A opinião mudou de endereço?

22 out 2026 | 0 comentários

Por Wellington de Melo

Todo escritor ou escritora já deve ter tido a experiência de ir a lançamentos ou eventos literários, como participante ou ouvinte, e encontrar sempre as mesmas caras. Mesmo nas bienais ou festas literárias, o público não varia muito. Exceção pode ser feita a eventos que atraem autores best-sellers ou de nichos específicos, mas via de regra a impressão é que as panelas, que nunca foram tão grandes assim, são cada vez menores e com pouca renovação, principalmente de leitores. 

A sensação do desaparecimento dessa fauna pode não ser só uma percepção abstrata. Segundo a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o país tem 53% de não leitores e a média de livros lidos caiu de 4,95 ao ano para 3,96. Embora Pernambuco ocupe o segundo lugar no Nordeste em número de leitores (48% contra 54% do Ceará), o resultado de 2024 representou um decréscimo com relação a 2019, quando 51% da população se declarava leitora, com forte presença da classe C no Recife. 

Até que ponto a redução do número de leitores e a falta de renovação dos salões literários pode dizer algo sobre o papel do escritor na sociedade? É possível afirmar que o prestígio do ofício de escritor diminuiu nos últimos anos? Se sim, quem ocupou ー se ocupou ー o espaço deixado? Para quem estão hoje os escritores, de fato, falando e quem eles influenciam? A partir dessas provocações, ouvi pessoas ligadas ao meio literário de Pernambuco no intuito de encontrar, ou pelo menos arranhar, algumas respostas para a Revista Araçá.

Tradição e formação de pensadores

Em Pernambuco, as figuras do escritor e do intelectual público sempre se confundiram. Anco Márcio Tenório Vieira, professor do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, afirma que o escritor era uma referência pública: “Gilberto Freyre é um exemplo, foi eleito deputado federal constituinte em 1945, impulsionado pela força dos estudantes. Ele tinha essa projeção não só pelos livros, mas pelos artigos nos jornais e pelos debates” ー avalia. Naturalmente, esse grupo era formado por uma minoria. Sidney Rocha, escritor vencedor do Prêmio Jabuti, opina sobre o tema: “A literatura de Pernambuco sempre teve uma preocupação elitista, paroquial e umbilical”. Para ele, esse cenário tem razões históricas, sociais e políticas, de cunho colonialista. Apesar disso, ele reconhece Freyre, ao lado de Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e o recentemente falecido Jomard Muniz de Brito como vozes importantes da intelectualidade pernambucana. 

O professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Pernambuco e escritor Fábio Andrade destaca Osman Lins como outro nome importante, embora sua atuação tenha sido principalmente fora do estado.  “Apesar de ter se deslocado rapidamente para o Sudeste, continuou pensando em Pernambuco, no Recife e na função social da literatura no final dos anos 1950, ao longo dos anos 1960 e, posteriormente, nos anos 1970. Em toda a sua trajetória, ele não abandonou as relações da literatura com a sociedade e sua possível função social, que era uma espécie de eixo fundamental do seu pensamento e da sua obra.” ー afirma.  

A transformação do espaço público do debate

Os autores citados acima, em seu auge, atuaram num momento em que a mídia tradicional tinha um papel preponderante, com espaços dedicados a esses pensadores, que eram presença constante nos jornais e suplementos culturais. “Tínhamos intelectuais com colunas semanais debatendo teatro e literatura, como Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho.” ー afirma Anco. “Quando Gilberto Freyre publicava nos Diários Associados, o artigo era reproduzido em mais de 20 jornais no Brasil inteiro, alcançando centenas de milhares de leitores. Hoje, são poucas as pessoas dentro da academia envolvidas num debate público, como o Safatle ou o Marcos Nobre” ー conclui.

Segundo sua avaliação, no final do século XX e começo do XXI, esses espaços foram desaparecendo e, mais atualmente, com o declínio dos jornais, tornaram-se raros. Há outros aspectos, para além da transformação midiática, que explicam a mudança do status dos escritores na sociedade. O ensaísta e professor Eduardo César Maia, autor de Crítica para náufragos, afirma que a academia caminhou para uma “setorização do conhecimento”, o que acabou por dificultar a formação daquele antigo intelectual humanista que opinava sobre política, economia ou mesmo religião de forma mais complexa. Além disso, o currículo universitário não empurra mais o aluno para as grandes discussões nacionais, e o caminho acaba sendo mais individual.

