Abrir um livro é muito mais do que aprender a ler. É descobrir novos mundos, construir identidade, ampliar repertório e desenvolver a imaginação. Mas, antes de um leitor nascer, existe uma rede de pessoas e espaços que desperta esse interesse: famílias, professores, contadores de histórias, bibliotecas, livrarias, escritores, ilustradores e projetos que fazem da literatura um encontro.
Ao longo das próximas edições, a série especial Primeiras páginas vai mostrar como Pernambuco vem formando novos leitores dentro e fora das salas de aula. Nesta primeira reportagem, abordamos como as livrarias deixaram de ser apenas locais de venda de livros para se transformar em espaços de cultura, convivência e formação de leitores, reunindo contações de histórias, oficinas, encontros com autores e atividades que aproximam crianças e famílias do universo da leitura.
Por Pedro Cunha
“Mãe, quando a moça terminar de contar, a gente pode levar esse livro para casa? Quero ler de novo.” O pedido de Helena Albuquerque, de sete anos, veio antes mesmo de a história chegar ao fim. Sentada na primeira fila da roda de contação na Livraria do Jardim, área central do Recife, ela acompanhava cada palavra com os olhos atentos, respondia às perguntas da narradora e ria junto com as outras crianças. Ao lado, a mãe, Carolina Albuquerque, de 39 anos, fisioterapeuta, observava a cena em silêncio. Desde que a filha aprendeu a juntar as primeiras letras, os fins de semana da família costumam incluir uma visita às livrarias da cidade. Em casa, a leitura faz parte da rotina, sempre compartilhada entre pais e filha.
Naquela manhã, Helena não correu para escolher um brinquedo nem pediu para ir embora logo depois da atividade. Caminhou até as estantes em busca do livro que acabara de ganhar voz na contação. Queria reviver a história, agora pelas próprias páginas. A cena, comum em muitas livrarias da cidade, revela uma transformação que vai além do mercado editorial: esses espaços deixaram de ser apenas pontos de venda para se consolidarem como ambientes de cultura, convivência e formação de novos leitores.
Hoje, contações de histórias, oficinas, encontros com autores, clubes de leitura e programações especiais durante as férias escolares ocupam lugar de destaque na agenda das principais livrarias da capital. O objetivo deixou de ser apenas vender livros. A proposta é criar experiências capazes de despertar o vínculo entre crianças, famílias e literatura.
Os dados mais recentes mostram que ainda há desafios para formar novos leitores no país. A edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, revela que 53% dos brasileiros não haviam lido, total ou parcialmente, nenhum livro nos três meses anteriores ao levantamento, enquanto 47% foram considerados leitores, uma queda de cerca de 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior, de 2019.

Histórias que despertam leitores
Poucas pessoas acompanharam essa transformação tão de perto quanto a contadora de histórias Ilana Ventura. Antes de dedicar a carreira à literatura infantil, ela trabalhava como cantora em festas para crianças. A mudança começou dentro de casa, após o nascimento da filha, Maria Clara.
“Apresentar músicas e histórias para minha filha acabou despertando também o interesse de outras crianças. Foi quando percebi que aquele universo podia se transformar em profissão”, conta Ilana.
O primeiro convite para contar histórias surgiu por acaso. Durante uma visita a uma livraria para divulgar seu trabalho musical, foi convidada a narrar um livro. A apresentação agradou tanto que vieram novos convites para os fins de semana seguintes. Vieram também cursos, oficinas e o aperfeiçoamento da técnica.
Quase dez anos depois, Ilana leva suas histórias para escolas, feiras literárias, livrarias e outros espaços culturais. A experiência como contadora de histórias também a levou à literatura. Ela é autora dos livros infantis Mãozinha Feliz, Chega de Extinção e ABC das Frutas, todos publicados pela Editora Prazer de Ler. Para ela, ouvir uma boa história pode ser o primeiro passo para formar um leitor.
“A narração da palavra é muito poderosa. A criança escuta, imagina e depois quer abrir o livro para reencontrar aquela história”, afirma Ilana, acrescentando que esse processo depende da participação da família. “Já ouvi muitos pais dizerem que os filhos passaram a gostar de ler depois de uma contação. Mas isso precisa continuar em casa. É um trabalho feito em conjunto”.
Em tempos de celulares e vídeos curtos, Ilana não acredita em uma disputa entre livros e telas. “São os adultos que apresentam esse universo às crianças. Pais, avós e tios precisam caminhar junto com quem conta histórias e escreve livros”, opina.
A contadora de histórias Nati Melo compartilha da mesma percepção. Presença constante em livrarias, escolas, parques, bibliotecas, shoppings e festivais literários, ela diz que esses espaços entenderam que contar histórias significa muito mais do que entreter. “As livrarias compreenderam que a contação transforma o livro em uma experiência viva”, afirma. Em suas apresentações, música, objetos cênicos, personagens e brincadeiras ajudam a aproximar as crianças da narrativa. “Elas gostam quando percebem que fazem parte da história. Querem cantar, responder, rir e imaginar junto”.
A experiência presencial, avalia Nati, oferece algo impossível de reproduzir por uma tela. “Quando contamos uma história olhando nos olhos das crianças, criamos vínculos. Essa experiência permanece na memória”, diz. O período de férias escolares, para ela, costuma ampliar a procura pelas atividades de contação de histórias. "As famílias buscam experiências capazes de proporcionar momentos de qualidade entre pais, avós e crianças. Esse tipo de programação consegue reunir diferentes gerações em torno da imaginação, da leitura e do convívio"

