A importância de Tarsila do Amaral para a cultura brasileira
Por Carlos André Carvalho
Nos quatro primeiros dias de outubro, Pernambuco receberá “Tarsila, a Brasileira”, musical que mergulha na vida, na obra e nas paixões da pintora que revolucionou a arte ao traduzir, em cores e formas, a verdadeira identidade do Brasil. Protagonizado por Cláudia Raia e já visto por mais de 150 mil pessoas, o espetáculo nasceu como mais uma entre tantas homenagens feitas a uma das figuras mais importantes da cultura brasileira do século 20.
Tarsila já ganhou várias exposições. A maior delas foi “Tarsila Popular”, no Masp, em 2019, que reuniu mais de 90 obras e se tornou a mostra mais visitada da história do museu até então. Mas o que faz com que essa mulher, nascida em Capivari, interior paulista, seja hoje um dos nomes mais importantes e influentes do Brasil? Uma das respostas, certamente, é que ela inventou uma identidade visual genuinamente nossa, unindo as vanguardas europeias às raízes e cores nacionais. Não seria exagero dizer, ainda, que, em um momento em que a produção artística local ainda se dividia entre a imitação servil dos modelos acadêmicos europeus e um regionalismo lírico sem grandes ambições formais, ela operou uma verdadeira revolução. A trajetória artística e legado justificam o lugar dela no panteão das maiores artistas plásticas do planeta.
Obras como “A Negra” (1923), “Abaporu” (1928) e “Operários” (1933) atravessaram o modernismo e se tornaram fenômenos da cultura contemporânea mundial. Hoje, essas imagens alcançaram um status pop, estampando camisetas, meias e canecas, dialogando diretamente com pessoas que nunca pisaram em um museu. Elas usam camisetas estampadas com o “Abaporu” não necessariamente porque sabem o quanto aquilo é revolucionário do ponto de vista artístico, mas porque, entre outras razões, a pintura transmite uma sensação de pertencimento, estilo e orgulho de ser brasileiro.