Anco Márcio opina que o curso de Letras não prepara o aluno para o debate público, no sentido que essa palavra teve ao longo do século XX. “Na minha geração isso acontecia porque éramos leitores de jornais, acompanhávamos lançamentos e estávamos no calor da hora. Hoje vejo tudo muito fragmentado, pescando aqui e acolá; a universidade faz apenas uma parte, mas a outra parte não é realizada pelo aluno.” ー argumenta.

Já Brenda Carlos, professora do curso de Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco, crê que a geração que ingressou no curso de Letras no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, bem como as gerações anteriores, tinham uma predominância na formação de leitores voltados para a própria academia. “Havia exceções — com professores que mantinham um vínculo muito forte na relação entre a literatura e a sociologia —, mas a forma de ler e as ferramentas utilizadas no curso ainda eram muito voltadas ao universo acadêmico”, afirma.  

A despeito dessa inclinação, ela considera que era possível formar indivíduos com excelente capacidade para o debate público. ​De uns anos para cá, no entanto, percebe-se, segundo ela, uma espécie de compensação, com uma entrada expressiva de elementos relacionados ao debate público no conteúdo da área de Letras, sem uma devida articulação com os conteúdos específicos do curso, o que ela considera, ainda que com cuidado, como um aspecto negativo. “É como se o tema do debate público precedesse a análise, fazendo com que a relação com os estudos literários e linguísticos se perdesse” ー avalia.

Como consequência, apesar da presença do debate público no dia a dia dos cursos e da disposição ao diálogo, o resultado acaba sendo, segundo a professora, uma maior fragilidade pela superficialidade com que são tratados os temas, com uma tendência à homogeneização das fontes. “Por exemplo, aplica-se uma referência do contexto norte-americano em outras realidades, ou mesmo referenciais descentralizados (como os do eixo Sul-Sul) entre lugares com enormes diferenças culturais, resultando em uma aplicação homogeneizante, mesmo que o discurso oficial seja em prol da diversidade.” ー conclui. 

Entre escritor e o influencer

O esvaziamento das colunas de jornal ou dos suplementos literários, e certo recuo da academia como espaço formador de intelectuais não significam que a opinião deixou de existir: ela apenas mudou de endereço ー ou de IP. Com o declínio do jornalismo tradicional e com o enclausuramento de parte da crítica acadêmica, as redes sociais tornaram-se ー para o bem ou para o mal ー a nova ágora. Ao mesmo tempo, a mudança de terreno não foi necessariamente acompanhada de uma manutenção do nível do debate.

É o que acredita Maia, para quem há hoje uma desproporcional valorização da “opinião rápida e superficial dos influenciadores digitais”, que não raras vezes têm suas vozes mais consideradas do que a de pensadores com uma formação rigorosa. O pesquisador identifica que, nas redes, o que dita as regras são a adesão afetiva e a polêmica: “Críticos de excelência costumam dialogar com nichos restritos, enquanto perfis que funcionam como meros publicitários literários mobilizam multidões” ー observa. De forma geral, não há por parte do grande público, segundo o ensaísta, uma busca por aprofundar os temas, motivo pelo qual predomina a “reafirmação de seus próprios pontos de vista ou o pertencimento identitário”.

Para Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo há mais de três décadas, houve uma mudança drástica nos últimos anos do perfil do autor. Se antes o modelo do intelectual público era associado àquela figura solitária, restrita a determinados estratos sociais, como Ariano Suassuna, hoje predomina um movimento plural e interseccional. Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Márcia Tiburi, Jean Wyllys, a escritora e filósofa Atena Beauvoir e o escritor Daniel Munduruku ーos dois últimos eleitos vereadores ー são, para Marcelino, nomes que fazem a diferença no debate político. Ao ser perguntado sobre o cenário em Pernambuco, ele cita como representante dessa nova face de escritores que se posicionam politicamente os poetas Cida Pedrosa e Antônio Marinho. 

