O texto do ilustrador Rodrigo Fischer encerra a série Primeiras páginas, conjunto de reportagens e artigos sobre literatura infantil publicados em edições anteriores da Revista Araçá.
Por Rodrigo Fischer
Há alguns sinais que passam despercebidos. Outros parecem acender uma luz sobre o tempo em que vivemos.
Recentemente, ao ler a seleção anual da revista Crescer dos melhores livros para crianças publicados no Brasil, me deparei com um dado que me deixou suspenso por alguns instantes: dos 30 livros escolhidos, 27 foram criados por artistas brasileiros.
Vinte e sete.
Pode parecer apenas uma estatística. Não é.
Para mim, esse número conta uma história. Talvez a história de uma literatura que, durante muito tempo, precisou disputar espaço com traduções, personagens estrangeiros e mercados editoriais mais robustos. Talvez a história de autores e ilustradores que insistiram em criar livros com sotaque brasileiro, cores brasileiras, infâncias brasileiras. Ou talvez seja simplesmente a confirmação de algo que muitos de nós já vínhamos percebendo: chegou a hora e a vez da literatura brasileira para crianças.
Não falo de uma explosão repentina. Nenhuma floresta nasce da noite para o dia. O que vemos agora é o florescimento de sementes plantadas há décadas por escritores como Ziraldo, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Eva Furnari, Marina Colasanti, Ricardo Azevedo e tantos outros que compreenderam que a literatura para crianças não é um gênero menor, mas uma das formas mais sofisticadas de dialogar com a condição humana.

Nos últimos 20 anos, Rosinha, Nelson Cruz, Odilon Moraes, André Neves, Marilda Castanha, Graça Lima, Renato Moriconi e Roger Mello, entre outros artistas, ampliaram ainda mais os horizontes desse campo, transformando o livro para crianças em território de invenção estética, experimentação visual e excelência artística. Entre a palavra e a imagem, ajudaram a construir o terreno fértil sobre o qual a nova geração hoje floresce. Foram eles que prepararam o solo. Nós chegamos à estação da florada.
Eu sou daqueles que acreditam que toda literatura começa com uma pergunta. A literatura para crianças também. A diferença é que as crianças ainda não desaprenderam a perguntar.
Talvez por isso estejamos vivendo um momento especial. Vejo surgir uma geração de autores e ilustradores que não escreve para ensinar respostas, mas para multiplicar perguntas. Victor Rocha, Bruna Lubambo, Denise Gonçalves, Henrique Coser Moreira, Anabella López – a argentina mais brasileira que conheço – e tantos outros vêm construindo obras que recusam fórmulas prontas e apostam na inteligência sensível dos leitores. Tenho a alegria de caminhar ao lado dessa geração, compartilhando o mesmo desejo de produzir livros que sejam, antes de tudo, literatura.
E não é apenas uma questão de autores. É também uma questão de projetos editoriais.
Em um mercado que tantas vezes privilegia a segurança do conhecido, chama atenção o surgimento de editoras dispostas a correr riscos estéticos. A Joaquina é um exemplo disso. Criada há pouco mais de um ano, já emplacou cinco títulos entre os escolhidos pela revista Crescer. O feito impressiona não apenas pelos números, mas pelo que simboliza: a aposta em livros autorais, inventivos e artisticamente exigentes encontrou leitores.
Há algo de muito bonito nisso.
Durante muito tempo ouvimos que o Brasil não era um país de leitores. Talvez a frase estivesse incompleta. Quiçá o Brasil estivesse apenas esperando livros capazes de reconhecer sua própria voz.
Quando olho para a produção contemporânea, vejo uma literatura que conversa com as questões do presente sem abrir mão da imaginação. Vejo livros que falam de identidade, memória, afeto, diversidade, pertencimento, mas também de árvores, passarinhos, monstros, nuvens, mistérios e países invadidos por ratos, gatos, cães, leões e elefantes – perdoem aqui a autorreferência. Vejo ilustradores transformando páginas em territórios de descoberta. Vejo escritores compreendendo que a infância não é um estágio de menor complexidade, mas uma forma diferente – e muitas vezes mais profunda – de estar no mundo.
O escritor e ilustrador Ricardo Azevedo, há mais de 20 anos, escreveu que uma das maiores ameaças à literatura infantil é transformá-la em um instrumento utilitário, domesticado pelas exigências escolares. Sua advertência continua atual. A melhor literatura para crianças não nasce da vontade de ensinar. Nasce da vontade de criar. E é justamente por isso que ensina tanto.
É provável que seja essa a grande notícia escondida naquele número inicial. Dos 30 melhores livros do ano, 27 são brasileiros.



























































































































































































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