Leitor voraz, pensador livre

13 out 2026 | 0 comentários

Henrique Macedo, Paulo Marcondes e JMB Foto Acervo pessoal.

Por Paulo Marcondes Ferreira 

O ano de 1972 é o de minha chegada ao Recife, para onde vim morar com a família. Eu estava então com 16 anos. No ano seguinte, passei a mapear um pouco da vida cultural da cidade, mais especificamente, os bairros da Boa Vista e Santo Antônio, no Centro.

Eu era um jovem particularmente tímido e, talvez por isso, tive a sorte de vir morar justo na Boa Vista, bairro que aos meus olhos traduzia uma aura boêmia, intelectual e culturalmente marcante para mim. Algo que a um só tempo me encantava e se mostrava um desafio, visto que eu me sentia tão perto e tão distante daquele cenário.

Em todo caso, passei a frequentar esses espaços de acontecimentos culturais diversos: performances artísticas, lançamentos de livros, palestras, mostras de cinema Super-8, teatro, shows musicais, sessões de cinema de arte, livrarias e bares.

Uma figura em particular, dentre outras, que me saltava aos olhos era Jomard Muniz de Britto. Passei a segui-lo nos espaços públicos, movido pela vontade sempre adiada de poder abordá-lo. Creio que foi no ano de 1976 que ouvi dele, em um debate, dizer que a minha geração era excessivamente tímida. Daquele momento em diante, resolvi que iria quebrar o distanciamento em que eu me colocava, como que para me preservar do que eu nem tinha noção.

Minha primeira conversa com Jomard se deu no ano de 1978, na livraria de sebo ReleR, de Pedro Américo, na rua José de Alencar, na Boa Vista. Acho que pedi informações sobre seus livros-envelopes: "Escrevivendo" e "Nos Abismos da Pernambucália". Ele me prometeu os referidos exemplares e marcamos de nos encontrar. Junto com os livros-envelopes, Jomard também me presenteou com os livros: "Contradições do Homem Brasileiro" e "Do Modernismo à Bossa Nova" - este com prefácio de Glauber Rocha.

Recebi essas publicações dias depois, em mãos, numa pasta com aba de elástico, no Festival de Inverno da Universidade Católica de Pernambuco. No ano de 1979, fiz o Curso Cinema e Cultura, que ele ministrou na segunda edição do mesmo festival. Posso afirmar que foi desse momento em diante que surgiu entre nós uma amizade que ora se encerra, mas que durou décadas.

A figura de Jomard sempre me foi a de um professor e um intelectual de pedagogia crítico-construtiva e anárquica, no sentido de provocar e de dar a deixa para que seu interlocutor possa se manifestar e se posicionar, como gesto coletivo de construção de saberes e poéticas.

Por certo que sua práxis pedagógica se faz em diálogo tanto com experiências que o remetem à herança dos círculos de cultura, como membro que foi da equipe de Paulo Freire, quanto a pedagogias que punham no cerne do processo as questões de gênero e do corpo, oriundas dos movimentos feministas, homoafetivos, sobretudo, em torno de questões ligadas à sexualidade, que nele sempre se expressou a partir de uma eroticidade poética manifesta, mas também de uma poética enredada em questões socioculturais e étnico-raciais, do anarquismo, do existencialismo, da contracultura.

Com Jomard mantive um diálogo estreito, ele frequentou a casa dos meus pais e eu a dele, desde quando morou com seus pais. Ele conheceu meus filhos e meus irmãos. Tive sua estreita colaboração no período em que dirigi o Departamento de Cultura da Secretaria de Educação, no período da gestão da professora Silke Weber, no governo de Arraes (1987-1990).

Fiz o prefácio de seu livro Encontros, da Azougue Editora e ele fez a apresentação de meu livro de poesia Entre[Ditos].

Quando de seu aniversário este ano, ao completar 89, fiz o poema JMB, em que tento desenhar o modo que o vejo. Diz o poema:

JMB
Um transitar à margem
pelos abismos do escreviver.
Artífice em transe
que se perfaz
do educador acadêmico
à virada pop
artístico-filosófica.
Uma poeticidade ressignificadora,
iconoclasta,
ante uma cultura de patrimonialismos,
de melancólica nobiliarquia canhestra.
No espaço imaginário da pernambucália,
segue esse interlocutor randômico,
de múltiplas linguagens
em dispersão.
Jomard
muniu-se
por variados artefatos.
Livros em brochura,
envelopes da escrita como esgrima,
folhetos in progress.
Roteiros, poemações,
musicalizações performáticas.
Os super-8 ou 16mm,

o vídeo.
Tudo isso como grafites
inscritos nos muros da cidade,
nos corpos dos desejos mais febris,
sem o lugar certo onde se pôr.
Leitor voraz,
pensador livre,
dos que aprendem quando ensinam.
Preceptor de gerações,
queira ou não,
e ainda que para nada salvar,
nem a si mesmo.

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