Inframargens
Em 2007, fiz essa foto, no bairro do Pina, no Recife. As palafitas ocupavam a frente de uma área de mangue onde, tempos depois, seria construído um grande shopping. O mangue permanece. As palafitas, não. A cena registrada naquele momento deixou de existir.
O próprio material utilizado na câmera carrega essa ideia de enxergar o que não é perceptível. Usei um filme infravermelho, desenvolvido originalmente para aplicações militares. Esse tipo de filme permitia, entre outros usos, identificar camuflagens em meio à vegetação e realizar registros aéreos em condições em que a luz visível encontrava limitações. Também já foi usado em outras áreas, como a agricultura. Trouxe as películas de uma viagem porque, na época do ensaio, a comercialização era proibida no Brasil.
A foto deu origem ao Inframargens, que nasceu desse meu experimento com a fotografia infravermelha, que capta uma faixa de radiação que existe, mas que o olho humano não consegue enxergar. Nas imagens, essa luz invisível altera cores e contrastes e revela uma paisagem diferente daquela que vemos.
No ensaio, percorri margens de estradas, rios e cidades, encontrando vestígios de povoados, construções e pessoas. A invisibilidade do infravermelho se aproximou de outra, a social. De um lado, aquilo que não vemos porque nossos olhos não são capazes. Do outro, aquilo que está diante de nós, mas que muitas vezes ignoramos ou não percebemos. É nesse encontro entre as duas invisibilidades que o trabalho se constrói.
Inframargens deu origem à minha primeira exposição individual, em 2008, e essa foi a foto principal de divulgação. Com ela, também participei, no mesmo ano, do Paraty em Foco, principal festival de fotografia do país, e foi arrematada no leilão beneficente do evento.




































































































































































































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