A porta do inferno

6 ago 2026 | 0 comentários

Por Geraldo Frazão 

— Eu fui ao Turcomenistão.

Bastava eu dizer isso para que meus amigos reagissem de três maneiras diferentes:

— Onde fica?

— Ainda existe?

— Você foi sequestrado?

As respostas, felizmente, eram tranquilizadoras. O Turcomenistão fica na Ásia Central, existia — pelo menos até onde eu sabia — e ninguém havia me sequestrado. O único desaparecimento confirmado durante a viagem fora o da minha capacidade de distinguir realidade de ficção.

Tudo começou quando nosso grupo da Rota da Seda atravessou a fronteira vindo do Uzbequistão. Depois de alguns dias entre as cúpulas azuis de Samarcanda, os pátios silenciosos de Bukhara e as muralhas de Khiva, eu tinha adquirido a perigosa convicção de que já conhecia o repertório completo do extraordinário.

Foi então que chegamos ao Turcomenistão.

A saída do Uzbequistão ocorreu sem incidentes graves, embora os funcionários da imigração nos examinassem com uma expressão que parecia conter uma pergunta silenciosa:

O que essa gente pretende fazer do outro lado?

A dúvida era compreensível. O Turcomenistão não figurava exatamente entre os destinos mais espontâneos do turismo internacional. Para entrar no país, era necessário ter uma carta-convite, viajar por meio de uma agência autorizada e aceitar, com resignação, uma sequência de procedimentos cuja lógica só parecia evidente para quem os havia inventado.

Depois do primeiro controle, fomos obrigados a percorrer mais de um quilômetro carregando as malas. O caminho alternava pedras, areia e uma espécie de cascalho hostil, como se tivesse sido projetado por alguém empenhado em transformar a fronteira numa prova de resistência física.

O sol estava a quase quarenta graus. A cada passo, nossas malas pareciam pesar mais.

No fim do percurso, encontramos o ônibus que nos iria levar até a fronteira para os trâmites alfandegários. Ele parecia ter sobrevivido a várias décadas de história e a nenhuma reforma. Não havia bagageiro. As malas foram acomodadas no corredor, entre os pés dos passageiros, misturando-se a mochilas, casacos e garrafas de água. Quando o veículo arrancou, todos nós passamos a viajar numa espécie de coreografia involuntária: um tentava manter o equilíbrio, outro segurava a própria bagagem, um terceiro impedia que uma mala desconhecida deslizasse sobre seus pés.

O ônibus sacolejava pela paisagem árida enquanto o calor penetrava pelas janelas.

A certa altura, alguém perguntou:

— Isso ainda é a fronteira?

Nossa guia brasileira, que permanecia calma e impassível como se estivesse conduzindo um passeio num jardim, respondeu:

— Sim. Tudo normal.

A frase se tornaria o lema não oficial da viagem.

No posto de imigração turcomeno, fomos submetidos a um teste de Covid (sim, isso ainda é exigido para entrar no Turcomenistão), à conferência da carta-convite, à inspeção dos passaportes e à assinatura de documentos redigidos em turcomeno ou russo. Como nenhum de nós dominava qualquer uma das duas línguas, assinamos com a confiança de quem entrega a própria biografia a um desconhecido.

Depois vieram as malas, abertas e examinadas. Em seguida, os raios X. Depois, mais passaportes. Depois, carimbos. E mais conferência de passaportes.

Nosso guia turcomeno, que nos esperava na fronteira, sorria com serenidade: tudo normal. A frase era reconfortante, embora eu não tivesse certeza de que "normal" incluísse tantas verificações de passaporte em um único dia.

Após mais de três horas, finalmente atravessamos o portal de entrada.

Não houve música triunfal, fanfarra ou qualquer outro sinal de que havíamos conseguido ingressar num dos países mais fechados e singulares do mundo. Apenas o sol, a poeira e a sensação de que, em algum momento, havíamos assinado um documento autorizando algo que descobriríamos mais tarde.

Seguimos para Dashoguz, onde embarcamos com destino à capital. O aeroporto parecia uma rodoviária silenciosa, e o voo para Ashgabat foi tão discreto que mais tarde tive a impressão de que a aeronave havia simplesmente desaparecido de um lugar e reaparecido em outro.

Foi em Ashgabat que a realidade começou a adquirir uma aparência estranha.

Ou melhor: branca.

Muito branca.

Branca demais.

Ashgabat parecia ter sido construída com a convicção de que qualquer cor diferente do branco seria uma ameaça à ordem pública. Os edifícios eram brancos. Os ministérios eram brancos. Os monumentos eram brancos. As fachadas brilhavam sob o sol com uma intensidade quase agressiva.

Tive a sensação de que alguém havia regulado o brilho da cidade para trezentos por cento.

