O compromisso de Heitor Dutra com a tolice

3 set 2026 | 0 comentários

Por Heitor Dutra

Criei para mim a obrigação de produzir e postar diariamente, de segunda a sexta-feira, por volta das 22h, nos stories do Instagram, pelo menos três desenhos. Estes funcionam como vinhetas, sequências muito breves que expõem uma curtíssima narrativa, uma piada ou um poema. 

Estas vinhetas, que conjugam texto e desenho, são sempre ligeiramente desaforadas, um tanto ácidas e carregam a intenção de serem divertidas. Muitas vezes são críticas explícitas ao nosso modo de vida urbano, consumista e hiperconectado. Trazem sempre a figura de um animal falante que debocha ou reflete sobre a ordem social humana. Às vezes também as vinhetas são puras tolices, poemas nonsense ou piadas de gosto duvidoso.

Há algumas pessoas que acompanham as postagens diárias, que comentam e expõem suas impressões sobre as situações representadas. É muito instigante acessar a repercussão do trabalho em tempo real. O fato de se tratar de uma produção pensada especificamente para as redes sociais torna as condições de recepção fundamentais para o desenvolvimento destas vinhetas. Porém para além de qualquer reverberação que elas possam vir a ter no contexto do Instagram, o que mais me interessa é a condição de produção que elas impõem. Um fluxo de trabalho diário bem específico.

Nem todo dia eu estou a fim, mas assumi o compromisso comigo, e é um consolo receber a confirmação de que não preciso estar necessariamente a fim para realizar coisas interessantes.  Diferente do que reza o senso comum, “inspiração” não é pré-requisito para a criação. Estas vinhetas, apesar de jocosas e descontraídas, são fruto de disciplina. Sua aparente displicência e simplicidade formal talvez mistifiquem a quantidade de tempo e de trabalho que demandam. 

Ao longo da semana tenho ideias que vou anotando, mas às vezes passo o dia inteiro imerso em outras atividades sem ter a menor noção do que vou postar às 22h. Eu gosto desse vazio do não saber, é um sem-fim de possibilidades que se abre diante do retângulo branco do papel.  E a leve urgência de ter que fazer alguma coisa acontecer esquenta o motor alegre que gira o dia. Todo dia.

Vinhetas

Heitor Dutra

2026

Lápis de cor e giz de cera sobre papel

29,7 x 21 cm (cada

 


Heitor Dutra é artista visual, bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFPE e mestre em Design também pela mesma universidade. 

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