Projetos sociais e iniciativas públicas formam novos leitores

13 ago 2026 | 0 comentários

A segunda reportagem da série Primeiras páginas mostra como projetos sociais e iniciativas públicas aproximam crianças e adolescentes dos livros. O trabalho começa na alfabetização e chega às bibliotecas e rodas de leituras.

Por Pedro Cunha

Emanuelly Mota tem 13 anos e ainda trava diante de algumas palavras. Português não é sua matéria mais fácil. A interpretação de texto exige um pouco mais de tempo, concentração e ajuda. Na pequena sala de aula do projeto "Juntando as Sílabas", no Alto do Pascoal, Zona Norte do Recife, ela encontrou esse apoio. Entre exercícios, livros e conversas, percebe aos poucos que compreender o que está escrito numa página pode significar também compreender melhor o mundo ao redor. “Estou desenvolvendo mais o aprendizado, lendo melhor”, conta, ainda tímida. A frase é curta. O que existe por trás dela, não.

Nas periferias brasileiras, chegar à adolescência com dificuldades de leitura expõe uma das faces mais persistentes da desigualdade educacional. A escola está presente, mas nem sempre consegue, sozinha, reparar defasagens acumuladas durante anos. O livro existe, mas pode estar distante. E o hábito de ler dificilmente se estabelece quando compreender um texto ainda é um obstáculo.

Os números ajudam a dimensionar esse caminho. Em 2025, 66% dos estudantes da rede pública brasileira avaliados ao fim do 2º ano do ensino fundamental atingiram o padrão de alfabetização considerado adequado, segundo o Indicador Criança Alfabetizada, do Ministério da Educação e do Inep, divulgado em março deste ano. O resultado superou a meta nacional de 64% prevista para aquele ano, mas significa também que aproximadamente um em cada três alunos avaliados ainda não havia alcançado o nível esperado. Em Pernambuco, os dados também revelam um cenário desigual entre os municípios: apenas 31,9% deles já ultrapassaram o patamar de 80% estabelecido como objetivo nacional para 2030.

A distância entre reconhecer as palavras e tornar-se leitor, porém, é maior do que parece. A alfabetização nos primeiros anos, avalia a neuropsicóloga Susan Almeida, fornece as ferramentas para que a criança avance na compreensão de textos, amplie o vocabulário e ganhe autonomia diante da leitura. "Quando essa base não se consolida no tempo esperado, as dificuldades podem atravessar outras etapas da vida escolar. Formar novos leitores passa, portanto, por uma tarefa anterior: garantir que ler deixe de ser um exercício de decifração e possa se transformar em descoberta, curiosidade e prazer”. 

Uma casa que virou sala de aula

É nesse espaço entre o direito formal à educação e aquilo que efetivamente chega às crianças que iniciativas comunitárias como o "Juntando as Sílabas" encontram sua razão de existir. O endereço do projeto guarda parte de sua história. A antiga casa onde Paloma Galvão, uma das fundadoras da iniciativa, viveu com a mãe foi transformada em espaço de aprendizagem. A estrutura é simples. Há paredes que precisam de reparos e limitações que denunciam a falta de recursos, mas é ali que crianças e adolescentes encontram aulas gratuitas e rodas de leitura. Mais de 150 jovens já passaram pelo projeto. Alguns chegaram mais velhos sem conseguir ler ou escrever com autonomia.

Paloma conhece de perto essa realidade. Ainda adolescente, ajudava a mãe nas aulas de reforço e começou a perceber as dificuldades enfrentadas pelas crianças da vizinhança. Anos depois, durante a pandemia de Covid-19, aquela experiência ajudaria a dar forma ao "Juntando as Sílabas".

Paloma Galvão, do Juntando Sílabas. Foto Divulgação

O ponto de partida, conta ela, foi uma ação realizada em um Dia das Crianças. O que poderia ter terminado numa atividade pontual acabou revelando uma demanda permanente. “Percebi que as crianças estavam muito expostas na rua e pensei em tirá-las um pouco desse lugar e trazer para um espaço mais seguro, onde pudessem se alfabetizar devidamente, se envolver na leitura. Nossa intenção era complementar o ensino que elas tinham na escola”, explica Paloma.

A proposta cresceu. Três vezes por semana, os encontros tentam preencher lacunas que chegam de fora dos portões da casa. Em outros dias, o espaço recebe atividades como as aulas de Libras, frequentadas por crianças de quatro a catorze anos. A leitura, porém, representa boa parte do trabalho desenvolvido ali.

Nas rodas semanais, os livros e textos são escolhidos a partir de assuntos em evidência ou das curiosidades dos próprios alunos. A ideia é encurtar a distância entre aquilo que se lê e o universo de quem está lendo. Negritude, autoestima, cultura, história e personagens de Pernambuco estão entre os temas levados para os encontros. Em uma das atividades mais recentes, exemplifica Paloma, as trajetórias de Dandara dos Palmares, Conceição Evaristo e Lélia Gonzalez serviram de ponto de partida para conversar sobre lideranças negras e o lugar que ocupam na história brasileira.

