Por Genildo Santana
Conhecia a professora Celeste Vidal através das falas de minha mãe, também professora. Depois, o poeta tabirense Dedé Monteiro me falou sobre ela. Isso lá pelos idos de início dos anos 1990. Fui para o Seminário na Arquidiocese da Paraíba e, para concluir o curso de Filosofia, em 1996, defendi o tema Angústia e Desespero em Kierkegaard e Sartre. Foi quando saí atrás da pessoa de Celeste, com o intuito de incrementar meus argumentos, uma vez que ela havia vivido essas realidades na época da ditadura civil-militar brasileira. Por contato e influência de pessoas amigas de Tabira, fui encontrá-la no Recife. De nossa primeira conversa, deu-me ela uma pilha de jornais que contavam sobre sua prisão e torturas. Levei-os a João Pessoa e fui fazer minha pesquisa. E descobri mais do que imaginava.
Em 1996, com laços mais estreitos com ela, levei-a ao Seminário da Imaculada Conceição, em João Pessoa, para palestrar para padres e seminaristas sobre a ditadura, a sua história, sua luta, sua poesia. Como lembro bem: ela encantou todo mundo que estava na palestra. Alegre, gracejando, sem arrodeios na linguagem, fazia rir os sisudos, moralistas, os mais pudicos que ali estavam. Tanto agradou que em 1997 retornou para outra palestra. Em ambas vendeu muitos livros de poesia.
Agradeci a Deus e à vida por ter conhecido uma pessoa tão magnífica quanto Celeste Vidal. Acalentei, desde então, a ideia de escrever sobre ela. Ideia só posta em prática em 2015, quando fui fazer uma pós-graduação em História do Brasil, na Faculdade de Formação de Professores de Afogados da Ingazeira e a escolhi como tema de defesa de tese. Naquele trabalho acadêmico nasceu o livro Celeste Vidal: Uma vida na Ditadura Civil-Militar brasileira.
O livro foi lançado em maio de 2025, em Tabira, com lançamentos em Afogados da Ingazeira e demais cidades da microrregião do Pajeú, e apresentado em vários eventos culturais dos quais participamos.
A obra versa sobre Celeste Vidal e sua participação nas Ligas Camponesas, ao lado de Francisco Julião, e sua posterior prisão logo nos primeiros dias do golpe militar de 1964. Para tanto, no primeiro momento fizemos uma análise historiográfica da ditadura civil-midiática-militar e das motivações que levaram os militares a darem um golpe no presidente civil João Goulart, substituindo seu governo por uma junta militar. Abordamos como a ditadura civil-militar se encaixa no contexto ideológico da guerra fria, numa luta entre E.U.A e a U.R.S.S.
Num segundo estágio, fizemos uma abordagem da vida de Celeste Vidal e da sua prisão e consequente tortura a que foi submetida, no Recife. Nesse intento, contamos, basicamente, com testemunhos orais, colhidos de sua irmã Enaide Vidal, seu filho caçula Murilo e seu filho primogênito Paulo Max.
Maria Celeste Vidal nasceu no dia 12.05.1929, em Água Branca, Paraíba. Filha de Zezinho Vidal e Nanuza Vidal. Sua mãe morreu em 1930, sendo Celeste Vidal criada pela avó paterna. Em 1948, foi residir em Tabira com suas irmãs e lá conheceu Esaú Mascena, com quem contraiu matrimônio. Desse casamento resultaram três filhos: Paulo Max, Márcia e Murilo. De Tabira, Celeste Vidal foi para Vitória de Santo Antão, para trabalhar como professora. Foi lá que ela se engajou nas Ligas camponesas, participando de reuniões com Francisco Julião.
Celeste Vidal foi uma das primeiras vítimas da violência instalada no Brasil. Torturada, seviciada, alijada dos direitos civis, sentiu na pele e na alma todas as dores e os dissabores da ditadura civil-midiática-militar de 1964. Com suas peculiaridades, seu relatos da tortura se igualam aos de tantos brasileiros que ousaram desafiar um sistema político que não se assentava na democracia e no respeito às liberdades civis e às consciências individuais.
