Por José Teles
Na iconografia do manguebeat a banda olindense Eddie é uma das mais cultuadas e sempre citada quando o tema é o movimento que teve em Chico Science seu nome mais destacado. Porém a Eddie é pré-mangue, de 1989, e só pegou embalo mesmo com o combustível distribuído pelo ebulição dos manguezais, embora só tenha lançado disco de estreia em 1998, pela Roadrunner, gravado em Phoenix, no Arizona.
Muitos anos, histórias e formações diversas, a Eddie chega ao 11º álbum (com mais uma coletânea retrospectiva), Noturna, agora como um quarteto, integrado por Fábio Trummer, Rob e Kiko Meira e André Oliveira. “Ureia saiu fez um ano em janeiro. Vi que precisava de uma transição, adaptar a voz pra cantar sozinho ou contratar alguém pra cantar. Mas logo já rolou, chegamos num ponto que eu achei que dava pra ir. A gente precisa de um álbum para caracterizar os quatro, este álbum. A gente fez meio a toque de caixa, mas eu estava há dois anos me preparando pra fazer. Estava nesta angústia da criação”. O comentário é de Fábio Trummer, agora morando em Brasília (pra estar perto dos filhos que estão morando lá com a mãe), depois de 15 anos em São Paulo.
Noturna é um trabalho que deve surpreender os fãs da Eddie, por seguir o modelito original Olinda style e, ao mesmo tempo, ser um disco em que as melodias destacam-se, embora suingado, dançável, não tem instrumentais calientes, com cara de tarde de domingo olindense. Seria influência de tantos anos em São Paulo, mas a mudança para Brasília? “Tem Olinda, cara. Fiz todas as músicas no violão, Na minha cabeça era uma coisa meio Beatles, não tem solos, quase nada de solos. O que eu faço nas músicas nem chamo de solo. Na parte instrumental, fazia como Elton John ou Beatles, um pianão melódico pra chamar este tipo de canção, A ideia era um disco de canções mesmo. A gente sempre fez instrumentais, alguns longos, desta vez resolvemos tirar todos”.
Repertório e participações
“'Tim tom', uma música de ninar que fiz pros meus filhos. Quando fazia e gostava, gravava no celular. Quando fui ouvir um monte de arquivo, achei esta e trouxe pro disco que é muito refrão, estrofe, melódica, se não tomar cuidado fica repetitivo. No álbum tem que haver diversidade. Tem que quebrar, senão fica chato, a mesma coisa o tempo inteiro, repetição de quadrados em tons diferentes”.
“Júlia é de Brasília, fiz um réveillon aqui com ela, a nossa voz super combinou. E adorei porque produzi um disco em que ela também gravou. Adorei a voz. E ela topou participar e ficou perfeito. A The End, em que Gaspar Andrade toca o realejo, eu gravei com o Trummer S/A, eu via nela o Eddie. E tem nela uma coisa engraçada, as pessoas escutam e acham que reflete o fim de um relacionamento. Mas na verdade é o apocalipse, o fim do mundo”.
Para deixar o disco ainda mais com cara de Olinda original style, só mesmo uma música de Erasto Vasconcelos (1947/2016), o Eddie honorário, autor de uma das canções mais conhecidas do grupo, O Baile de Betinha. Neste disco foi Poema da Paz: “É do jornal da Palmeira, de Erasto. Eu queria gravar uma música que não fosse da gente. Pensei em Sábado em Copacabana, de Caymmi, mas aí me veio esta. Também é um bom momento, a gente está vivendo um tempo de intrigas, de guerras, e ela traz uma mensagem bonita. É também uma maneira de ter Erasto de volta. André foi na gravação do disco, pegou a voz, e vieram as coincidências. Ele cantava no mesmo tom, e não precisou alterar porque ela se encaixou perfeitamente no arranjo que tínhamos feito.
Para a produção, foram em busca de um cara que é tão a cara de Olinda quanto a própria Eddie: Buguinha Dub, assim como o grupo do tempo do Bob do Pina de Copacabana, da era mangue: “Quando a gente se reuniu com Buguinha, eu disse que queria afirmar o Eddie, usar o que o grupo tem de mais característico na frente. Buguinha é um cara do dub, talvez o mais foda do país, tanto no PA, quanto na produção. Ele tá mixando um trabalho só pra gente grande. Tem muito conhecimento. O Eddie tá com 30 e tantos é, toca junto há muito tempo. Eu queria aproveitar tanto o nosso conhecimento quanto a sua. Ele sabia que a Eddie era uma banda de garagem, já tinha feito Carnaval no Inferno (2008), disse que é disco de garagem que deu muito certo. Ele disse que queria fazer um disco da Eddie com a cara de Olinda, com esta tecnologia olindense, com essa maneira que a gente faz, diferente do que os outros fazem. Era exatamente o que a gente queria”, elogia Trummer.