A aproximação tem produzido mudanças perceptíveis. Paloma conta que crianças que antes evitavam ler por vergonha ou insegurança passaram a se oferecer para começar a leitura em grupo, comentar as histórias e sugerir assuntos para os encontros seguintes. "Aos poucos, os efeitos também aparecem na escrita e na escola. Alguns alunos voltam ao projeto contando que conseguiram realizar uma atividade ou compreender melhor determinado conteúdo porque já haviam discutido o assunto ali”, revela a educadora. "Mais do que ensinar a percorrer as linhas de um texto, as rodas procuram fazer com que essas crianças se reconheçam também nas histórias que encontram pelo caminho".

Dos livros encontrados ao acervo de 8 mil exemplares

A alguns quilômetros do Alto do Pascoal, outra comunidade do Recife descobriu há mais tempo que os livros também podem alterar a relação de um território com a própria história. No Bode, no bairro do Pina, Zona Sul da cidade, a Livroteca Brincante nasceu de um acaso: um saco cheio de livros encontrado pelo músico e poeta Ricardo Gomes, o Kcal. O que poderia ter terminado como descarte virou ponto de partida para um trabalho que atravessa gerações.

Foi há 30 anos. Kcal começou a reunir os exemplares quando a comunidade ainda era marcada pelas palafitas e passou 15 anos formando a biblioteca. Hoje, segundo ele, são cerca de 8 mil livros e 120 crianças registradas. O acervo permanece como eixo do projeto, mas ao redor das estantes foram surgindo outras atividades, ampliando a Livroteca para além do empréstimo e do compartilhamento de obras.

Livroteca Brincantes do Pina. Foto Divulgação

“Quando comecei, queria que aquelas crianças tivessem nos livros uma oportunidade de conhecer outras histórias e também de contar as próprias. A Livroteca foi crescendo junto com a comunidade. Hoje, olhar para esse acervo e ver as crianças participando das atividades mostra que o Bode tem muito mais para contar do que a violência e a pobreza pelas quais durante tanto tempo foi conhecido”, afirma Kcal.

Ao longo dessas mais de três décadas, a Livroteca também se tornou um ponto de encontro no Bode. A presença dos livros abriu caminho para outras linguagens, e leitura, música, poesia, teatro, cinema e artesanato passaram a dividir o mesmo espaço. Essa combinação ajuda a explicar a permanência do projeto: em vez de tratar o livro como objeto isolado, a iniciativa o aproxima das experiências culturais que já fazem parte da vida das crianças e da comunidade.

A experiência do Pina acrescenta outra dimensão à formação de leitores. Se no Alto do Pascoal o esforço começa pela alfabetização e pela conquista da autonomia diante do texto, no Bode o livro circula entre outras expressões culturais e passa a fazer parte do cotidiano. Nos dois territórios, porém, há uma fragilidade em comum: manter essas iniciativas de pé. “Hoje a gente precisa das mãos de outras pessoas”, diz Paloma. Kcal conhece o mesmo desafio: “Fazemos muita coisa com pouco, mas precisamos de parceiros para manter esse trabalho vivo e fazer os livros continuarem chegando às crianças”. As duas falas expõem a mesma realidade: projetos que ajudam a formar leitores ainda resistem muito mais pela mobilização das próprias comunidades do que pela existência de políticas públicas permanentes de incentivo.

Bibliotecas que recusam o silêncio

Silêncio absoluto, estantes intocáveis e livros protegidos de qualquer agitação não fazem parte da proposta. Nas unidades da Rede de Bibliotecas pela Paz, no Recife, é possível encontrar crianças ouvindo histórias, bebês explorando a Bebeteca, jovens participando de oficinas, e adultos e idosos dividindo rodas de conversa. Música, cinema, dança e artesanato também entram na programação. Mantida pela Prefeitura do Recife, a rede reúne nove bibliotecas — seis instaladas nos Centros Comunitários da Paz (Compaz) e três fora deles —, além de seis pontos de leitura distribuídos por outros equipamentos e espaços da cidade. Juntas, as bibliotecas guardam um acervo de cerca de 70 mil livros e contabilizaram mais de 117 mil acessos de janeiro a julho deste ano. Entre os pontos de leitura, o instalado no Parque 13 de Maio, no Centro, recebeu sozinho cerca de 18 mil pessoas no mesmo período.

