Traduzir é trair, Miró

6 ago 2026 | 0 comentários

Miró no lançamento de Solo para vialejo. Acervo de Cida Pedrosa.

Por Rogerio Mendes 

Ter a oportunidade de traduzir um poeta quando se gosta de poesia não é apenas desafio: é glória que se traveste de oportunidade. Dizer não em muitos casos significa declinar de convite que pode não se repetir.  Como dizer não à tradução de Miró, um dos maiores poetas da contemporaneidade brasileira?

Nunca fomos amigos, apesar de termos conversado muitas vezes. Eu sempre perguntava a mim, apesar de não sermos, por que éramos tão próximos. Eu estudava Letras e já transpirava literatura a todo instante. Sabia do privilégio que era ter Miró como poeta na cidade, todos o reconheciam como poeta. Essa é uma glória que poucos poetas usufruem, as pessoas queriam ouvi-lo, ser surpreendidas por ele. Ele era culpado porque sempre promovia uma performance que as pessoas buscavam.

Ancestralmente sempre foi assim, nem sempre poesia foi coisa de gente que apenas lê. Com Miró, as pessoas buscavam catarse e gostavam dele pelo mesmo motivo:  a cidade tinha um poeta que a conhecia muito bem, conhecia todos os seus podres, mistérios, belezas e contradições. Entre Walter Benjamim, Charles Baudelaire, João do Rio, Noel Rosa, todos poetas das ruas, todos emocionantes, Miró foi o que, realmente, me comoveu como vida e poesia. Poetas de gabinete tendem a ser tediosos porque muitos compreenderam que poesia só poderia acontecer para poucos e iniciados. Talvez essa seja a diferença e o motivo de um poeta ser tão admirado como Miró. O desafio era como traduzir esse impacto de vida para a língua espanhola. Mas qual língua espanhola?

“Traduttore, traditore”

No mês de fevereiro anterior à entrega da tradução não estava no Recife. Resolvemos ir em família a Portugal e Espanha. Ainda não se falava em migração como se fala hoje, e o impacto de testemunhar pelas ruas foi grande. Fizemos uma viagem diferente e não exploramos as visitações óbvias. Fizemos uma exploração metropolitana pelos subúrbios de Lisboa e Madri. Passeamos por lugares desconhecidos onde ruas e linguagens nem sempre eram limpas e receptivas ao mesmo tempo em que eram belas e profundamente humanas. Nunca havia visto tantos africanos e africanas em ruas ocidentais e isso trouxe bastante reflexão a ponto de influenciarem minhas escolhas em investigações acadêmicas. 

Ainda que não imaginasse, naquele momento, receber o convite para traduzir os poemas de Miró lembrei em muitos momentos dele. Porque a poesia de Miró, apesar de diversa, sempre teve como perspectiva maior as ruas e o deslocamento, mas também a ideia de lar. Miró trajado como africano nas ruas de Recife era como africanos trajados de africanos nas ruas de Madri. Lugar de espanto, medo, sobrevivência, solidariedade, indiferença, solidão e esperança, assim como é também Recife e, pelo o que ouço falar, agora, Nova York.

Miró, na Muribeca, 1987. Foto Diane Jacobson. Acervo Wellington de Melo

Miró não deixava de ser migrante nas ruas de Recife. O olhar de cada refugiado que vi em Madri era também o olhar refugiado de Miró na maneira como observava a vida. Tenho a impressão de que cada migrante poderia ser poeta. Ao menos era essa a impressão que tive em cada conversa. Eles se sentiam estrangeiros, espanhóis, africanos, ainda que não fossem nada daquilo, mas reconhecia em cada caminhar e ruas seus lares, como clandestinos, como também Miró da Muribeca.

Havia um apelo, simbolicamente, ali, tão convincente como a tradução que poderia fazer, quando chegou o convite, em língua espanhola latina. Poderia ter sido a língua mexicana, peruana, uruguaia, cubana, por exemplo. Qualquer uma delas. Por que então eu escolhi a variante peninsular espanhola? Na ocasião, ao apresentar minha versão, tive a impressão de que o editor esperava diferente apesar de ter gostado do resultado final. Talvez ele estivesse certo porque teria mais a ver com o estilo e conceito do poeta, Miró era um poeta latino-americano. Até que ponto respeitei demais a obra de Miró ou suspeitei da ideia de carnavalizar a linguagem da tradução e transformar a poesia dele numa experiência transcultural? Talvez, devesse ter feito isso. Será que duvidei da minha competência? Sofri do mal da escolha. 

Hoje, a culpa, o engano, o erro, o trágico do que teria sido infeliz escolha foi embora, e emergiu a segurança. Sim: foi a língua variante do colonizador responsável pela tragédia ancestral de genocídio de inúmeros povos ainda que responsável por grandes momentos e personagens de nossa literatura. Sim: o domínio da língua sempre foi e continua sendo domínio de poder. Nem poeta, nem tradutor, nem editora concordam com essas tragédias, mas poesia é também um direito. Nem mais nem menos: a missão era traduzir.

O desafio pragmático da tradução consistiu no clássico dilema nas escolhas e correlações das palavras-sentimentos, sintaxes e reconstrução de períodos. A ideia sempre foi a permanência do estilo do poeta.  Miró escrevia quase como falava, por vezes a escrita não suporta a força da palavra falada e esse é o desafio da tradução. A compreensão e tradução da engenharia da oralidade, por sua transparência e força, é diferente da engenharia e força do cálculo da palavra escrita.  Esse redesenho que exige sutileza para alcançar a simplicidade sem deixar de lado a imponência da criação de Miró é catártico e gratificante. 

Miró conseguiria ser lido e bem compreendido em variante peninsular ou latino-americana porque carrega em sua poesia a força que une essas realidades: o desamparo e a esperança. Mais gratificante que desafiador foi traduzir a poesia de Miró para a língua espanhola. Possibilitará o alcance que confirmará o impacto da linguagem em idioma alheio, bem como provará a força de sua poesia. Miró continua sendo a poesia e ainda não se sabe se isso se traduz.


Rogério Mendes é professor associado do curso Letras Espanhol da UFRN e professor colaborador permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE.

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