Disco
Noturna, que lhe dá nome e abre o disco, é um sambolero, meio Samba pa Ti, de Carlos Santana, com sabor de madrugadas olindenses, fim de noitada na Soparia, com um belo e melancólico solo suave de guitarra, um dos melhores momentos da música da Eddie. A faixa seguinte, Pode Ser, é a Eddie sendo Eddie, com uma caldeirada de ritmos, melodiosa e dançante. As demais faixas seguem, mais ou menos, esta linha, sempre enfatizando o formato canção.
Quarenta e seis deleitosos minutos. Com exceção das duas faixas iniciais, feliz parceria com Samuel Mota, músico brasiliense (da banda Muchaco), que burila as harmonias, e a citada Poema da Paz, as demais canções levam a assinatura de Fábio Trummer, com sugestões dos companheiros de banda, que, com Buguinha Dub, revestem o estilo do grupo de sutileza, mais do que a exuberância suingada de álbuns anteriores.
Reforçando o trabalho, as participações especiais: JR Tostoi (guitarra), Maestro Babá (trombone) Leandro Gervásio (tuba), Sofia Mota, Sofia Teixeira, Julia Carvalho (vozes), Vitor Trummer, (flauta), Samuel Mota (teclado e violão), Icaro Annes (escaleta), Gilsinho (percussão), Zé Cafofinho, (rabeca e bandolim) e Gaspar Andrade (realejo).
Fábio Trummer
Quando o rock and roll explodiu mundo afora, em 1955, com um caubói coroa, de 35 anos, Bill Halley e seu grupo Os Cometas, abalou o mundo dos adultos. Seus filhos não queriam mais saber de Frank Sinatra, Dean Martin, Doris Day. Um ano depois, a coisa piorou, surgiu um jovem sulista, cantando música de preto, rebolando, enlouquecendo as garotas, sendo copiado pelos garotos. Suspeitou-se de trama comunista. Iniciara-se a decadência do ocidente graças àquele ritmo selvagem.
Os coroas estavam certos, em parte. O ocidente não entrou em decadência, pelo contrário, entrou numa fase de opulência econômica nunca antes vista. Mas o rock continuou a influenciar pessoas e a fazer amigos pelas décadas à frente. Nos anos 1980, arrebatou um garoto olindense, que aprendeu a escutar música pelos discos do pai, que tinha bom gosto, mas não exatamente igual ao dele. Fábio Trummer, aquele rapaz olindense, estava com 20 anos quando decidiu ser músico: “Mas eu achava que se fosse pra fazer música teria que pensar numa estratégia que fosse pra vida toda. Não dava pra perder tempo tocando, e depois ficaria atrás na competição. Tinha uns 19, 20 anos”.
Ele até tentou. Passou em Arquitetura, fez até o quarto ano. Nesse período chegou para o pai e falou: “Olhe, o senhor tá pagando, e eu percebi que não vou ser arquiteto. Vamos fazer uma coisa. Você me dá o dinheiro de uma mensalidade, e eu gravo uma fita demo. Vou sair da faculdade para não estar gastando dinheiro à toa. Gravei a primeira fita demo, e não parei mais”.
Assim começaria a Eddie. As fitas foram vendendo, ele nem pegava mais dinheiro com o pai. Investia nas gravações de fitas. Ia vendendo, fazendo mais. Passou a tocar nos bares de rock de Olinda, como o Poco Loco, um dos primeiros do gênero. Nem se sonhava com uma cena musical do Recife/Olinda que alcançasse com rapidez o Rio, São Paulo e o restante do país. Simultaneamente, outros jovens de 20 anos passaram a se dedicar a bandas, caso de Fred Montenegro, em Candeias, Francisco França, em Rio Doce, Marconi Santos, “Cannibal”, no Alto Zé do Pinho.
Este pessoal foi se conhecendo nos points, como a loja Discossauro, de Carlinhos Freitas, que também era músico, e produziu um dos primeiros discos dessa cena, da banda Academia do Medo. A Discossauro, na Sete de Setembro, ao lado da Escola de Direito, virou ponto de encontro onde as pessoas trocavam ideia, ouviam música. E sabiam das gigs. Quase 40 anos depois, Fábio Trummer sabe que vai viver o rock and roll, à maneira olindense, até o fim. Por ora, monta o repertório dos sete shows já marcados para a turnê de Noturna, que chega a Pernambuco, primeiro em Caruaru (29 de agosto), e no Recife só em novembro (dia 14, no Teatro do Parque).


















































































































































































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