Nas receitas de Preto, a saudade de Linda

30 jul 2026 | 0 comentários

Por Carlos Pimenta

Antes do cheiro do alho perfumando o ambiente, vem a música. Na casa de Bruno Manoel - embora ele prefira ser chamado simplesmente de Preto ou Preto na Cozinha -, o ato de cozinhar nunca acontece em silêncio. Enquanto ele grava seus vídeos, descascando o alho, procurando o cominho e colocando água para ferver, a Alexa pula de um brega de Priscila Senna para o piseiro de João Gomes, passando pelos sambas do saudoso Arlindo Cruz. Não existe uma trilha preferida. Existe o costume. A música fica. O prato está pronto. O celular registrou tudo. E quando a gravação termina, ninguém desliga a vida. A comida vai para a mesa, onde estão a esposa, Natália, e a filha, Clara. O bolo que apareceu nas redes é o mesmo que será cortado minutos depois. O feijão é o mesmo feijão. Não há uma panela para a internet e outra para a família. Talvez seja esse o segredo. Ou talvez não exista segredo nenhum.

O Morro da Conceição continua aparecendo nas conversas de Preto com a naturalidade de quem nunca saiu de lá. E é para aquele lugar que a memória volta quando ele tenta entender de onde veio essa intimidade com a comida. Foi ali que cresceu. O pai, Valter, vidraceiro até hoje. A mãe, Maria Luíza. Mas quase ninguém a chamava assim. Para os filhos, a família e os vizinhos, ela sempre foi “Linda”. O apelido parecia combinar com o jeito como ocupava a cozinha. Preto perdeu a mãe quando tinha 17 anos. Hoje está com 42.

Festejando seus 10 anos, Preto entre os pais, Valter e Linda, e a irmã, Aninha. Foto Acervo pessoal

Linda e Valter criaram dois filhos: Bruno e Aninha. O dinheiro precisava render. Não existia espaço para extravagâncias, muito menos para pratos elaborados só porque era domingo, por exemplo. A comida obedecia ao orçamento e ao apetite. Arroz, feijão, carne cozida… Era isso. Mas existe uma diferença enorme entre comida simples e comida sem afeto. Na casa de Linda, o básico nunca significou descuido. Mas, sim, capricho.

Quando tenta buscar a primeira lembrança capaz de despertar emoção, Preto não fala de festas de aniversário ou Natal. Lembra de uma carne. Era uma peça que passava quase uma semana mergulhada no tempero. O apelido dado ao prato não ajudava: "carne podre". Todo mundo dizia isso. Dias depois, ela saía do forno macia, escura, incensando a casa inteira. Ele ainda acha que foi uma das melhores carnes que já comeu. É curioso perceber que sua memória guarda muito mais os cheiros do que as datas.

O pequeno Bruno Manoel na sala de casa, no Morro da Conceição. Foto Acervo pessoal

Preto demorou para descobrir que gostava de cozinhar. Não porque faltasse curiosidade, mas porque sobrava preconceito. Como tantos meninos da sua geração, cresceu ouvindo que cozinha era lugar de mulher. Entrar ali parecia inadequado. Comandar as panelas, pior ainda. Acabou esperando mais do que precisava. Só por volta dos 20 anos começou a preparar alguma coisa por conta própria. Mesmo assim, jamais imaginou transformar aquilo em profissão. A vida parecia seguir outro caminho. Durante 12 anos, Bruno trabalhou como representante da indústria farmacêutica. Gostava do emprego. O salário era bom. Os benefícios também. Havia estabilidade. A cozinha existia apenas depois do expediente. Foi Natália quem percebeu primeiro que aquelas receitas talvez coubessem além da mesa de casa. 

"Posta", disse ela. Ele postou. Sem estratégia. Sem imaginar que alguém pudesse querer assistir a um homem preparando o almoço de uma quarta-feira qualquer. Sem plano de negócios. Sem qualquer técnica de comunicação aprendida na faculdade - Bruno Manoel também é formado em Publicidade e Propaganda. O nome artístico apareceu depois de algumas tentativas frustradas. Pensou em "Chef da Favela". Não gostou. Tentou "Chef do Morro". Também não rolou. A solução estava diante do espelho: "Eu sou preto. E estou na cozinha". Virou Preto na Cozinha.

