A Revista Araçá queria saber de Ronaldo Correia de Brito o lugar do escritor que move o debate público. A lista veio com mortos, exilados e promessas que “deram xabu”. Para Ronaldo, o escritor que se omite suja a biografia. Mas quem espera dele uma defesa do alinhamento se engana: a censura que vem de dentro do próprio campo político também o incomoda.
Revista Araçá – Quando você pensa em escritor que influenciava o debate público em Pernambuco, quem lembra? E quem ocupa esse lugar hoje?
Ronaldo Correia de Brito – Penso em Raimundo Carrero, no insubstituível Miró da Muribeca e no jornalismo de Schneider Carpeggiani, que foi exilado. Mesmo morando em São Paulo, Marcelino Freire agitava a cena do Recife, nas suas passagens por aqui. Jomard Muniz de Brito não era um escritor de carreira, mas agitava. Houve promessas na nova geração, que deram xabu. Durante um tempo, Wellington de Melo provocou ondas com a sua editora Mariposa Cartonera, no movimento Ocupe Estelita e quando atuava na Fundarpe. Heloisa Arcoverde também deixou marca no A Letra e Voz, da Prefeitura do Recife. Mas o momento é de mordaça, já não existem tantas livrarias e os eventos diminuíram. Isso é um fenômeno que ocorre não apenas no Brasil. Não estou tratando do que se faz na Internet.
O escritor deve se posicionar politicamente? Já pagou algum preço por falar ou por se calar?
Sim, o homem é um animal político, segundo Aristóteles, e o escritor em todos os tempos ocupou esse lugar. Quando se omite, suja a biografia. A minha vida, a literatura que faço e o meu teatro são comprometidos com os valores políticos que defendo. Nunca me censurei, nem aceitei ser censurado. Às vezes, surgem críticas ao que escrevo, mas ignoro ou digo alguns palavrões. A censura da esquerda também é ruim, sobretudo as cobranças identitárias.
De que vive a sua escrita? Isso limita o que diz em público?
Comecei a escrever muito cedo, mas não tive pressa em publicar. Exercia uma profissão escravizante, a medicina, chegando a trabalhar 60 horas por semana. Sobrava pouco tempo para cuidar da família, ler, escrever, dormir. Sempre achei que já havia muitos livros. Minha primeira editora foi a Bagaço, por onde publiquei um livro de contos e três livros para o público infantil. Foi ótimo, vendeu bem. Aí fui convidado para a Cosac&Naify e depois para a Alfaguara/ Companhia das Letras, onde estou até agora. Escrevo o que quero, quando quero. Sou bem tratado pelo meu editor.
O que a literatura consegue dizer que um post ou um artigo de opinião não consegue?
Ao escrever um romance, onde tudo cabe, você tem mais espaço para desenvolver ensaios, conceitos, narrativas. Mas há uma tendência para a leitura de textos curtos, que demandam menos tempo. No momento, existe quase uma cartilha de como escrever e o que escrever para fazer sucesso. Me pergunto se sempre foi assim. Descubro que os clássicos continuam sendo editados e vendidos, o que me espanta. Não é fácil ler Os irmãos Karamázov, nem Moby Dick. A Internet, o Instagram, o WhatsApp, o X (antigo Twitter), os blogs etc. geraram um novo tipo de leitor que, na minha idade e com a minha formação, é impossível ser, e de escrita que nem sempre consigo acompanhar.
Você acha que a cena atual é mais ou menos mobilizada que há 10 anos?
Só posso responder que em relação ao modelo de cena literária de 10 anos atrás é menos mobilizada. Mas se considero os novos modelos de cena literária, todos passando pela Internet e pelo controle de mercado e “influencers”, não sei avaliar, me falta conhecimento para isso.



















































































































































































































































































Caro Paulo, foi muito gratificante receber a Revista Araçá hoje e encontrar o meu trabalho impresso em suas páginas. Conhecendo a linha editorial da revista, seu posicionamento é linguagem, fiquei muito sensibilizada ao ser convidada a participar. Espero que muitas e muitas edições se sucedam alimentando a nossa necessidade de consumir um conteúdo editorial que, entre suas qualidades, valoriza a nossa cultura.