Nesta entrevista para a Revista Araçá, o ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco Eduardo César Maia afirma que a política está em toda grande literatura. O problema não é o tema, é o "como". E o "como", diz ele, é o que a sala de aula e a crítica andam esquecendo.
Revista Araçá ー Quando os seus alunos precisam citar uma referência intelectual para entender o país, quem aparece? Algum escritor pernambucano vivo é citado?
Eduardo César Maia ー Tenho duas disciplinas que trabalham o pensamento brasileiro: História do Pensamento Brasileiro e Cultura Brasileira, para alunos não de Letras, mas de Comunicação. Utilizo muito a literatura brasileira como fonte do pensamento brasileiro, e não simplesmente o que normalmente se faz, que é trabalhar a sociologia, a história e, às vezes, a economia do Brasil.
Mas devo admitir que, apesar de dar muita atenção ao contemporâneo, não uso nessas duas cadeiras nenhum escritor pernambucano vivo. Vivo, não. Tenho que ser honesto. Enfim, a pergunta me fez pensar, porque realmente não consigo lembrar de citar nessas aulas a opinião de algum escritor. No âmbito mais nacional, diria que sim, já citei e cito alguns, mas pernambucanos vivos eu não citei.
Em Pernambuco, o escritor como referência pública existiu de fato ou é memória da idade de ouro? Em que época e para quem?
Acredito que sim, tanto em Pernambuco quanto em todo o Brasil, houve uma época em que o escritor ou o crítico atuava como um árbitro do debate público. Atualmente, com a ascensão das mídias sociais, o cenário ficou muito mais misturado, o que traz ganhos e perdas. Os ganhos se dão no sentido de uma maior participação, pois qualquer pessoa pode opinar e participar de um debate qualquer. No entanto, fica cada vez mais difícil selecionar o que é uma opinião relevante e intelectualmente embasada do que é simplesmente guerra cultural, como vivenciamos atualmente. Existiram grandes intelectuais pernambucanos que foram direcionadores da cultura. Álvaro Lins foi chamado de imperador da crítica por causa de Drummond de Andrade. Pode-se citar também Gilberto Freyre, que teve uma influência esmagadora em sua época, além de um Ariano ou de um Osman Lins, que escrevia para jornais e também exercia a sua influência. A figura desse intelectual mais específico já teve um grande poder de movimentação cultural. Esse poder continua existindo, mas de forma muito mais diluída devido ao formato de funcionamento das redes.
O lugar de voz intelectual que o escritor ocupava passou para o acadêmico, o jornalista, o influenciador, ou ficou vazio?
O jornalismo tradicional, no qual iniciei minha carreira, deixou de existir em seus moldes originais, dando espaço a novas formas de exercício da opinião pública. O espaço de formação da opinião e da retórica pública nunca fica vazio; sempre há quem o ocupe. Há uma valorização desproporcional da opinião rápida e superficial dos influenciadores digitais, que frequentemente exercem mais impacto do que acadêmicos de formação rigorosa e erudita.
No campo da literatura, é comum ver críticos de excelente formação acadêmica presentes nas redes sociais recebendo pouca atenção, enquanto jovens sem qualificação específica atraem grandes audiências por meio de linguagem acessível ou posturas polêmicas. Em um projeto de pesquisa recente sobre estratégias retóricas da crítica literária contemporânea nos meios digitais, constatamos que não existe relação direta entre qualidade e número de seguidores. Críticos de excelência costumam dialogar com nichos restritos, enquanto perfis que funcionam como meros publicitários literários — muitas vezes patrocinados por editoras — mobilizam multidões.
O grande público raramente busca um aprofundamento crítico severo; a motivação principal costuma ser a reafirmação de seus próprios pontos de vista ou o pertencimento identitário a uma discussão.
Você acha que o curso de Letras forma leitores para o debate público ou para a própria academia? Essa ponte existe?
Antigamente, o intelectual letrado podia vir de qualquer área e participava do debate público de maneira muito complexa. Falava sobre tudo: religião, política, economia; era, nesse sentido, um intelectual humanista. Acredito que a universidade caminhou e ainda tem caminhado para uma espécie de setorização do conhecimento, de especialização, o que dificulta um pouco a formação do intelectual público. Na verdade, a chave estará na vocação pessoal de cada um.
Considero o curso de Letras um dos melhores nas humanidades até hoje. É muito melhor, por exemplo, do que o curso de Jornalismo que eu fiz. Mas, para dar esse salto para o debate público que você pergunta, a academia teria que incentivar também outro tipo de diálogo voltado para fora dessa setorização.
O meio acadêmico daqui tolera quem pensa diferente da maioria, entre estudantes, escritores e colegas?
Dentro do nosso tempo de emergência das guerras culturais e da atual polarização política, sou um pouco pessimista sobre se o meio acadêmico tolera quem pensa diferente. Acredito que não tolera. Existe um certo nível de tolerância entre quem pensa de forma apenas um pouco diferente, mas certas coisas parecem inaceitáveis. Não diria somente em relação a quem pensa, mas quem problematiza artisticamente qualquer coisa é visto sob suspeita. Tenho escrito sobre isso utilizando um conceito que venho desenvolvendo chamado de hiper-humanização da arte. O tema é abordado em um artigo que publiquei no jornal O Estado de S. Paulo.
O que vejo hoje é uma hipertrofia dos afetos. O que as pessoas parecem buscar, e o que a crítica parece validar nas obras de arte, é um compromisso direto com o que já é sabido e pensado, com os afetos e com uma espécie de retribuição às vítimas da história. Isso ocorre de forma muito clara, em detrimento da pesquisa formal e da avaliação da própria expressão artística. Evidentemente, como se trata de uma generalização, isso deve ser avaliado caso a caso.
