Por Luiz Otavio Cavalcanti
O Recife é um azul de contrastes. Um estuário plano cercado de morros; muita água de rios e mar molhando ruas e palafitas; ilhas de afluência social e muita pobreza. Na verdade, 150 mil recifenses que acordam sem saber o que comer.
Esta Florença tropical, como a chamou Albert Camus, que aqui esteve em 1950, é, acima de tudo, um bem cultural. Que possui imensa riqueza de bens culturais: patrimoniais, barrocos, e imateriais, o bolo de rolo e o frevo, entre outros.
Pois bem. Este pedaço de chão, banhado de inclemente sol armorial, assinala um encontro. De vozes e sons. De letras e tons. De música e poesia. Certificando a vocação cultural a que me referi acima. Um encontro entre João Cabral de Melo Neto, Ascenço Ferreira e Chico Science. Pois os três, cada um a seu modo, cada um no seu campo, cantam um Pernambuco íntegro e molhado, enxuto e partido, lírico e irredento. Porque Pernambuco é aristocrático e popular, conservador e reformista, gordo e magro. Basta olhar para Ascenço, João Cabral e Chico Science.
Este paradoxo é uma certidão pernambucana. Esta contraposição é uma perplexidade pernambucana. No século XIX, Pernambuco foi revolucionário em 1817, 1824 e 1848. No século XX, em 1937, Pernambuco foi fiel a Getúlio Vargas. E viveu a emoção do Estado Novo. Em 1964, foi coragem e resistência. Em 1985, foi conciliação e poder. Os vários Pernambucos são um Pernambuco só. Inteiro. Embora partido. Molhado. Embora enxuto. Leal à liberdade e à autonomia inscritas na Constituição da Convenção de Beberibe.
O encontro pernambucano é feito de vontade e água. Água e obstinação. Estão nos versos de João Cabral e de Ascenço Ferreira. E nas canções de Chico Science. João Cabral (1920-1999) escreveu:
“Maré do Capibaribe, afinal o que ensinaste, ao aluno em cujo bolso, tu pesas como uma chave? Não sei se foi para sim, ou para não teu colégio: o discurso de tua água sem estrelas, rio cego, de tua água sem azuis, água de lama e indigente, o pisar de elefantíase que ao vir ao Recife aprendes”.
Ascenço Ferreira (1895-1965) declamou: “As luas crescentes de espelhos luzentes, colares e pentes, queixares e dentes de maracajás ... Loanda, Loanda, aonde estás? A balsa no rio cai no corrupio, faz passo macio, mas toma desvio que nunca sonhou ...”.
Chico Science (1966-1997) cantou: “Cavaleiros circulam vigiando as pessoas, não importa se são ruins, nem importa se são boas. Vou fazer uma embolada, samba, maracatu, tudo envenenado, bom pra mim, bom pra tu, pra gente sair da lama e enfrentar os urubus”.
Está tudo certo e aprumado ? Ainda não. Falta uma casa para Chico Science. Uma morada para seu acervo, seus cadernos, seus desenhos, seus rabiscos, sua mesa, seu mobiliário, suas composições. Um espaço moral, cultural. Um Instituto. Onde caiba sua obra, a memória do rio, da lama, do caranguejo com cérebro, a Nação Zumbi, o maracatu, o funk, o rap. A cidade de Chico Science. No universo recifense. Rendido a ele. E ele, consagrado a ela.
























































































































































































































































































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