Marcelino Freire. Foto Denis Maerlant

Diferentemente de Marcelino, Fábio Andrade não enxerga em Pernambuco uma figura que consiga repercutir suas ideias para além da literatura, opinião semelhante à do poeta e editor Philippe Wollney, que não vê um agente, no meio literário pernambucano, com impacto para influenciar o debate público. Wollney faz uma crítica à internet como lugar de mobilização. “Acredito que essa falta de força seja, primeiro, pelo uso restrito em redes sociais, ou por achar que apenas as redes sociais são suficientes para sacolejar a vida pública. E se tratando de literatura e de um público cada vez mais restrito, o resultado é apático e para um nicho pequeno” ー opina.

Para Anco Márcio, o problema pode não ser a ausência de vozes, mas certa apatia de novas gerações: “Eu percebo que essa geração não tem a curiosidade intelectual de estar acompanhando quais são os autores e pensadores que estão no calor da hora discutindo o Brasil por meio de artigos, livros ou até mesmo podcasts. Quando fica só na universidade, fica um conhecimento hemiplégico, até porque a universidade tem objetivos muito claros, que é formar alunos para a licenciatura”.

Fábio Andrade pondera que o contexto atual não favorece a dupla atuação de escritor e agente no debate público. “Uma obra literária exige estudo, pesquisa e uma dedicação enorme. Além disso, desenvolver ou participar dos mais importantes debates públicos da nossa época, que são muitos e crescem de maneira vertiginosa diante da onda reacionária que tem varrido o mundo, é um desafio. É preciso defender pautas que a gente acreditava que já estavam profundamente sedimentadas na mentalidade das pessoas”. 

Mobilizar e influenciar são a mesma coisa?

Ao se pensar na mudança de cenário dos meios de comunicação, em especial no que diz respeito às redes sociais na última década, torna-se brutal a diferença de volume de pessoas mobilizadas. “Hoje o escritor e a escritora mostram mais a cara, estão mais expostos. Creio que estamos mais articulados, agindo mais coletivamente. Não mexam com a gente que a gente não anda só. Só, só na hora de escrever.” 一 afirma Marcelino Freire. 

Micheliny Verunschk, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, concorda que a cena atual tem mais apelo para a mobilização do que há dez anos, mas faz uma advertência: “O problema é acharmos que a rede é a própria vida. Claro, ela é um espelho da vida, mas existem atuações que ela não substitui. Existe uma política dos corpos e dos afetos que necessita de presença, que necessita do corpo”.

Micheliny Verunschk: "O problema é acharmos que a rede é a própria vida". Foto Félix Marquez

Para Bell Puã, poeta vencedora do Slam Brasil e uma das proeminentes vozes da poesia oral, também existe espaço para mobilização fora das redes. Ela reflete sobre as diferenças da cena literária recifense nos últimos dez anos: “Eu frequentava o Controverso Urbano Sarau e também o Quilombo Experimental. Hoje, temos o slam, que segue acontecendo, e as batalhas de rima que estão a todo vapor, da Escadaria, Boca do Trombone, no Ibura. Além disso, tem a poesia marginal que acontece no Sarau do Digaí, com os amigos Giuseppe Macena e Luna Vitrolira, no bar Super 8, além das Mulheres de Repente. Acho que hoje existe uma mobilização muito grande; talvez ela não seja tão correlacionada, mas é muito grande”.

Embora o volume de pessoas em torno de escritores e de literatura tenha crescido com as redes, a adesão aos pontos de vista defendidos pelos escritores e escritoras não é simétrica. As antigas entourages se tornaram massas de seguidores que acompanham o feed, mas que não raras vezes são surpreendidos com posições de seus escritores, quando, por exemplo, declaram voto a um ou outro candidato. Não é raro que após postagens “polêmicas” pululem comentários de decepção e mensagens de “deixei de seguir”. 

Sidney Rocha é cético com relação à capacidade de influência dos escritores. “Não dá para fazer ideias circularem com comandos e prompts e ordens que buscam o tilitintim da atenção e da monetização” 一 provoca. ー “Mobilizar é distinto de influenciar, formar consciências, oferecer experiências. É diferente de fazer a cabeça de alguém. A questão é que a ideia ou figura de formador de opinião mudou muito e muito rápido do século XX para cá. Sim, geralmente podia ser um escritor, um jornalista, um artista. Isso estava ligado ao alcance desse ou daquele aos meios de comunicação etc, de alguma reputação... Hoje, não se requisita reputação nenhuma para tanto e tanta imbecil dando opinião sobre tudo. São os mais populares. O meio é a mensagem. A mensagem quase sempre vem da estupidez coletiva”.