Ponto de leitura no Parque 13 de Maio. Foto Divulgação

As unidades estão espalhadas pelo Alto Santa Terezinha, Cordeiro, Caxangá, Coque, Ibura, Pina, Afogados, Casa Amarela e Passarela do Pina. Já os pontos de leitura alcançam locais com perfis bastante distintos, como o Hospital da Pessoa Idosa, a Praça Maria Sampaio, equipamentos do Arrecifes da Cidadania e o Centro Integrado de Atenção à População em Situação de Rua. A capilaridade ajuda a levar os livros a endereços que não são tradicionalmente associados a uma biblioteca. É a presença do poder público nesta geografia da leitura, mas a partir de uma ideia menos convencional: o livro permanece no centro, sem exigir que tudo ao redor fique parado.

Gerente da Rede de Bibliotecas pela Paz, Deborah Echeverria considera insuficiente reproduzir um modelo pensado para quem já desenvolveu o hábito de ler. “Não adianta a gente ter bibliotecas fechadas, que exigem silêncio, para pessoas que nunca leram ou que não foram criadas dentro de uma cultura leitora”, afirma. Chamadas pela equipe de “bibliotecas vivas”, as unidades procuram atrair diferentes públicos e fazer com que a aproximação aconteça por vários caminhos. "A literatura pode levar à pintura, ao cinema ou à dança, e o percurso inverso também é possível”, acrescenta. 

Esse contato começa antes mesmo da alfabetização. As Bebetecas recebem crianças de zero a quatro anos e seus cuidadores, com espaços preparados para o livre brincar e os primeiros encontros com livros de tecido e plástico. À medida que crescem, entram a contação de histórias, a mediação de leitura e atividades que misturam escrita e outras linguagens. Deborah diz que os efeitos aparecem no comportamento dos frequentadores: crianças que passam a procurar obras espontaneamente, perguntam se podem levá-las para casa e demonstram maior interesse pelos estudos. A gestora, porém, evita transformar essas percepções em conclusões que os dados ainda não permitem ter. A rede monitora acessos, empréstimos e participação nas atividades, mas não dispõe de uma pesquisa acadêmica que estabeleça uma relação direta entre a frequência às bibliotecas e o desempenho escolar.

Atrair esse público ganhou ainda outra dificuldade. O livro disputa horas do dia com celulares, jogos, vídeos curtos e redes sociais. Uma concorrência que alcança crianças e adultos. Deborah não vê sentido em estabelecer uma guerra contra a tecnologia, mas considera necessário preservar experiências que exigem outro ritmo. “O livro não vai substituir as redes sociais, nem elas vão substituir o momento da leitura. É um tempo de ficar com você mesmo e enriquecer a própria experiência”, diz. Para ela, a multiplicação de clubes, encontros literários e movimentos de leitura coletiva em espaços públicos indica que há também uma procura por momentos menos submetidos à velocidade das telas.

Deborah Echeverria, gerente da Rede de Bibliotecas pela Paz. Foto Divulgação

A localização de parte dessas bibliotecas em áreas socialmente vulneráveis tampouco é casual. A rede integra a Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz e, assim como os Compaz, teve como uma das referências as bibliotecas-parque de Medellín, na Colômbia. A leitura entra, nesse desenho, numa política mais ampla de prevenção à violência: ocupar o território com cultura, convivência e conhecimento e oferecer, desde a infância, outros espaços de circulação e pertencimento. “A ideia é fazer com que a criança nem entre no campo da violência porque já passou por outros espaços que a levaram a outros caminhos”, explica Deborah. "É uma ambição grande para uma biblioteca e que depende de ela funcionar não como equipamento isolado, mas como parte de uma política capaz de dialogar com as condições sociais ao redor”.

Para avançar na formação de leitores, Deborah defende que as cidades precisam combinar esforços do poder público e da sociedade, começando pelas escolas. Entre as prioridades, ela aponta bibliotecas escolares menos burocráticas e mais integradas à rotina dos alunos, políticas contínuas de aquisição e renovação dos acervos e a expansão de pontos de leitura para locais de grande circulação. Há ainda um trabalho que não cabe apenas ao Estado: preparar pais, responsáveis e outros mediadores para introduzir os livros desde a primeira infância. “A leitura precisa ser estimulada também pelo afeto e pela convivência”, defende a gestora, acrescentando que políticas públicas são fundamentais para que essa democratização do acesso ao livro aconteça em larga escala. 

Formar leitores, mostram essas experiências, passa também por garantir que o livro esteja onde as pessoas estão. No Alto do Pascoal, isso acontece dentro de uma antiga casa. No Bode, em uma livroteca construída ao longo de três décadas. Em outros bairros do Recife, nas bibliotecas e pontos de leitura mantidos pelo poder público. São experiências de tamanhos e estruturas diferentes, mas que enfrentam uma questão comum: fazer com que o acesso ao livro não termine na disponibilidade do exemplar, mas chegue à possibilidade concreta de lê-lo e compreendê-lo.


Pedro Cunha é jornalista

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