Por Paulo Cunha
Pérola rara, raríssima: o genial Jomard Muniz de Britto — pop-filósofo, professor insuperável, nosso melhor superoitista — está de volta e apresenta, em articulação com o projeto Cinelimite, uma nova cópia em 2K de "A Lua Luta por Lula", realizado em 1981. Nos próximos dias, essa jóia de pouco mais de 8 minutos está disponível no site Cinelimite.com, quarenta e cinco anos depois sua realização. Naquela ocasião, Luiz Inácio Lula da Silva ainda era um sindicalista que acabara de liderar as greves dos metalúrgicos no ABC paulista. Ainda não havia se candidatado a cargos eletivos, mas o famigerado JMB sentiu a potência que eclodia e que iria mudar, para sempre, a política do Brasil.
A ocasião é perfeita para ver (ou rever, quem assistiu na época) o curta experimental, dirigido por Jomard e (Eduardo) Lima. Domingo, dia 4 de outubro, votaremos todos para afastar o fantasma do fascismo tupiniquim — ou, como escreveu Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere, “nosso pequenino fascismo tupinambá”. Eu, de minha parte, revi o filme de Jomard Muniz de Britto e só reforcei a decisão de votar para expelir, como disse certa vez Geneton Moraes Neto, “o cafute, o cambito, o capeta, o coisa-ruim, o diacho, o esconjurado, o mequetrefe, o mofento, o tinhoso. Em uma palavra: o demônio”.
"A Lua Luta por Lula" (que belo título, me recorda Contos da Lua Vaga, que Mizoguchi lançou em 1953) é uma montagem de fotografias de Lula, de autoria de Gleide Selma, Josinaldo Malaquias, Júlio Jacobina, Marko, Maurício Coutinho e Regi Galvão, com imagens em movimento da lua bailando no céu do Recife, faróis de automóveis que se deslocam à noite e corpos de jovens nus — são citações de outros filmes de JMB, como "Toques" e "Experiência Didática: O Corpo Humano". Uma canção, cuja letra foi escrita pelo próprio Jomard Muniz de Britto e musicada por Ricardo Silva, organiza o filme. Os versos cantam:
"A lua não é menos materialista do que a luta. […] A luta de classes não é mais dialética do que a luta dos corpos […]. A lua luta no céu, no céu, no céu: no céu da boca".
Em 1981, o Brasil estava saindo da ditadura militar-empresarial que pretendeu — sem conseguir — arrasar com a nossa juventude. Por isso, no curta surge o letreiro “O povo quer votar”. E ainda que a dita “abertura” estivesse nos radares, "A Lua Luta por Lula" foi vetado pela censura renitente da ditadura durante a II Mostra de Cinema Independente em João Pessoa, em novembro de 1981. Mais do que isso, como mostrou o historiador Arthur Lira, da UFPE, a trajetória do filme foi monitorada por órgãos de segurança, nomeadamente o velho SNI — Serviço Nacional de Informações.

Os agentes eram brutos e broncos, mas tinham motivos de sobra para vigiar Jomard Muniz de Brito. Desde 1964 eles estavam de olho no professor que, denunciado pela catedrática que era considerada a maior heideggeriana do Brasil e que fazia discursos nas passeatas “pela família, por Deus e pela Pátria”, acabou demitido da UFPE e preso. Odiavam JMB também porque ele havia sido um dos principais assessores de Paulo Freire, na construção do método de alfabetização de adultos.
E atenção! — como exclamava o antigo Repórter Esso: há aqui uma chave curiosa para entender o modo estético de como funciona a colagem/montagem de "A Lua Luta por Lula". Vejam bem: quando Jomard Muniz de Brito ajudou a implementar o método Paulo Freire, uma das principais inovações foi a de associar imagens ao processo de alfabetização. As imagens usadas nos anos 1960 eram desenhos coloridos feitos por Francisco Brennand. Havia as palavras geradoras (tijolo, voto, povo) e os desenhos de Brennand, apresentados através de projetores de slide. Dois modos de representação do mundo que aceleravam não apenas o aprendizado da leitura, mas a consciência dos educandos.
Tudo isso fazia com que em poucos dias aqueles adultos antes analfabetos aprendessem a ler e a conquistar níveis de cidadania insuspeitados. Tem mais: havia entre os formuladores do método Paulo Freire — incluindo Jomard, é claro — a concepção efetivamente revolucionária de que aquelas pessoas, embora não soubessem ainda ler e escrever, eram portadoras de um saber imenso. A primeira aula que Jomard Muniz de Britto dava aos formadores do método Paulo Freire, que depois iriam aos bairros periféricos e ao interior para alfabetizar, era a diferença entre cultura e natureza, a partir da ideia de transformação. Se um agricultor, mesmo analfabeto, cava com sua enxada o chão para depois colher, ele está produzindo cultura, está transformando o mundo. Poucas ideias são mais intensas do que essa.
Por isso, "A Lua Luta por Lula" é, dezessete anos depois do golpe e da prisão de JMB, um exercício do método Paulo Freire. No curta, as palavras geradoras são outras: Lua, Lula, Corpos, Mijo. As imagens não são mais as de Francisco Brennand, mas as dos fotógrafos e as de Lima. Entretanto, trata-se de um processo de alfabetização, de aprendizagem, de transformação do mundo. Mas, reparem: o filme não é um retorno ao passado, e sim um salto adiante: Jomard agora insere a chave dos corpos, da dialética dos anos 1970-1980 que é marcada pelo desejo. O Brasil havia mudado, afinal, e o curta deixa isso muito claro.
Neste ano da graça de 2026, tudo mudou ainda mais. No entanto, "A Lua Luta por Lula" mantém-se gigante, provocador, paulofreirianamente transformador. Aproveitem e entrem no portal do Cinelimite para votar com todo o sentimento do mundo.






































































































































































































































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