A despeito de todas as críticas, poucos são os escritores profissionais que renunciam totalmente às redes como ferramenta de comunicação com seu público ou de posicionamento de mercado. Ao mesmo tempo, há uma falsa impressão, alimentada pelo senso comum e pelo movimento curatorial de algumas editoras e realizadores de eventos literários, que a presença na rede é uma condição para compor um catálogo ou uma grade de programação. O fenômeno recente de influenciadores ou bookgramers que publicaram por selos renomados indica uma mudança de paradigma no que diz respeito à medição de credibilidade dos autores.

A escritora Clarice Freire, autora de Para não acabar tão cedo e coordenadora da Especialização em Escrita Criativa da Cesar School, questiona essa ideia, citando uma pesquisa realizada na França. “Observou-se que influenciadores com menos seguidores, por serem mais nichados, frequentemente geravam mais engajamento e influência real na compra e escolha de livros. O público desse segmento confiava mais no julgamento desses pequenos influenciadores do que naqueles com grandes audiências.” Apesar disso, diz ela, a quantidade de seguidores não deixa de ser um fator de confiabilidade, conferindo grande credibilidade a quem possui números altos, mas essa relação não é exclusiva nem linear. “Além disso, muitos influenciadores literários atuam como comunicadores mais amplos, abordando também estilo de vida, gostos pessoais e viagens.” 一 complementa.

Os riscos de ser intelectual

Assumir um papel ativo na esfera pública tem um preço, e pode ser caro. Em 2018, durante a prisão do presidente e atual candidato à reeleição Luíz Inácio Lula da Silva, Marcelino Freire organizou com o poeta Ademir Assunção a antologia Lula Livre Lula Livro, com textos inéditos de cerca de 90 autores defendendo a democracia. “Fomos perseguidos. Ademir perdeu o emprego. Eu fui colocado em uma lista de artistas ‘comunistas’ que deveriam ser boicotados, ficar sem trabalhar. Um jornal no Mato Grosso publicou a lista de todos(as) que participaram da publicação, dizendo que não éramos patriotas, que estávamos contra o Brasil.” ー lembra. Apesar disso, Marcelino afirma que o autor não deve ficar imparcial. “Escritor em cima do muro não dá, sobretudo hoje” ー crava.

“Já sofri retaliações, já criei inimizades por causa dos meus posicionamentos públicos, mas, honestamente, não paro muito para pensar nisso e não coloco muita energia nesse tipo de consequência.” ー relata Micheliny Verunschk. Ela esclarece que, mesmo sendo representada por uma grande casa editorial, não recebe interferência por sua postura pública ou em seu trabalho de escrita. Ela, que se declara uma “proletária da escrita”, defende a prevalência da literatura. “Um livro, independente do posicionamento ideológico do seu autor, é uma ferramenta política que transcende o tempo e a sua época. O que dizer, por exemplo, de Dom Quixote? O que dizer de Hamlet? Portanto, um livro ultrapassa toda e qualquer limitação, e um projeto literário de um autor, quando bem amarrado e bem situado, pode ser bastante eloquente sobre o tempo, a vida e o recorte social e político do mundo.” ー conclui. 

“O homem é um animal político, segundo Aristóteles, e o escritor em todos os tempos ocupou esse lugar. Quando se omite, suja a biografia. A minha vida, a literatura que faço e o meu teatro são comprometidos com os valores políticos que defendo. Nunca me censurei, nem aceitei ser censurado. Às vezes, surgem críticas ao que escrevo, mas ignoro ou digo alguns palavrões. A censura da esquerda também é ruim, sobretudo as cobranças identitárias”, afirma o premiado escritor Ronaldo Correia de Brito. 

Clarice Freire acredita que a postura sugerida para fortalecer o lugar do escritor passa pela busca de uma escrita e de uma conduta civil baseadas na verdade e no compromisso profundo consigo mesmo.  “Ser verdadeiro e apostar na própria essência, tanto no universo digital quanto na vida civil, é a maior contribuição que se pode oferecer ao mundo, visto que essas esferas são inseparáveis no indivíduo.” ー afirma. Um caminho difícil, sem dúvida, num mundo em que a pós-verdade é mais real do que nunca.


Wellington de Melo é escritor, editor e professor.
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