Você se lembra de algum caso específico?
São muitos casos. Um de que me lembro de forma muito marcante ocorreu em uma disciplina. Houve uma grande procura por essa disciplina e os alunos se matricularam. Depois disso, porém, a coordenação me chamou informando que um grupo de alunos a havia procurado para problematizar o fato de que, na bibliografia da disciplina, constava “um demônio, uma pessoa do mal”, chamada Gilberto Freyre.
Eles não foram reclamar diretamente comigo, mas solicitaram à coordenação que conversasse comigo sobre a possibilidade de retirar Gilberto Freyre da bibliografia. É claro que eu não aceitei. Respondi que preferia cancelar a disciplina a retirar o autor, pois não faz o menor sentido, dentro de uma cadeira de Cultura ou Pensamento Brasileiro, não trabalhar a perspectiva de Freyre.
Esse é apenas um exemplo de como a academia pode agir a partir de supostas boas intenções, na tentativa de impor um discurso moralmente acima de tudo, do bem e do mal. O que para eles pode parecer uma boa intenção, acabam não percebendo que, na verdade, é uma intolerância.
Um outro caso que lembro como muito interessante, também envolvendo alunos, foi o uso da obra de Nabokov na disciplina. Uma aluna problematizou o fato de ele ser o autor de Lolita e estar no programa, considerando isso inaceitável. Até Machado de Assis já chegou a ser problematizado em minhas salas. A questão não era um texto específico com uma opinião particular, mas o simples fato de usar o autor. O engraçado é perceber que as pessoas criticam sem ter lido a obra, como ocorre claramente com Gilberto Freyre.
O escritor que se posiciona politicamente ganha ou perde como escritor, aos olhos da crítica e da sala de aula?
Do ponto de vista literário ele não ganha nem perde. O posicionamento político fora da literatura não transforma a obra em algo melhor ou pior. No mundo real, no entanto, um posicionamento político pode atrapalhar ou beneficiar um autor, visto que muitos escrevem para a sua própria bolha. O que prejudica a literatura é quando o escritor utiliza essa percepção política pública para obter simpatia, deixando rastros ideológicos em sua obra para receber o beneplácito de um grupo — um ponto sobre o qual Guimarães Rosa falava muito.
O grande desafio não é evitar o tema, pois a política está presente na vida de todos e é um grande tópico da existência humana. É impossível fazer literatura sem política, assim como é impossível uma literatura que não fale de amor ou de outros grandes temas.
A verdadeira dificuldade é encarnar essas ideias e visões de mundo na obra de maneira artística, evitando que se tornem meros esquemas de visões pré-configuradas. Poucos autores conseguem atingir esse feito. A maioria cai em um esquematismo político, tentando explicitar ideologias na narrativa, na criação poética ou na construção de um personagem. Um grande escritor ou escritora pode tratar de quaisquer temas políticos sem nenhum problema; a questão central é o “como” essa abordagem é feita.
O que a literatura consegue dizer que um artigo de opinião ou um post não consegue?
São registros diferentes, que obedecem a retóricas e a propósitos distintos. Um post, um artigo de opinião ou uma argumentação no debate público tenta mover as pessoas em direção a uma visão muito clara das coisas: o que se quer, o que se combate, o que se acha certo e o que se acha errado. A literatura, ou a expressão artística em geral, vai além disso, porque o objetivo literário não se encerra em passar uma mensagem que diga A, B ou C. A expressão artística lida com as ambiguidades, com as possibilidades simbólicas, com a difusão dos significados e, fundamentalmente, também com a forma — ou seja, como forma e fundo se relacionam em uma determinada expressão.
A última coisa que discuti nesse sentido foi um artigo que escrevi na Folha de S. Paulo sobre a questão da forma, após a polêmica envolvendo o depoimento de Aurora Bernardini. A professora, crítica e tradutora do russo que vive no Brasil queixou-se de que a literatura brasileira contemporânea esqueceu a forma e se dedica quase que exclusivamente ao tema. Ela foi muito atacada e eu tentei fazer um artigo de ponderação, porque acredito que o interessante em literatura não é essa disjunção que, na verdade, não cabe: ou forma, ou fundo, ou conteúdo.
O discurso da filosofia, da sociologia e da opinião pública é monológico. Ele se dirige a uma lógica única que precisa ser apreendida, ou que se pretende que seja entendida em um sentido único e determinado. O discurso da arte, não. É um sentido que se espalha, que varia muito de pessoa para pessoa, e aí está a riqueza das grandes obras.
Para exemplificar isso, eu poderia perguntar: qual é o sentido do Romance d’A Pedra do Reino? Essa pergunta não faz o menor sentido, porque o Romance d’A Pedra do Reino é um manancial de sentidos. O mesmo vale para uma obra de Clarice Lispector, Hilda Hilst ou qualquer grande escritor e poeta: o sentido se dilata. É isso que faz a arte ser algo especial, que não se reduz somente ao utilitário ou ao meramente informativo. 6 Ela transcende isso, apesar de que, como qualquer discurso, também tem suas mensagens.


















































































































































































































































































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