Conto inédito de Paulo Costa

20 ago 2026 | 0 comentários

Foto Fachtu Robbi Almalik/ Unslplash

"Jasmim" foi selecionado para a coletânea nacional Brasiliê, que terá 237 contos. O lançamento será no dia 5 de setembro, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. 

Jasmim 

Ele, há meses, distante de tudo e saudoso, triste. Aproveita a pouca disposição que lhe resta e resolve se banhar com óleo de jasmim. Vem tentando de tudo pra exorcizar o banzo que lhe persegue famintamente: do divã da psicóloga ao banho com essência que, segundo uma amiga ligada a tratamentos astrais, é inclusive afrodisíaco. Mas, pra que ele precisaria disso? Anda macambúzio, sem tesão nenhum, nem de manhã cedo antes do xixi oscilante, antes pujante. Vontade de nada, cansado de tudo. Tá a fim mesmo de aliviar o “estresse reverso”, como diz um amigo.

Ela, depois de algumas relações fortes, apaixonantes mas dolorosas, vive sacudindo a poeira, procurando renovar a pele da vida, saindo todas as noites. Só com amigas. Resolve marcar com a Rosinha no Bar de Sempre. Quase atrás de uma pilastra, meio luz, meio sombra, ele toma seu conhaque, amigo das noites solitárias. O pensamento se eleva, na verdade, voa no aroma do conhaque. Ela, avista aquele vulto e, querendo distância, muda até a cadeira de posição, num muxoxo. Ele não percebeu a chegada dela nem o rompante. Ela começa a se irritar com a demora da amiga que nem o zap responde mais. Dá um tapa na mesa, levanta e vai ao banheiro pisando duro. 

Deslumbrante, mesmo arretada, não passa despercebida por ninguém, nem por ele que, finalmente, levanta os olhos depois de muitas noites tentando matar a saudade no copo. Ela quase parou ao seu lado, mas segue sorvendo, tateando o ar, tentando decifrar aquele cheiro que a fisga de surpresa. Suaviza os passos antes em marcha. Seria jasmim, um dos aromas que mais atiçam sua libido, já quase esquecida nos últimos e estressantes dias? Que intensidade envolvente! Ainda bem, esse cheiro doce pode até aliviar um pouco a raiva que a Rosinha tá me fazendo. Já devia ter me acostumado aos seus atrasos. Vai ver que até esqueceu nossa birita terapêutica de hoje. Que saco! Retoca a sombra escura e o batom azul profundo, fitando o espelho: Poderosa! Com um longo suspiro, ele inala o buquê do conhaque e, com olhar viajando entre os morcegos fluorescentes pendurados no teto e recordações que vêm e vão, aterrissa com ela parada ao lado da mesa. Ela refaz o trajeto do voo que ele fazia com os olhos, inspirando o jasmim profundamente e, lépida, fita os morcegos e volta o olhar de madrugada sem lua diretamente pra ele. Os olhos se acendem por alguns segundos. Isso é jasmim, num é? Não, é conhaque. Ela puxa a cadeira e senta. Posso sentar? Sim, claro, pode, sim. Que cheiro! Não tô sentindo nada demais, algo estranho? Cheiro, não, aroma das deusas, isso é… Conhaque? De jeito nenhum, isso é, isso é jasmim, sem dúvida, nada é tão demais assim. É em mim, gostou? As cadeiras rangem no assoalho, se aproximam. Quero sentir um pouco, um pouco mais perto… O conhaque? Não, o jasmim.


Paulo Costa tem sete livros publicados, entre romances e poesia. Jornalista, publicitário, roteirista e dj criador do projeto Radiola no Mercado.

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