As cores de Tarsila, vibrantes e alegres, mesmo quando o tema é a melancolia, como é o caso de “Composição (Figura só)”, de 1930, marcam a valorização da identidade nacional. O artista plástico Marcos Porto resume, de forma quase poética, esses aspectos na obra da artista. “Mais do que escolhas estéticas, a paleta de cores de Tarsila pulsa como o coração de sua obra, construindo uma brasilidade visual incrível. O contraste intenso e o brilho solar das telas dão forma à luz tropical e à vivacidade da nossa flora e fauna. Ao entrelaçar lembranças, afeto e brasilidade, ela reinventou essa paisagem com uma linguagem modernista única e universal”, explica Porto.
Gramática visual poderosa
A artista, que morreu em 1973 aos 86 anos, teve acesso a uma formação privilegiada. Em 1920, foi estudar em Paris, onde ficou até junho de 1922 e estudou com mestres das vanguardas europeias, como André Lhote, Fernand Léger e Albert Gleizes. Com eles, absorveu a clareza da construção formal e a liberdade estrutural do traço moderno. O grande diferencial, no entanto, não foi a assimilação da técnica ocidental, mas o uso dela como ferramenta para traduzir a brasilidade. “A passagem de Tarsila por Paris e seus estudos com mestres como Léger foram decisivos para a consolidação de sua linguagem. A assimilação da geometrização do Cubismo e o apelo onírico do Surrealismo francês por ela, não apenas reproduzindo a vanguarda europeia, mas a reinterpretando com temas e memórias genuinamente brasileiras, a tornaram uma grande referência", lembra o também artista plástico pernambucano Maurício Silva, radicado na França há 20 anos.
Ao retornar ao Brasil e viajar pelo interior de Minas Gerais e São Paulo com o grupo modernista — ao lado de Oswald de Andrade, seu companheiro, e Mário de Andrade —, Tarsila reencontrou as cores de sua infância nas fazendas: o azul-caipira, o rosa-pompom, o verde-folha e o amarelo-ouro, por exemplo. Essas tonalidades, antes desprezadas pela academia por serem consideradas “caipiras” ou “populares demais”, tornaram-se a marca registrada de fase Pau-Brasil (1924–1928), na qual, como bem lembrou o crítico Sérgio Milliet, “as cores ditas caipiras, rosas e azuis, as flores de baú, a estilização geométrica das frutas e plantas tropicais, dos caboclos e negros, da melancolia das cidadezinhas” foram enquadradas na solidez da conservação cubista.
Mas, antes disso, ainda em Paris, pintou “A Negra”, uma das obras mais importantes e emblemáticas do modernismo brasileiro. A tela representou um marco divisor em sua carreira, servindo de semente para o que mais tarde viria a ser o Movimento Antropofágico. Para criar “A Negra”, Tarsila buscou referências nas memórias de infância. Filha de um grande cafeicultor do interior de São Paulo, ela havia crescido em fazendas onde o convívio com trabalhadoras filhas de escravos era parte da rotina. Esteticamente, o quadro faz uma fusão entre as técnicas cubistas aprendidas na Europa e a temática nacionalista brasileira. O peito avantajado da negra não está ali por acaso: Tarsila havia ouvido das empregadas da fazenda do pai que, durante o período de escravidão, elas trabalhavam nos cafezais com os bebês nas costas, o que as obrigava a jogar os seios para trás para poder amamentar.
A origem de “Abaporu”
Já “Abaporu”, a obra mais famosa, serviu de inspiração para Oswald de Andrade, para quem a tela foi pintada como presente de aniversário, criar o Manifesto Antropófago. Tanto Oswald como Raul Bopp, que acharam a figura retratada enigmática, um índio canibal, um homem antropófago. “É o homem plantado na terra”, teria dito Bopp, acrescentando que era inspiração para um movimento.
Em uma entrevista nas páginas amarelas de Veja em 1972, um ano antes de morrer por complicações decorrentes de uma cirurgia antiga na coluna, Tarsila explicou como surgiu o nome da obra. “Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro, porque eu tinha um dicionário Montoya, um padre jesuíta que dava tudo. Para dizer homem, por exemplo, na língua dos índios era Abá. Eu queria dizer homem antropófago. Folheei o dicionário todo e não encontrei. Só nas últimas páginas tinha uma porção de nomes e vi Poru e, quando eu li, dizia ‘homem que come carne humana’. Então, achei: ah, como vai ficar bem, Abaporu. E ficou com esse nome”, detalhou.
A partir da tela, que funda a fase antropofágica de Tarsila, Oswald cunhou a teoria da antropofagia para a arte moderna no Brasil, que resultou no manifesto, publicado ainda em 1928. Esta teoria propunha que os artistas conhecessem os movimentos estéticos modernos europeus, mas criassem uma arte com a cara do Brasil. Para ser artista moderno, seguir as tendências europeias não bastava, era preciso criar algo enraizado na cultura do país. Noutras palavras, fazer como os canibais faziam: devorar o outro não só para matar a fome, mas porque acreditavam que, com isso, incorporavam as virtudes da presa, como a coragem.