Hoje, quando alguém o chama apenas de Preto, ele responde com a mesma naturalidade de quem atende pelo nome de infância. Foi assim que passou a existir para milhões de pessoas. Durante muito tempo, a internet procurou cozinheiros que ensinassem técnicas. Preto ofereceu memória. Não faz questão de ser chamado de chef, mesmo tendo formação pela Le Cordon Bleu São Paulo. A palavra parece distante demais da cozinha onde cresceu. Prefere cozinheiro. Um cozinheiro que prepara bolinho de feijão com camarão, bolo de noiva, pastel, empada, caldinho e tantas outras receitas que dificilmente aparecem em programas de gastronomia sofisticada, mas que continuam ocupando lugar cativo na mesa dos pernambucanos.

Ele cozinha aquilo que conhece. Aquilo que come. Aquilo de que sente falta. Talvez seja justamente por isso que tanta gente se reconheça nele. A mudança na vida aconteceu por causa de uma queijadinha. Hoje ela está tatuada no braço. Preto costuma brincar que aquela tatoo funciona como sua carteira de trabalho. O vídeo viralizou. Quase 50 mil novos seguidores chegaram em um único dia. Na mesma velocidade em que crescia na internet, começou a perder espaço no emprego. A exposição não agradava o pessoal da empresa onde trabalhava. Veio a demissão, mas o susto durou pouco.

Ao lado da esposa, Natália, e da filha, Clara, grandes incentivadoras de seu trabalho. Foto Acervo pessoal

Logo, apareceram convites para a televisão, campanhas publicitárias e novos projetos. O que aprendeu na faculdade encontrou-se com a prática. A cozinha, que sempre existiu como abrigo, passou a sustentar a casa. Virou cenário. Nem tudo, porém, foi acolhimento. O nome do perfil despertou comentários racistas desde o começo. Alguns diziam que ele estava "militando". Outros tentavam transformar a palavra "preto" em ofensa. O fato é que Preto nunca cogitou mudar. Se esconder o nome significasse esconder a própria identidade, o problema não estava no perfil. Estava em quem o lia. Ser um homem negro ocupando espaço na gastronomia tem, para ele, um peso que vai além da profissão. É permanência. É resistência. É lembrar que durante muito tempo cozinhar foi algo tratado como trabalho feminino dentro de casa e como espaço elitizado quando se transformava em alta gastronomia.

Preto chegou por outro caminho. Foi pela cozinha de Linda. Ele fala pouco sobre sucesso. Quando fala, quase nunca menciona seguidores e nem muitos detalhes dos realities de que participou. Em 2023, foi vencedor do quadro Que Delícia, no programa Mais Você, na TV Globo, comandado por Ana Maria Braga. O afeto foi o ingrediente principal que norteou o seu caminho para a vitória. Dois anos depois, em 2025, reencontrou a rainha das manhãs da TV agora em pleno horário nobre, durante a primeira edição do programa Chef de Alto Nível. Em outro patamar, viu-se desafiado a alçar novas possibilidades e não se intimidou. 

A ousadia só foi interrompida no quinto episódio, quando a cerâmica escolhida para apresentar o prato que preparou não aguentou o peso da receita e lascou-se ao meio. A montagem trazia o clássico cuscuz de milho com cubos de queijo manteiga, banana frita e um toque de canela. Preto tirou da cartola os ingredientes de que precisava para engrandecer ainda mais o ouro nordestino cozido ao vapor, que ainda acompanhava um filezinho guisado, rico em sabor e saudade. Uma combinação bem “Linda”.

O chef estourou nas redes sociais ensinando a fazer queijadinha. Foto Acervo pessoal

A timidez dele atrapalha quem tenta descobrir outros ingredientes da sua vida. Consegue escapar de perguntas com a ajuda do sorriso que não cessa e a facilidade de falar a língua de todos. Sempre dá seu jeito e conta outra história. Diz que ganhava mais dinheiro quando representava a indústria farmacêutica. Também comenta que hoje consegue preparar o almoço da filha e o jantar da esposa. Troca o tempo antes perdido por uma renda menor sem parecer arrependido. Lembra-se de um conselho da avó, repetido tantas vezes que acabou virando filosofia de vida: se houver dinheiro para comprar o pão, pagar o plano de saúde e manter as contas em dia, já existe motivo para agradecer. O resto vem depois.

Quando pensa na receita que melhor conta a sua história, não escolhe a mais difícil. Escolhe o bolo de noiva. Aprendeu vendo Linda preparar a massa. E mais tarde venceu concursos com essa mesma receita. Hoje, ela continua sendo uma das mais queridas por quem acompanha seu trabalho. É curioso: a receita que mais abriu portas para o futuro nasceu observando o passado. No fim das contas, talvez cozinhar seja exatamente isso. Continuar uma conversa iniciada muito antes de a gente nascer. Uma conversa que começou na cozinha de Maria Luíza. Ou, como todos preferiam chamá-la, na cozinha de Linda.


Carlos Pimenta é jornalista

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