A palavra ouvida vira audiolivro
Por Kennedy Michiles
Nascida em 1945, Severina Gomes da Silva não foi alfabetizada. Sua criação se desenvolveu na convivência com a poesia da região e na observação do cotidiano. Amores, saudades e dificuldades atravessam uma produção de caráter autobiográfico, na qual a experiência pessoal encontra as formas da poesia popular.
Antes de ter seus poemas reunidos em livro, Severina Branca conheceu a literatura pela escuta. Na infância em Serrote Pintado, povoado de São José do Egito, no Sertão do Pajeú, ouvia a irmã ler folhetos de cordel por tardes inteiras. As cantorias completavam essa formação, em que ritmo, memória e palavra falada ocupavam o lugar da página. É dessa relação com a oralidade que nasce a obra reunida no audiolivro “Enquanto render a vida, não se acaba a esperança”, disponível gratuitamente no YouTube.
No audiolivro, os versos ganham as interpretações de Ana Luiza Passos, Dayane Rocha, Francisca Araújo, Isabelly Moreira e Thyelle Dias. Com cerca de 30 minutos, a produção e pesquisa de Isabelly Moreira e Juliana Coutinho, com direção de áudio de Petrônio Lorena, aproximam outros públicos de uma obra inicialmente publicada em uma tiragem de cem exemplares, custeada pela própria autora.
A passagem para o áudio também amplia o acesso aos poemas para pessoas cegas, com baixa visão ou que não foram alfabetizadas. O projeto conta com consultoria de acessibilidade de Danielle França.
Camilo Soares e a geopoética da lama
O escritor e cineasta Camilo Soares lança na próxima quarta-feira (23), às 19h, o livro Geopoética da lama - Do lamaçal a um olhar de insurgência. O autor articula ciência, filosofia e arte para fundamentar um conceito que responde ao estresse socioambiental do nosso tempo.
Durante o lançamento, Camilo Soares conversará com o escritor Roberto Azoubel e a fotógrafa e jornalista Alcione Ferreira, no auditório do Centro Josué de Castro.
A Revista Araçá antecipa a seguir um trecho do livro.
[…] Adentrando os poros de nossas peles e terrenos como água lavando a tez do mundo, tal olhar sedimenta elementos que a arte transforma e potencializa como representação da existência material e cultural da humanidade. Essa água, originalmente diáfana, translúcida de inocência e pureza (uma pureza inexistente, validada apenas pela força da tradição), torna-se lama espessa que, sobre o corpo, faz aflorar uma segunda pele, uma nova matéria, um novo ser, um novo olhar.
Essa lama, que contamina qualquer tentativa de percepção simplista e transparente do real, não se reduz a uma metáfora. Está mais para um enxerto, técnica de fusão orgânica comum às plantas, que, nas palavras de Bachelard, possibilita entendermos a reconciliação da imaginação formal com a imaginação material, ultrapassando a definição etimológica da imaginação como faculdade de dar formas ao real, para poder construir imagens que ultrapassem a realidade material: “É o enxerto que pode realmente dar à imagem material a exuberância das formas. É o enxerto que consegue transmitir ao imaginário formal a riqueza e densidade dos materiais” (Bachelard, 1942, p.18). Assim, para se entender a imagem da terra molhada, imunda e barrosa, matéria ordinária para grande parte da população global, é importante contemplar a imaginação formal e material que ela suscita.
A lama é, sobretudo, parte integrante do mundo periférico, seja no contexto local de algumas geografias alagadiças, como as zonas litorâneas do Brasil, mas também lugares desafetados, abandonados, à deriva, como comunidades pobres, zonas rurais desabastecidas e campos de refugiados. Apesar de carregar sintomas do desastre, a lama não consiste somente na paisagem comum desses espaços marginalizados, mas também participa na constituição do imaginário e da cultura de suas populações. Parece não apenas sedimentar uma metáfora da dura realidade de quem convive com ela, mas também oferecer a possibilidade de contemplação crítica capaz de desenvolver potências imagéticas, biológicas e sociológicas inerentes à construção do espaço da cidade, reconfigurando suas relações e conflitos. Nesse sentido, superando a pura negatividade, simbólica à primeira vista, a lama parece abarcar o material para a carne do mundo dessas pessoas para, assim, formar sentido de mundo delas nesses espaços. Aqui, a carne não apenas envolve, mas vê, pensa e sente o mundo através de sua materialidade. A lama é vista, é pensada e é sentida pela arte para dar sentido a essa uma carne que absorve, ao contato, todo o sistema material e subjetivo ao seu redor.

Geopoética da lama
Camilo Soares
Cultura Acadêmica (Unesp)
142 pp.
R$ 45






















































































































































































































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