A arquitetura era monumental, geométrica e impecável. As avenidas eram largas a ponto de parecerem destinadas a desfiles de exércitos que jamais chegavam. Havia estátuas, fontes, praças imensas e edifícios revestidos de mármore claro, todos separados por espaços tão amplos que a presença humana parecia acidental.

Ashgabat não parecia uma cidade construída para pessoas. Parecia uma maquete erguida para impressionar alguém. Perguntei ao guia: onde estão os carros coloridos?

Ele sorriu.

— Observe melhor.

Observei.

Brancos.

Sedãs brancos. SUVs brancos. Táxis brancos. Carros novos, carros antigos, carros grandes e carros pequenos — todos obedecendo ao mesmo código cromático.

A cidade inteira parecia ter feito uma compra coletiva numa única concessionária.

À noite, porém, Ashgabat mudava. As fachadas eram iluminadas por cores intensas, e os monumentos dourados brilhavam contra o céu escuro. A cidade se transformava numa espécie de Las Vegas disciplinada: grandiosa, luminosa e ligeiramente irreal.

Visitamos parques, praças, monumentos e o sítio arqueológico de Nisa, antiga capital do Império Parta. As ruínas, espalhadas sob o céu aberto, tinham uma beleza mais discreta do que a da capital. Ali, ao contrário de Ashgabat, o tempo não parecia ter sido polido nem revestido de mármore. As pedras carregavam o peso de séculos.

Mas todos sabíamos que aquela ainda não era a principal razão de estarmos ali.

Darvaza nos esperava.

A famosa Porta do Inferno.

O nome era, convenhamos, uma obra-prima de marketing. Ninguém atravessaria milhares de quilômetros para visitar uma “cratera de gás natural em combustão permanente”. Mas “Porta do Inferno” era diferente. Havia nesse nome uma promessa, uma ameaça e uma oportunidade irresistível de tirar fotografias.

Depois do almoço, embarcamos nos veículos que atravessariam o deserto de Karakum.

A estrada começou civilizada.

Depois ficou irregular.

Em seguida deixou de ser propriamente uma estrada.

Chegou um momento em que já não sabíamos se o veículo desviava dos buracos ou se os buracos, por alguma forma de inteligência geológica, desviavam do veículo. O deserto se estendia para todos os lados, sem árvores, postes ou construções que pudessem servir de referência. Havia apenas areia, pedras, luz e uma imensidão que parecia não terminar em parte alguma. Alguns camelos pontilhavam no horizonte e, por vezes, cruzavam a estrada sem aviso prévio.

No fim da tarde, uma claridade surgiu no horizonte.

A princípio pensei que fosse um povoado. Depois, uma instalação industrial. Só quando nos aproximamos compreendi o que estávamos vendo.

Era um buraco.

Um buraco gigantesco, aberto no coração do deserto.

E o buraco estava em chamas.

Darvaza, conhecida como a Porta do Inferno, teria surgido na década de 1970, durante uma perfuração soviética em busca de gás natural. O terreno cedeu, formando uma cratera por onde o metano começou a escapar. Para evitar que o gás se espalhasse, os engenheiros decidiram incendiá-lo, imaginando que o combustível se esgotaria em poucos dias.

Décadas depois, o fogo continuava aceso.

Aproximei-me da borda.

O calor subia em ondas. As chamas se contorciam no fundo da cratera como se tivessem vontade própria. Em alguns pontos, eram finas e azuladas; em outros, altas e alaranjadas. O vento espalhava o calor pelo rosto e fazia a roupa colar ao corpo.

Acima de nós, o céu do deserto escurecia.

As primeiras estrelas surgiam.

E eu pensei que havia viajado mais de dez mil quilômetros para contemplar um buraco pegando fogo.

Era uma conclusão ridícula.

E, ao mesmo tempo, absolutamente maravilhosa.

O grupo inteiro permaneceu em silêncio. Algo raro em excursões, nas quais sempre existe alguém falando alto, pedindo uma fotografia ou perguntando quanto falta para o jantar.

Durante alguns minutos, ninguém fez nada além de olhar.

O fogo.

As estrelas.

O deserto.

A escuridão.

Então alguém comentou:

— Se isso é a Porta do Inferno, pelo menos a vista é bonita.

O encanto se rompeu. Todos rimos.

Pouco depois, nosso guia turcomeno se aproximou. Até então, ele havia conduzido as explicações com a objetividade de um guia experiente: datas, distâncias, nomes históricos e informações práticas. Mas, naquela noite, havia algo diferente em sua voz.

Ele olhou para a cratera antes de falar.

— Vocês conhecem a lenda da Porta do Inferno?

As conversas diminuíram. Os celulares foram guardados, ainda que com alguma relutância, deixando a frenética mania de fotografar o que a memória deveria guardar. Até os mais preocupados em fotografar o fogo perceberam que havia momentos que não podiam ser inteiramente transferidos para uma tela.