Com uma trajetória de cerca de 30 anos dedicada à arte, a atriz, poeta, arte-educadora ambiental e contadora de histórias Adélia Coelho, mais conhecida como Flô, acredita que a leitura nasce da experiência afetiva. Presença constante em escolas, livrarias e eventos culturais, ela desenvolve um trabalho que aproxima as crianças da literatura, da poesia e da natureza por meio de narrativas interativas. "A criança não apenas escuta a história. Ela participa, canta, responde e também conta um pouco da própria vida. Quando se sente parte da narrativa, cria uma relação muito mais forte com os livros", declara.
Criadora do projeto Poesia em Flô, Adélia diz que seu objetivo é mostrar às crianças que a poesia está em toda parte e que elas também fazem parte da natureza. Para ela, as contações de histórias ajudam a transformar as livrarias em espaços de reencontro entre famílias e literatura. "Muitas crianças voltam porque querem viver novamente aquela experiência. Antes de nascer um leitor, nasce o encantamento. E é esse encantamento que faz a leitura continuar em casa", acrescenta. Atualmente, ela realiza sessões de contação de histórias todos os sábados nas Livrarias Leitura dos Shoppings RioMar Recife, às 15h, e Recife, às 17h, reunindo semanalmente crianças e famílias em torno da literatura.
Livrarias vão além da venda de livros
Essa mudança também é percebida por quem administra esses espaços. Na Livraria do Jardim, a literatura infantil ganhou força não apenas nas vendas, mas também na programação cultural. "O interesse das famílias em incentivar o hábito da leitura desde cedo tem impulsionado a procura por livros infantis e juvenis", afirma o gerente da unidade, Erydson Alves. Segundo ele, o segmento se tornou estratégico para a livraria. "A literatura infantil é um dos pilares da nossa atuação. Investimos na ampliação do acervo e em experiências que contribuam para formar novos leitores."
Erydson destaca que essas ações têm reflexo direto no comportamento de compra das famílias. "É muito comum que, depois de uma contação de histórias ou de um encontro com autores, as crianças procurem justamente o livro apresentado”, avalia. "As atividades despertam o interesse pela leitura e estimulam as vendas da literatura infantil, além de fortalecerem o vínculo das famílias com a livraria".
Nas férias escolares, a programação infantil ganha ainda mais espaço. Na Livraria do Jardim, o projeto Jardim da Imaginação promoveu uma oficina de criação de móbiles de pássaros com Fernanda Regueira, seguida do encontro com Gabriel Dearo e Manu Digilio, autores da série SuperCapivara.

A Livraria Jaqueira também preparou uma agenda gratuita voltada às crianças. A unidade do Bairro do Recife recebeu a apresentação da Cia. Garrett Circus, e a unidade da zona norte promoveu uma atividade com a Turma do Mizack. Na Livraria da Praça, em Casa Forte, a programação infantil teve aulas de desenho e aquarela, além de contações de histórias com Nati Melo.
É essa experiência de transformar o livro em encontro, brincadeira e memória que explica por que as livrarias deixaram de ser apenas espaços de venda para se consolidarem como ambientes de formação de leitores. Antes mesmo da leitura silenciosa, vem o encantamento provocado por uma história bem contada, pelo olhar atento de quem narra e pelo desejo de descobrir o que está escrito nas páginas.
Antes de deixar a livraria, Helena, a pequena leitora que abriu esta reportagem, voltou até a mãe com um livro nas mãos. “É esse, mãe. Agora quero ler em casa para mostrar ao papai”, disse. Carolina sorriu, pegou o exemplar e seguiu para o caixa. A história que a filha levaria para casa já não estava apenas impressa nas páginas. Ela havia começado muito antes, quando uma voz deu vida aos personagens e despertou a curiosidade de uma menina de sete anos. É desse encontro entre imaginação, afeto e literatura que, muitas vezes, nasce o gosto pela leitura.

















































































































































































0 Comentários