Corte&Costura, por Cristiano Santiago Ramos

10 set 2026 | 0 comentários

Foto Cristiano Santiago Ramos

I

Sigo naquela manhã de agosto, no espaço Recordança, essa espécie de não-museu-de-tudo que o Seu Brasinha mantém na pequena Cordisburgo, terra de Guimarães Rosa. 

Sigo calado. Mas, agora, não acompanho um monólogo, e sim a conversa do anfitrião com minha sogra, Dona Iara – também mineira, leitora e ótima contadora de histórias. Ela é médica, especialista em hanseníase, e os dois conversam sobre a presença (nem sempre explícita) da doença na literatura brasileira – em especial, na obra roseana.

Dona Iara também cursou Letras, na UnB, em pleno regime militar. Assim que nos conhecemos, a primeira conversa foi sobre as suas aulas com o professor e crítico pernambucano João Alexandre Barbosa. Dezesseis anos depois, tenho o privilégio de ouvi-la prosear com Seu Brasinha, que relata (com aquele orgulho contido dos mineiros) as carreiras profissionais dos seus três filhos médicos.

Pego mais uma folha seca no chão, enquanto a tarde chega e os recém-melhores-amigos dividem receitas e comentam antigos costumes mineiros. Foi nesse momento que pensei em escrever pelo menos uma coluna na qual juntar Brasinha, Iara, Rosa, Drummond e Adélia. Para ser mais justo, planejei um texto no qual transportar o encontro que já acontecia ali, naquele roseano quintal de Cordisburgo.

II

Ao reencontrar o cinquentenário livro de estreia de Adélia Prado, foi impossível não ter como chave de leitura aquela conversa do Recordança. Nos poemas do Bagagem, as coisas – inclusive as mais contraditórias – também chegam misturadas, cerzidas por uma intimidade tão forte e inapreensível quanto o próprio sentido da poesia. Casas, tradições, receitas, família, política, doenças, ausências, religiosidade, poéticas e um tanto de outros peixes que muito raramente conseguimos (de fato ou por mistérios) pegar com as mãos.

Na poesia de Adélia, a cozinha, o quintal, a igreja, o corpo, o casamento, os mortos, as pequenas cidades de Minas jamais surgem como algo menor; não são enfileirados em versos incapazes de dialogar com algo além, sejam questões metafísicas ou da mais urgente materialidade. Tudo resta junto e funciona, ainda que não consigamos devassar os materiais e arquiteturas da sacola que os carrega.

Adélia Prado publicou seu primeiro livro em plena ditadura militar. Havia prisões, censura, perseguição, velhas e novas feridas abertas pela negação do outro, pelo mais vil desrespeito a quaisquer garantias de vida e dignidade. A sua fortuna crítica sempre teve nisso um grande tema: a mãe e professora de Divinópolis (saudada por Drummond como lírica, bíblica, existencial e fogo de Deus) demonstrou que ainda era possível ser contemporânea sem sacrificar a maior parte dos peixes que – soltos ou entre as mãos – ela juntou ao longo da vida.

Menos de meio século após a redemocratização, voltamos a testemunhar líderes e massas que não apenas se negam a reconhecer demandas alheias, como saem às ruas para, sem qualquer constrangimento, clamar pela volta da ditadura militar. E fico me perguntando: se o pior nos aguarda logo na próxima esquina, teríamos ainda como criar ou compreender literaturas que, em meio às urgências mais violentas, não jogassem no baú dos indesejados o metafísico, o desejo, os afetos, a cozinha, o quintal e as folhas secas?


Cristiano Santiago Ramos é escritor, crítico literário, professor e jornalista. Autor do romance Mil novecentos setenta cinco.

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