Décadas após a sua criação, o quadro passou por diferentes colecionadores até integrar o acervo de Raul Forbes. Em 1995, ele decidiu vender a pintura e tentou negociá-la com compradores no Brasil antes de levá-la a mercado, mas não obteve êxito. Diante da ausência de compradores no país, a obra foi encaminhada para a casa de leilões Christie's, em Nova York, em 1995. Na ocasião, o colecionador argentino Eduardo Costantini arrematou “Abaporu” por US$ 1,3 milhão — um recorde financeiro para uma pintura brasileira até aquele momento. Anos mais tarde, Costantini fundou o Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (Malba), instituição onde o “Abaporu” se consolidou como uma das peças centrais da coleção permanente.
A discussão em torno da volta da pintura ganhou visibilidade em 2011, quando ele retornou temporariamente ao país por empréstimo para uma exposição no Palácio do Planalto. Na oportunidade, a então presidente Dilma Rousseff conversou com Costantini sobre a possibilidade de repatriação do quadro. Paralelamente, um grupo de investidores chegou a apresentar uma oferta de aproximadamente US$ 20 milhões para adquirir a obra. Costantini afirmou que não venderia o quadro nem por muitos e muitos milhões de dólares. Segundo ele, a venda significaria uma perda irreparável para o Malba, argumentando que “Abaporu"” atingiu um patamar no qual já não possui um preço comercial. Embora continue, mesmo na Argentina, um dos símbolos mais vivos da identidade e da cultura brasileiras.
Uma vida triste
Mas nem tudo foram flores na vida da artista modernista. “Ela foi ao inferno várias vezes”, lembra Cláudia Raia, que interpreta Tarsila no musical. “Depois de uma vida brilhante, ela sofreu horrores”, completa, destacando o contraste entre a juventude abastada da artista e uma trajetória posterior pontuada por dificuldades financeiras e sofrimentos. Filha de um proprietário de 29 fazendas de café, estudou literatura, piano e pintura, além de falar cinco idiomas fluentemente. A bonança, contudo, ruiu com a crise financeira de 1929, que devastou os negócios do café e fez com que a artista perdesse todo o patrimônio.
A sua vida afetiva também foi marcada por sucessivas desilusões. Após um casamento infeliz de sete anos com um primo, Tarsila uniu-se a Oswald de Andrade. O relacionamento ruiu quando Oswald engravidou Patrícia Galvão (a Pagu), amiga inicialmente acolhida por eles, dentro da própria residência. Somando-se às desilusões amorosas, ela enfrentou severas perdas ao longo de seus 86 anos de vida, incluindo a morte de uma neta por afogamento. Ao relatar, Cláudia Raia compara a trajetória dolorosa da artista à da pintora mexicana Frida Kahlo, ressaltando o caráter vanguardista e icônico de Tarsila no cenário cultural.

Fase comunista
A aproximação de Tarsila do Amaral com a causa socialista e o Partido Comunista ocorreu na transição dos anos 1920 para os anos 1930, impulsionada por uma combinação de fatores pessoais, políticos e contextuais. Após se separar de Oswald em 1930, Tarsila começou a namorar o médico psiquiatra e intelectual paraibano Osório César, militante ativo do Partido Comunista do Brasil (PCB). Foi sob sua influência direta que ela se aprofundou nas teorias marxistas, passou a frequentar reuniões militantes e se filiou ao partido.
Vendeu quadros do acervo pessoal para custear uma viagem com Osório para a União Soviética em 1931. Em Moscou, realizou uma exposição de suas obras no Museu de Arte Ocidental. A experiência de ver o país em plena industrialização e de entrar em contato com o proletariado e a propaganda visual de esquerda impactou profundamente sua percepção sobre o papel da arte.
Ao retornar ao Brasil, o envolvimento de Tarsila com a militância de esquerda chamou a atenção das forças de segurança do governo de Getúlio Vargas. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, Tarsila foi presa por cerca de um mês por conta de seu envolvimento com o Partido Comunista e das reuniões que frequentava. Depois deste episódio, terminou o namoro com Osório e nunca mais se envolveu com política.

Essa fase engajada transformou a linguagem visual de Tarsila. Ela afastou-se das cores tropicais e o toque estilizado das fases Pau-Brasil e Antropofágica para adotar uma temática de cunho social, culminando em telas emblemáticas como “Operários” (1933), que retrata a diversidade étnica e a massa trabalhadora sob a ótica da exploração urbana e da industrialização no Brasil.
São todas essas Tarsilas que o público vai conhecer no musical , que fica em cartaz de 1º a 4 de outubro, no Teatro Guararapes, no Pernambuco Centro de Convenções, em Olinda. A montagem, com texto e letras de Anna Toledo e José Possi Neto, que também assina a encenação e direção de arte, e a direção musical de Guilherme Terra, traz ainda Jarbas Homem de Mello dando vida a Oswald de Andrade.






































































































































































































































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