Por Marcelo Cavalcante
Diante da televisão, eu vi o italiano Paolo Rossi estufar as redes do goleiro Valdir Peres três vezes. Era uma tarde de segunda-feira, e todos lá em casa acreditavam que o Brasil venceria a Itália e chegaria às semifinais daquela Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Mas a história não se escreveu. A Canarinha foi superada pelos italianos por 3x2. E eu não conseguia entender por que todos ao meu redor choravam. O país chorava. Foi a primeira derrota doída da Seleção Brasileira que eu via e não conseguia alcançar que sentimento era aquele.
Impossível uma criança de oito anos entender que as melhores seleções do planeta estavam disputando, num único país, um título tão cobiçado. Que a atmosfera daquele ano era diferente só por conta da competição. Que escolas, lojas, empresas, repartições públicas não funcionariam para que famílias se reunissem em casa para torcer pelo Brasil. Que tudo era festa, celebração, fé, amor, amizade. Como não amar aquilo tudo? A derrota para os italianos foi, sim, um duro golpe do destino. Mas, como mágica, desencadeou um amor para a vida inteira.
Amor que, no entanto, já permeava as entranhas do país desde os tempos de Dom Pedro, com perdão do exagero. A seleção brasileira disputa a Copa do Mundo desde sua origem, em 1930. Não levou falta em nenhuma. E nesses anos, levantou cinco vezes a taça e revelou para o mundo craques do quilate de Pelé, Garrincha, Ademir da Guia, Vavá, Leônidas, Didi, Tostão, Rivelino, Gérson, Zico, Sócrates, Bebeto, Romário, Ronaldinhos... Vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, glórias e tragédias fizeram deles herois e vilões. E dos nossos corações, uma gangorra de sentimentos.
Mas assim como na vida, o futebol sofreu transformações através do tempo. Os uniformes, as bolas, os gramados, os estádios, os esquemas táticos, a linguagem, o olhar, as transmissões, o verbo, o grito, as lágrimas. Tudo não é mais como outrora. E os ídolos... Distantes. Em outros hemisférios. Conectados com os 200 milhões de torcedores/treinadores friamente através das redes sociais. Sinais dos tempos. E se tudo representa evolução, ótimo. Afinal, a humanidade vive nessa eterna busca. Mas para não dar trela ao establishment que tomou conta do futebol nacional, onde tudo é tão rápido e rasteiro, os amores antigos precisam de adaptações para não perder a essência.
Minha redoma é a história. Entender melhor as raízes dessa paixão. Reviver com os olhos de hoje o que vivi no passado e entender melhor os fatos. A arte nos proporciona essas viagens alucinantes. Encontros preciosos com detalhes que nos dão um novo sentido. Em ano de Copa do Mundo, as obras que resgatam esses fatos brotam do chão. E é sempre bom mergulhar nelas para constatar que futebol não é um simples esporte. É vida!
A década de 70 é, na verdade, um estágio bastante elevado dessa paixão. O Brasil já havia conquistado dois títulos mundiais e espantado a síndrome de vira-lata que ficou sobre nossas costas após perder o título em 1950, em pleno Maracanã. É preciso, então, retroceder e entender tudo isso. E dois livros funcionam muito bem como cápsula do tempo.
Em “Como o Futebol Explica o Brasil”, o jornalista Marcos Guterman é perspicaz ao descrever a chegada do futebol ao Brasil com o desenvolvimento social e econômico do país. O outro é praticamente uma bíblia: “O Negro no Futebol Brasileiro”. O jornalista pernambucano Mário Filho descreve detalhes sobre o processo de exclusão que o povo negro sofreu no esporte que já mostrava ser o mais popular do país.
Seria óbvio que, nessa busca, eu quisesse reviver o garoto de 8 anos diante do tal marcante confronto Brasil x Itália, de 1982. Então, debrucei-me no livro “Anatomia do Sarriá”. O jornalista italiano Piero Trellini mergulhou nos bastidores da seleção do seu país bem antes daquela partida e deu para entender por que a Azzurra mereceu superar os brasileiros, causar uma reviravolta na Copa e conquistar o título.
Ano de Copa do Mundo é assim. Nos dividimos entre dois mundos. Atentos aos passes, dribles e gols de hoje, e respirando ares de um passado para entender essa paixão. E em ambos a certeza já descrita pelo pernambucano Nelson Rodrigues em uma das suas apaixonadas crônicas: "No futebol, o pior cego é o que vê só a bola".





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