A foto que <span class="verde-titulo">Alexandre Gondim</span> nunca esquece

15 out 2026 | 0 comentários

Foto Alexandre Gondim/JC Imagens

O ar estava pesado no amanhecer daquele 13 de maio de 2014 no Recife. Ao acordar e olhar pela minha janela, próxima à Igreja de Boa Viagem, um grupo de pessoas em volta de um corpo no chão me chamou atenção. A ameaça tinha se concretizado. A Polícia Militar tinha dado início a uma paralisação, greve, desencadeando uma enorme onda de assassinatos, saques, arrastões e pânico generalizado por toda a Região Metropolitana do Recife. A situação exigiu o envio das forças do Exército e integrantes da Força Nacional de Segurança Pública para conter o caos. Como repórter fotográfico do Jornal do Commercio, chegando à redação, fui pautado para percorrer a cidade em busca de flagrantes que pudessem caracterizar o momento de pânico que os cidadãos viviam.

Ao sair, descendo o viaduto das Cinco Pontas em direção à zona sul da cidade, me deparo com três homens deitados no chão, no meio da avenida, rendidos por um homem que se dizia policial. Foi assim que ele se identificou quando paramos e eu comecei a fotografar. Momento tenso porque não sabia do que e de quem realmente se tratava. Rapidamente fiz meu registro fotográfico e partimos rumo à avenida Domingos Ferreira. No bairro do Pina, assim que entramos na avenida, em uma rua estreita que dava acesso à comunidade do Bode, um grupo carregava um corpo baleado e possivelmente já morto, para ser jogado no meio da avenida. Estávamos em um engarrafamento, o trânsito parado. Eu abri a janela e comecei a fotografar. Logo fui notado e, aos gritos, as pessoas que carregavam o corpo começaram a gritar. Foi quando escutei as primeiras pedradas atingindo o carro em que eu estava. Muito rapidamente o motorista, conhecido pelo apelido de Mansinho, fez uma manobra salvadora e conseguimos fugir.  

A região metropolitana parou. Comércio, escritórios, instituições públicas, universidades, escolas do Recife, Olinda e entorno fecharam; já não havia movimento nas ruas. Muitos casos de violência eram relatados mesmo depois que os tanques do Exército começaram a circular nas ruas.

Quando a adrenalina baixou, olhei a foto e vi que tinha na câmera uma imagem síntese do que estava acontecendo na cidade; a violência estava explícita. Desta vez, não apenas fotos de corpos nos jornais, mas escancarados no meio da rua, em vários pontos, ao mesmo tempo. Casos de homicídios como este se alternavam. Exibir corpos no meio da rua foi uma marca daquele movimento; a sociedade tinha de ver o que estava acontecendo nas sombras dos guetos. Foram 50 horas de terror. 

Do meu notebook, a imagem foi transmitida para a redação do JC e, de lá, para o mundo, por meio da agência internacional de notícias Reuters. Nesse dia, ela foi escolhida pela agência como a melhor foto feita em todo o mundo. Escolha que, por um lado, deixa qualquer profissional envaidecido, mas, por outro lado, me fez refletir sobre o nível de violência que vivemos. Uma fotografia feita na zona sul do Recife, competindo e sendo escolhida como a mais forte entre tantas guerras espalhadas pelo mundo. Já existiam, em 2014, conflitos entre Rússia e Ucrânia, guerra civil na Síria, conflito no Iraque, conflito na Faixa de Gaza. Conflitos prolongados ou novas instabilidades marcavam o período em locais como o Sudão do Sul.  

Uma triste constatação!


Alexandre Gondim é fotógrafo

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