaldete Pinheiro

17h30 – Sarau com o Grupo Afrologia

Local: Muafro –Sala Miró da Muribeca


Marcelo da Silva é jornalista negro, apaixonado pelas palavras e comprometido com a valorização da arte e da cultura negra. Atua na comunicação cultural, produzindo narrativas que preservam memórias, ampliam vozes e fortalecem a produção artística afro-brasileira.

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