Dez vezes Jomard, o provocador 

13 out 2026 | 0 comentários

Foto Acervo Pessoal

Por Cristiano Santiago Ramos 

Convivi com Jomard Muniz de Britto durante anos. Dele, só recebi palavras gentis uma vez. Foi quando nos conhecemos, no CAC (Centro de Artes e Comunicação da UFPE). Era uma palestra organizada pelo ator Sandro Guerra, e fiquei responsável por filmar o evento.  “Quem é o simpático mancebo atrás da câmera? Ele me lembra muito o Glauber”, comentou Jomard. Com isso, é claro que meus amigos passaram boa parte do curso de Jornalismo me azucrinando, chamando-me de “O simpático mancebo”. 

Aperreio mesmo, porém, começou anos depois, quando passamos a conviver de verdade. Nos dias bons, era uma indireta por minuto. Nos ruins, ele já telefonava para me avisar: “Não vou hoje, diga a todos aí que adoeci! Mas a verdade é que estou sem paciência para aguentar você por uma hora”. 

Eu dirigia e apresentava o Opinião Pernambuco, programa da TV Universitária, e Jomard era um dos comentaristas fixos da “Sexta Cultural” (junto com Rubem Rocha Filho, Nelly Carvalho, Fernando Monteiro, Raimundo Carrero, Anco Márcio Tenório Vieira e Luís Reis, entre outros).  Após a primeira semana, eu desabafei com a atriz Leda Alves: “Não sei por qual razão Jomard aceitou o convite. Parece que ele me odeia! Não para de me provocar”. E Leda – sempre paciente e certeira – vaticinou: “Um dia você perceberá que cada provocação dessa foi uma aula e a melhor prova de carinho que você já teve”.

Hoje, aqui na Revista Araçá, divido com vocês algumas dessas provas, entre outras recordações. E saibam que chorei de soluçar enquanto as escrevia. 

1

Ainda nos meus tempos de CAC (ao participar de uma banca examinadora, creio), Jomard me reconheceu e veio na minha direção. Eu estava sentado com outros alunos de Comunicação e de Artes Cênicas. Ele se apresentou, distribuiu cópias de um poema e perguntou:

— O que vocês fazem aqui?
— A gente estuda.
— Eu perguntei o que vocês fazem aqui.
— Alguns fazem Jornalismo; outros, Teatro.
— Meus jovens, o que vocês fazem aqui?
— Como assim?
— Pelo jeito, ninguém sabe. Guardem o conselho deste mau velhinho: é preciso saber o que fazem aqui, mesmo que seja nada.

2

Em 2002, Jomard abriu as portas do seu apartamento para mim e Diogo Monteiro. Fomos entrevistá-lo para o nosso projeto de conclusão de curso. Era um documentário sobre a inesquecível Livro 7. Quando chegou o momento de falar sobre o fechamento da livraria, que deu lugar a um templo religioso, ele abriu os braços e explicou didaticamente:

— Antes, havia poucos leitores de muitos livros. Agora, é um lugar de muitos leitores de um livro só! 

3

Já nos tempos da TVU, nos corredores da emissora, ele encontrou um cientista político de direita, que era bastante chamado para os programas jornalísticos da casa. “Parabéns, o senhor é sempre muito sensato”, disse Jomard, enquanto se cumprimentavam. Quando já estávamos longe o bastante, ele sussurrou: 

— Aprendeu sua lição de hoje, meu jovem? Há muitas maneiras de ofender um tolo e ainda receber um obrigado por isso.  

4

— Tá pensando que é fácil ir ao programa e ficar comentando um monte de assunto chato e careta?  — perguntou-me, enquanto caminhávamos para ver uma peça no Teatro Hermilo Borba Filho. Questionei por qual razão, então, ele não saía logo do programa. E Jomard sorriu, porque antecipara a minha fala e certamente já tinha a resposta na agulha: “Quando você for menos chato e careta, aí eu lhe conto.”

5

Fomos juntos também ao lançamento do romance de um amigo em comum – que, ao final do evento (longo e pra lá de monótono), ouviu que “Até os antigos comícios do PFL eram mais animados”. 

— Jomard, na maioria das vezes a gente prefere uma boa mentira.

— Você tá certo. Perdoe este velhinho sem noção! E saiba que aproveitei que o evento foi demorado para já ler as primeiras páginas do seu livro. Achei muito bom.

Depois que o escritor agradeceu e saímos da fila com os nossos exemplares autografados, Jomard disse baixinho: “Não é que ele prefere mesmo uma mentira!?”

6

Depois de receber telefonema (de alguém que o alertou sobre os riscos de utilizar o programa Opinião Pernambuco para ironizar o legado de um famoso sociólogo local), Jomard me ligou preocupado. Foi a primeira vez que o notei realmente tenso. 

— O Recife tem meia dúzia de mortos que dão muito trabalho. Com eles vivos, a gente era feliz e não sabia.

7

A nossa maior briga foi quando inverti os papéis e fiz uma provocação. Durante a Sexta Cultural, ele tinha chamado Chico Buarque de “O último dos românticos”. Eu comentei que, para um romântico, Chico vendia ingressos bem salgados. Jomard ficou vermelho de raiva, disse um sem-número de palavras pouco elegantes e quase abandonou o programa. Depois, no meio da madrugada, ele resolveu telefonar e me acordar:

— Falei com Anco Márcio. Ele tentou me convencer de que eu estava errado em ficar tão alterado só por causa de uma provocação besta.
— Tá tudo resolvido, então?
— Tá sim. Descobri que ele consegue falar tanta besteira quanto você.

8

Em 2011, foi nosso reencontro. Eu deixara a TV Universitária dois anos antes, mas Wellington de Melo nos convidou para fazer parte do Laboratório (projeto experimental de crítica, para o qual ele já tinha chamado Bruno Piffardini e Cristhiano Aguiar).  E, claro, lá também rolaram incontáveis provocações. Tanto que meu telefone voltou a tocar de madrugada:

— Resolvi ligar para falarmos mal de Wellington.
— Aposto que, antes, você falou mal de mim para ele.
— Com certeza. Mas fique tranquilo: com ele eu vou ser menos cruel do que fui com você.

9

Acho que foi numa tarde de reunião do Laboratório que Jomard perguntou se eu tinha visto os filmes Nosso Lar e Chico Xavier. 

— Vi um deles. A minha alma quase saiu do corpo e do cinema.

— Ligarei pra Anco Márcio. Vou contar essa maldade, e ele dirá que você conviveu tempo demais comigo.

10

No domingo, véspera do seu encantamento, parecia que eu estava adivinhando. Falei muito dele, durante encontro de amigos no Bar Real. Contei da derradeira vez que encontrei Jomard (e ele não me reconheceu). 

— Eu já vi você em algum lugar. 
— Meu nome é Cristiano. Trabalhamos juntos por anos. A gente se falava duas ou três vezes por semana, Jomard.
— Fizemos alguma coisa errada?  — ele me perguntou, com os olhos arregalados e um sorriso malicioso, cheio de ternura.

Fizemos, Jomard! Coisas muito erradas. E foi tudo massa!

Chero.


Cristiano Santiago Ramos é escritor, crítico literário, professor e jornalista. Autor do romance Mil novecentos setenta cinco.

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