Ele apontou para as chamas.

— Muito antes dos geólogos, dos engenheiros e dos russos, os nômades acreditavam que um espírito antigo vivia sob estas areias.

O fogo crepitou.

— Ele era chamado de Guardião do Deserto. Não era bom nem mau. Apenas guardava os segredos escondidos sob a terra.

Alguns viajantes se sentaram na areia. Outros permaneceram de pé, junto à borda.

— Durante séculos, o Guardião dormiu. Mas os homens começaram a cavar cada vez mais fundo em busca das riquezas enterradas. O espírito enviou sinais para que parassem.

— Tempestades de areia — disse uma senhora do grupo.

O guia assentiu.

— Tempestades. Poços que secavam. Caravanas que desapareciam. Mas os homens continuaram cavando.

Ele fez uma pausa.

— Então, numa noite sem lua, a terra se abriu. E por baixo dela apareceu uma porta para o mundo subterrâneo. As chamas começaram a subir. Desde aquele dia, o fogo não se apagou.

Ninguém riu.

Diante daquela cratera, a história parecia menos uma invenção do que uma segunda explicação possível.

Um dos viajantes, engenheiro, foi o primeiro a falar:

— Eu sei como isso aconteceu. Conheço a explicação geológica. Mas, olhando para esse fogo, a lenda parece fazer mais sentido.

Dessa vez, os risos foram baixos.

Todos voltamos o olhar para a cratera.

— A ciência explica como a porta se abriu — disse o guia. — A lenda tenta explicar por quê.

A frase permaneceu entre nós.

Mais tarde, já na área das tendas, jantamos em volta de uma mesa comprida. O vento soprava do deserto, trazendo areia fina e o cheiro distante da fumaça. Mesmo àquela hora, a luz de Darvaza podia ser vista no horizonte, uma mancha avermelhada contra a noite. Alguém perguntou a se os nômades realmente acreditavam que a cratera era uma passagem para outro mundo.

O guia demorou a responder.

— Talvez — disse. — Mas não necessariamente para outro planeta ou outra dimensão. Existem muitos mundos dentro da experiência humana: o medo, a memória, o desejo, o sagrado. Há lugares em que as pessoas sentem essas coisas com mais intensidade.

Comemos em silêncio contemplativo.

— Para os povos do deserto — continuou ele —, atravessar uma paisagem como esta nunca foi apenas ir de um lugar a outro. Quem atravessa o deserto não volta exatamente igual.

Olhei para além da tenda. O Karakum se estendia sob a noite, imenso e silencioso.

— Então Darvaza não é uma porta para o inferno? — perguntei.

Ele sorriu.

— Talvez seja uma porta para dentro.

A resposta provocou alguns risos, mas não durou muito. Havia nela alguma coisa incômoda demais para ser descartada como uma frase bonita.

— Cada pessoa vê uma coisa diferente naquele fogo — continuou ele. — Medos, desejos, perdas, lembranças. O fogo não ilumina apenas o deserto. Ele ilumina quem olha para ele.

Naquela noite, compreendi que a explicação científica e a lenda não precisavam competir. A ciência dizia como a cratera surgira. A história dos nômades dava forma ao espanto. E talvez a imaginação respondesse à pergunta que os fatos, por mais precisos que fossem, nunca conseguiriam responder inteiramente:

Por que isso nos afeta tanto?

Quando nos levantamos para voltar às tendas, quase todos olharam para trás uma última vez.

Nada havia mudado. As chamas continuavam queimando. O vento continuava soprando. O deserto permanecia imóvel.

Foi no Turcomenistão que percebi que alguns lugares não precisam ser compreendidos para permanecerem conosco. Ashgabat continuava parecendo uma cidade desenhada por alguém apaixonado por mármore branco e por avenidas vazias. Os carros continuavam obedecendo ao mesmo pacto cromático. A fronteira continuava sendo uma sucessão de documentos, carimbos e malas abertas.

Mas, no meio do deserto, havia uma cratera em chamas.

E diante dela qualquer viajante voltava a ser criança — não porque acreditasse literalmente numa porta para o inferno, mas porque ainda era capaz de olhar para alguma coisa e admitir que não sabia exatamente o que estava vendo.

Quando voltei para casa, meus amigos perguntaram:

— E então? Como foi o Turcomenistão?

Respirei fundo.

Sorri.

— Imaginem uma cidade toda branca, um deserto sem fim e um buraco gigantesco pegando fogo.

Eles riram.

Eu também.

Porque, pela primeira vez na vida, a descrição mais absurda era exatamente a mais verdadeira.


Geraldo Frazão é servidor público federal, escritor bissexto, autor de obras jurídicas e, nas horas vagas, pianista.

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