Uma nave que transporta até a infância 

30 jul 2026 | 0 comentários

Foto Blad Meneghel/Divulgação

Por Thiago Tião

Eu fui baixinho da Xuxa. Digo isso não como quem apresenta uma credencial de fã, mas a partir do lugar de quem observa. Pertenço à geração que acordava e encontrava Xuxa na TV antes mesmo de entender o que era programação ou indústria cultural. Para uma criança, aquilo não era um cenário: a nave chegava de verdade, vinda de algum lugar de sonho. Quarenta anos depois, diante de um estádio lotado em São Paulo, ela voltou a aterrissar, trazendo com Xuxa as lembranças das crianças que aqueles milhares de adultos haviam sido.

Esses baixinhos agora têm mais de 30, 40 ou 50 anos. Trabalham, pagam contas, criam filhos e enfrentam uma rotina distante daquela em que bastava ligar a televisão. Ainda assim, estavam ali, cantando músicas aprendidas quando mal sabiam ler. Chamar isso apenas de nostalgia é pouco. A nostalgia explica a vontade de rever uma abertura ou comprar um disco relançado, mas não sustenta um estádio quatro décadas depois. O que permanece é a memória de um país que assistia à mesma tela ao mesmo tempo.

O Xou da Xuxa foi exibido entre 1986 e 1992. Não havia internet ou algoritmo escolhendo o cardápio infantil. Crianças de diferentes regiões e classes sociais conheciam as mesmas músicas, os mesmos bordões e as mesmas Paquitas. No recreio, ninguém precisava explicar quem havia descido da nave. Esse tipo de infância compartilhada desapareceu. 

Hoje, duas crianças na mesma sala consomem referências inteiramente distintas. O país não se senta mais diante do mesmo canal no mesmo horário. Por isso, a despedida da nave encerra uma maneira de produzir celebridade que não retornará.

A estreia da turnê aconteceu no sábado, 25, em São Paulo. Foto Divulgação

Em Pernambuco, essa história ganhou espaços físicos. A capital viu Xuxa ocupar ginásios e estádios. Em novembro de 1994, a montagem do show “Sexto Sentido” na Ilha do Retiro chegou a interferir no treinamento do Sport. Uma apresentadora infantil alterava a rotina de um clube de futebol e movimentava a agenda cultural inteira.

Anos depois, em 7 de outubro de 2017, o XuChá reapareceu filtrado pelo público adulto, no Classic Hall, em Olinda. Drag queens locais ocuparam o palco como “Paquidrags”, uma apropriação queer e festiva de símbolos da infância. Xuxa foi reinterpretada como ícone pop e memória de liberdade em uma televisão conservadora.

Recife conhece bem o preconceito contra o que alcança as massas. Durante décadas, o brega foi tratado como música inferior, exagerada ou de mau gosto, embora já ocupasse rádios, clubes, festas e a memória afetiva de muita gente. Era cultura muito antes de parte da crítica aceitar chamá-lo assim. O reconhecimento institucional só veio depois da força popular.

Esse mesmo ranço elitista sempre recaiu sobre tudo o que atrai multidões sem pedir bênção aos círculos ditos cultos. Com Xuxa, a engrenagem operou da mesma forma. O tamanho de seu público, o fato de ser consumida por milhões de pessoas em todas as classes sociais serviu por muito tempo como argumento para diminuí-la: era comercial demais, infantil demais, colorida demais, popular demais. Como se a preferência de massa fosse prova de irrelevância cultural.

A televisão que a encerrava em um altar de espetáculo também era a mesma que patrulhava o gosto popular, que tratava o funk das periferias como caso de polícia enquanto Xuxa abria espaço em seu palco para o movimento de DJ Marlboro, Bob Rum e a dupla Claudinho e Buchecha.

Vista de longe, Xuxa pertence à mesma linhagem das grandes divas pop. De Cher a Sabrina Carpenter, passando por Madonna, são mulheres que fundaram uma gramática própria e ergueram um mercado à sua volta, ao ponto de transformar a própria despedida num gênero, a consagração vendida como adeus.

A apresentadora gaúcha no auge do sucesso na TV e nos discos. Foto Xicão Jones/DIvulgação

A turnê que aposenta a nave joga nesse mesmo tabuleiro, com uma inversão que ela mesma fez questão de apontar. Ao preparar o espetáculo, Xuxa contou ter visto Beyoncé usando figurinos parecidos com os que já havia desenhado e efeitos de luz que remetiam à sua nave, a ponto de temer que a acusassem de copiar as estrangeiras. O trajeto, porém, foi o oposto: o caminho havia sido aberto por ela. A diferença que a separa das outras é que ergueu esse império formando uma geração de crianças, coisa que nenhuma das divas precisou fazer.

Nada disso apaga as contradições. Xuxa foi também o rosto de uma máquina de consumo dirigida a crianças, e o padrão das Paquitas, definido nos bastidores como “brancas, loiras e magras”, é uma escolha que envelheceu mal e bateu de frente com o próprio discurso de respeito às diferenças. A própria apresentadora reconheceu isso anos depois, em um mea culpa público. Encarar essas arestas não é o oposto de admirá-la. O jornalismo erra quando fica preso entre a adoração e o desprezo, em vez de investigar por que um fenômeno assim dura tanto.

Há também uma dimensão pessoal que não consigo nem quero retirar deste texto. Enquanto nos entretinha, Xuxa falava sobre cuidar dos animais, preservar a natureza, respeitar as diferenças e não ter vergonha de demonstrar afeto. Nem sempre essas mensagens eram profundas ou livres das contradições daquele tempo, mas chegavam a crianças que talvez não as escutassem em outro lugar.

No palco, Xuxa revive a estética que a consagrou nos anos 1980. Foto Divulgação

Xuxa participou da educação sentimental de milhões de brasileiros. Ensinou um vocabulário de alegria, cuidado e pertencimento, enquanto a própria televisão transformava tudo aquilo em entretenimento e produto. Essa mistura entre afeto e mercado não enfraquece o fenômeno; é justamente o que o torna digno de análise.

Conhecemos a engenharia por trás da nave. Sabemos da edição, do marketing e dos contratos. Acreditávamos que ela falava diretamente conosco, embora falasse para milhões, graças à clássica competência de produzir intimidade diante de uma multidão ou de uma câmera, chamando todos de baixinhos para que cada criança imaginasse o recado como pessoal.

Mesmo assim, quando a fumaça sobe, reconhecemos o chamado. O último voo não marca a aposentadoria da artista, mas a despedida do seu maior símbolo cênico, e, com ela, a constatação de que a geração que a viu surgir olha para a própria infância como época histórica.

Não queremos voltar a ser crianças; sabemos que não podemos. Estamos apenas reconhecendo que fomos crianças juntos. Se a nave pousar no Recife, estarei lá. Não por ilusão temporal, mas porque fui baixinho dela. E, diante daquela nave, uma geração inteira ainda se reconhece.


Thiago Tião é jornalista

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