O sucesso da personagem criada há 35 anos

3 set 2026 | 0 comentários

Por Cleodon Coelho

Quem não sonha com uma vida digna de conto de fadas, traduzida em sucesso profissional e dinheiro na conta? Para Jeison Wallace, a materialização desse desejo veio através de uma personagem clássica, símbolo máximo das fábulas infantis: Cinderela. Encarnando uma versão escrachada e politicamente incorreta da garota feia que, ao conhecer o "príncipe encantado", transforma-se em uma mulher poderosa, Jeison passou a ser um dos nomes mais populares e queridos do teatro local. Ao lado da Trupe do Barulho, ele festeja agora os 35 anos do espetáculo Cinderela - A Estória que Sua Mãe Não Contou, dias 19 e 20, no Teatro do Parque.

Beto Costa rouba a cena como a Bicha Madrinha. Foto Arquivo

Ao longo dessa trajetória, que começou na boate Arara’s e se consagrou no palco do Teatro Valdemar de Oliveira, o ator aproveitou a empatia da personagem - uma empregada doméstica desbocada, inspirada em garotas com quem conviveu ao longo da infância, no bairro de Afogados - para invadir outros veículos. Faz comerciais e presença VIPs em espaços que vão de supermercados a festas da alta sociedade, apresenta programas de TV, criou a banda Pão com Ovo, gravou CD e também brilhou no rádio. Está achando pouco? Ela ainda apareceu no curta-metragem “Conceição”, do consagrado Heitor Dhália, e teve até podcast.

"Cinderela foi um presente enviado por Deus", garante. "A partir da peça, a vida de todas as pessoas do grupo mudou radicalmente". Hoje, os atores envolvidos no espetáculo têm carro e casa própria, sonhos que, nos anos 1980, quando começaram suas carreiras, não ultrapassavam os limites do camarim. Vale lembrar ainda que, na época em que virou fenômeno, telefones celulares também eram artigos de luxo. "Todo mundo tinha seu aparelho. Era cada tijolão”, diverte-se Jeison. “Mas uma das grandes felicidades da minha vida foi comprar um apartamento para a minha mãe, Ednalba, e deixar de viver no aluguel", orgulha-se. “Infelizmente, ela aproveitou muito pouco. Faleceu um ano depois de se mudar. Deus sabe o que faz”, diz ele, resignado.

O ator Beto Costa, que vive a Bicha Madrinha e também assina a produção do espetáculo, lembra exatamente a hora da virada. “Depois de cinco meses em cartaz no Valdemar de Oliveira, recebemos o convite para a transmissão das Virgens de Olinda, por intermédio de José Mário Austregésilo, então diretor da TV Jornal. Com o sucesso da nossa participação, a peça estourou. A partir daí, passamos a ganhar muito bem, pois o montante era dividido. Comprei minha primeira casa com esse dinheiro”, conta. “O curioso é que, quando estreamos, sofremos muito preconceito da própria classe teatral. Depois, eles começaram a nos ver de uma outra forma. Iam assistir e gostavam. As comparações com o Vivencial e a bilheteria bombando fizeram com que nos respeitassem como um fenômeno legítimo”, afirma Beto.

O sucesso de Cinderela foi tanto que chamou a atenção até dos assaltantes. No auge do sucesso no Valdemar, ladrões invadiram o local para roubar a arrecadação da bilheteria. "Na época, suspeitamos de pessoas que conheciam bem o funcionamento da casa, pois elas foram direto para a sala onde o borderô é conferido", recorda. Para tranquilizar a plateia, o grupo chegou a contar com o apoio de uma viatura da Polícia Militar de plantão na Praça Oswaldo Cruz, onde fica o teatro.

A apresentação no Geraldão, em 1997, foi apoteótica. Foto Arquivo

Mesmo de cara lavada, sem a maquiagem carregada e as perucas que caracterizam a personagem, Jeison não consegue passar despercebido. Não importa se é a rua onde mora ou em um dos shoppings da cidade. "Por onde ando, sempre tem alguém gritando o nome de Cinderela", revela. Com muito prazer, ele atende pedidos de selfies, mata curiosidades e não se importa de repetir o bordão "Oxe, mainha!" para os mais afoitos. O ator também esteve sempre atento aos novos talentos que o procuravam em busca de uma chance. “Sempre me reconheci nessas pessoas. Assim como elas, eu sabia que um dia alguém me daria uma oportunidade. E quis retribuir ao universo”, conta, lembrando que Flávio Andrade, sucesso no stand up, e Rubens Santos, que tem no currículo os filmes  “Bacurau” e “O Agente Secreto”, começaram com ele.

"O reconhecimento do público só levanta o nosso astral", diz o pernambucano, com a certeza de quem já enfrentou um Geraldão abarrotado, quando o espetáculo foi mostrado no projeto Viva a Vida, nos idos de 1997. Há quem garanta que nem Roberto Carlos reuniu tanta gente. Em casa, no entanto, Jeison gosta de ficar só, na companhia de seus CDs (sim, ele ainda os coloca para tocar no aparelho de som). “Sou vintage”, brinca.

Agora na telinha da Globo Pernambuco, Cinderela prova que tem fôlego para continuar a brilhar por muitos anos. “O alcance aumentou muito. A força da emissora é enorme, e meu trabalho chegou a um novo público, de todas as classes. Para mim, tem sido uma fase mais leve e tranquila, pois como trabalho por projetos, sobra tempo para cuidar de mim e para viver”, festeja Jeison. Mas, nos dias 19 e 20, essa faceta mais quieta vai ficar em casa. Ele quer muita gente do seu lado para cantar parabéns para Cinderela, a responsável por transformá-lo em um dos maiores ícones da cena pernambucana. “Ainda hoje me surpreendo com as demonstrações de afeto, de carinho. Cinderela já está no imaginário coletivo”, reconhece.

Jeison Wallace com o visual da nova fase na TV Globo. Foto Divulgação

Cleodon Coelho é jornalista, pesquisador e biógrafo.

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