Socialista por convicção, libertária por natureza, poetisa, crítica por formação, Celeste Vidal se dizia “abelha operária”. Combatia todo e qualquer tipo de injustiça social ou pessoal. Viu nas Ligas camponesas um meio legítimo de luta contra a propriedade privada e as desigualdades no campo e a favor de uma reforma agrária. Como professora, via na educação um instrumento privilegiado de conscientização e formação política. Suas ideias libertárias e sua indignação frente à miséria do mundo a indispunham até com familiares. Sua franqueza e coragem ao denunciar o que cria errado a levavam a se pôr sempre do lado dos oprimidos, dos menos favorecidos pela sociedade.
Poetisa, cantava em versos as belezas do mundo e denunciava, com sua sensibilidade poética, as injustiças que permeiam as relações entre os homens.
A tortura não se limitou, no caso de Celeste Vidal, apenas à brutalidade física. Paulo Max conta um caso que figura como único, até onde o sabemos, de humilhação feita pelos militares, quando a enjaularam e conduziram-na a uma festa em Casa Forte, bairro do Recife, para apresentá-la à esposa de um Coronel, que não sabia o que era uma comunista e queria ver uma. Paulo Max conta que
O coronel que torturou minha mãe, levou minha mãe numa jaula, para Casa Forte. Porque tinha uma festa lá e uma mulher, eu presumo que era a esposa dele, queria saber como era uma comunista. Ela não sabia como era uma comunista. Ai, botaram minha mãe numa jaula e levaram ela pra Casa Forte.
De personalidade forte, segundo seu filho Paulo Max, ficou famosa sua resposta ao tenente do Exército que, depois de torturá-la por mais de oito horas seguidas, voltou e lhe perguntou: “É você a rapariga de Arraes?” Ao que ela respondeu: “Seria rapariga se fosse sua mãe”. E cuspiu na cara do tenente.
Celeste Vidal passou 4 anos presa, de 1 de abril de 1964 a dezembro de 1967. Após ser solta, Celeste Vidal deslumbrou uma mais triste e sombria realidade. Teve que trabalhar na clandestinidade e enfrentar a tarefa de educar os filhos, que sofriam por terem uma mãe comunista.
Maria Celeste Vidal faleceu em 1998, de um pós-operatório de ponte de safena no Hospital Português,no Recife. Segundo o depoimento mais emocionado de Paulo Max,
Morreu abraçada com a bandeira de Lula no dia em que Lula perdeu pra FHC. Ela morreu recém-saída da UTI do Hospital Português gritando: “Viva o Brasil, Viva Lula!”
Celeste Vidal publicou, em 1994, pela Editora Bagaço, dois livros: Metade Sol, Metade Sombra e Literatura de Cordel. Suas poesias têm a característica da cultura popular e da crítica social, como se vê no Galope à beira mar:
Só quero viver se for bem feliz,
Só quero um amor se for verdadeiro,
Só quero meu povo sem um cativeiro,
Só quero o Sertão, meu bem de raiz.
Só quero o canto se for do concriz
Pra esse meu sonho poder embalar,
Só quero a luz se for do luar,
Só quero dizer que a vida é chama
Que só vive acesa naquele que ama
Nos dez de galope na beira do mar.Nos dez de galope reviro o Sertão
De baixo pra cima, de cima pra baixo,
Sem lida, sem vida, sem água o riacho,
Nas filas da morte se faz procissão,
Menina, mulher de lata na mão,
Cavando esperança, sem ela chegar...
Me solto, revolto, me ponho a gritar:
Nordeste! Sacode teu povo valente,
Acorda gritando: sou independente!
E quebra as comportas das águas do mar.








































































































































































































































































0 Comentários