I
Problemas de saúde na família me fizeram interromper o planejamento de uma oficina de leitura. Sim, prefiro não chamar de oficina de escrita. Falei sobre isso e muito mais com um amigo. Contei das minhas ideias de criar um espaço de mediação que, em vez de regras, valorize a leitura e análise de obras que se tornaram célebres por ignorar – ou até mesmo derrubar – normas e fórmulas. Ele leu toda a mensagem, o “textão”, e respondeu com emoji sorridente, antes de perguntar “Os mortos indóceis, da Cristina Rivera Garza, já leu?”
Há duas semanas, citei aqui, na coluna Corte&Costura, o ótimo volume de artigos e ensaios Pensar com as mãos, da Marília Garcia. Faz parte da coleção “Errar melhor”, da WMF, também responsável por traduzir e disponibilizar para o mercado brasileiro o livro da Rivera Garza, originalmente publicado em espanhol, em 2013.
O nome da coleção da WMF me lembrou de um programa de TV que dirigi e apresentei durante uma década. Nele, em debate sobre oficinas de criação literária, um escritor citou a famosa passagem do Worstward Ho, do Beckett (“Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better”) para reforçar a ideia de que a repetição e a resiliência levam ao sucesso. Quando ponderei que o texto beckettiano sugeria algo bem diferente (a necessidade de lidar com o fracasso, apesar de todos os esforços para evitá-lo), ele não teve dúvidas de lançar a carta de autoridade:
— Faço oficinas e cito esse texto há décadas. Acho que sei um pouquinho mais dele do que você.
II
Na próxima semana, os leitores desta coluna perceberão que Os mortos indóceis: necroescritas e desapropriação não tem nas oficinas o seu objeto central de reflexão. Mas, quando trata especificamente do tema, desenvolve bem melhor as demandas que eu confessara ao meu amigo: mediação em lugar da autoridade, leitura como eixo fundamental dos encontros, explorar obras que já provaram a inexistência de fórmulas ou tradições imutáveis... E mais, nas palavras da Cristina Rivera Garza:
Talvez fosse necessário considerar a possibilidade temerária de que o fato de ter escrito livros, mesmo bons livros, não significa necessariamente que um autor esteja qualificado para participar da delicada prática de troca e crítica que constitui a sala de aula.
III
Depois de quase uma década recluso, foi preciso que as pessoas comentassem um post que fiz (sobre o uso de clichês e muletas no exercício da crítica literária) para que, enfim, eu tomasse conhecimento de episódios discutíveis e de vários outros relatos, ainda mais graves, sobre abusos cometidos por escritores oficineiros. Com todo cuidado para não soar impaciente ou insensível (pois, de fato, não era o caso), perguntei-lhes por qual razão decidiam fazer oficina com estes ou aqueles autores, sem jamais ter trocado palavra com eles, sem ter buscado informações sobre seus temperamentos, princípios, linhas de trabalho etc.
A verdade é que muitos embarcam praticamente às cegas nesses cursos e oficinas. Não raro, estão apenas de olho nas carreiras de “sucesso” dos autores/professores, na possibilidade de fazer desses breves encontros uma oportunidade de networking, de adquirir atalhos para entrada nas bolhas literárias e no mercado editorial.
Nada disso é ilegítimo ou condenável. É preciso, contudo, não perder de vista que oficinas de criação literária – quando não fazem parte da grade curricular de cursos mais amplos – são prestações de serviço personalíssimas. Assim como não é lá muito seguro marcar consulta apenas pela fama de um médico, ninguém deveria mergulhar numa oficina exclusivamente por conta dos títulos e relações do seu timoneiro.
Antes que perguntem, adianto que não acredito no exagero da comparação. Não só pelos recentes depoimentos, sobre gente que perdeu a saúde física e mental ao participar de certas oficinas (marcadas pela arrogância do escritor e pela humilhação imposta aos participantes), mas também pelo tanto de boa literatura que certamente morreu de véspera, ao serem submetidas a diagnósticos e tratamentos os mais fuleiros.

Os mortos indóceis
Cristina Rivera Garza
WWF
320 pp.
R$ 69






















































































































































































































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