Duas lendas da MPB em shows especiais

9 jul 2026 | 0 comentários

Por Cleodon Coelho

Quando o assunto é música, a cidade do Recife está pronta para viver um fim de semana privilegiado. Na sexta-feira (10), a diva Alaíde Costa sobe ao palco do Teatro do Parque, dentro do Projeto Seis e Meia, para festejar seus 90 anos. No domingo (12), será a vez do cantor e compositor Jorge Mautner celebrar seus 85 anos com um pocket show no Paço do Frevo, no Bairro do Recife, onde também lançará o livro "Poemas Selecionados", com 50 poesias escritas entre 2019 e 2021. Artistas fundamentais da música popular brasileira, cada um em seu estilo, Alaíde e Mautner não ficaram parados no tempo, vivendo das glórias passadas. Pelo contrário, souberam renovar seus públicos, mantendo um olhar sempre atento para o novo.

Nascido no Rio de Janeiro, o autor de "Maracatu Atômico" - que, entre suas diversas gravações, há a antológica versão de Chico Science & Nação Zumbi - começou como escritor, ainda na primeira metade dos anos 1960. E seu primeiro livro, "Deus da Chuva e da Morte", lhe rendeu o Prêmio Jabuti de autor revelação na categoria Literatura Adulta, em 1963. Em 1964, saiu "Kaos" e, dois anos depois, "Narciso em Tarde Cinza", formando a trilogia que ficou conhecida como "Mitologia do Kaos".

No domingo (12), Jorge Mautner lança livro e faz pocket show no Paço do Frevo Foto Aderi Costa / Divulgação

O primeiro disco veio em 1972, depois de sua passagem por Londres, onde dirigiu o longa-metragem "O Demiurgo", censurado pelo regime militar. No elenco, muitos amigos que estavam exilados por lá, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Gravado ao vivo, o LP "Para Iluminar a Cidade" trazia as músicas "Quero Ser Locomotiva" e "Rock da Barata". Já em 1974, no álbum que levava apenas seu nome como título, apareceram os primeiros clássicos, entre eles "Cinco Bombas Atômicas", "Samba dos Animais", "Salto no Escuro" e "Maracatu Atômico". Curiosamente, Jorge Mautner lançou pouco mais de dez discos nesses mais de 50 anos de carreira fonográfica.

Nessa nova vinda ao Recife, o artista dividirá a cena com a sua parceira musical Cecilia Beraba e ainda receberá os pernambucanos Louise França, Fred Zero Quatro, Juliano Holanda e Zeh Rocha. A apresentação está marcada para as 16h. Mas o encontro não será apenas musical. No mesmo dia, o jornalista, DJ e gestor cultural Renato L vai conduzir um papo com Mautner sobre arte, processo criativo e a conexão entre o Tropicalismo e o ecossistema musical da nossa cidade. Ele também fará a leitura de trechos de "Poemas Selecionados", obra descrita como uma meditação sobre temas que ocupam a sua mente: os fenômenos da natureza, o estado do mundo, a velhice e a vizinhança da morte.

Já no palco do Teatro do Parque, ao lado do pernambucano Ayrton Montarroyos, Alaíde Costa traz para o Projeto Seis e Meia alguns de seus clássicos: "Me Deixa em Paz" (Monsueto e Airton Amorim), "Coração Vagabundo" (Caetano Veloso), "Samba em Prelúdio" (Vinícius de Moraes e Baden Powell) e "Dindi" (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira). "Estou muito feliz em voltar ao Recife. É um show muito especial, que reúne canções que marcaram minha trajetória e também músicas dos meus trabalhos mais recentes. É um repertório que passeia por diferentes momentos da minha carreira e mostra que continuo vivendo um momento muito criativo. Cada apresentação tem uma emoção diferente porque cantar, para mim, é sempre um encontro com o público. Tenho certeza de que será uma noite de muita troca, muito afeto e muita música", avisa ela.

Um dos grandes nomes da bossa nova, a diva Alaíde Costa canta no Teatro do Parque. Foto Divulgação

A diva volta ao estado um ano depois de sua participação no show em homenagem ao Clube da Esquina, feito por Amaro Freitas e Zé Manoel, em que foi recebida de pé pela plateia no Teatro Guararapes. Nesta conversa com a Revista Araçá, a cantora carioca reflete sobre o tempo e fala da surpresa de ver tanta gente jovem interessada em seu trabalho. Confira:

Revista Araçá – Qual o segredo para atravessar tantas décadas e modismos na música brasileira?

Alaíde Costa – Eu nunca pensei em acompanhar modismos. O meu compromisso sempre foi com a música de qualidade e com a emoção que ela carrega. Acho que o segredo foi permanecer fiel ao que eu acredito, cantar aquilo que me toca profundamente e respeitar o público. A música brasileira é muito rica e eu tive a felicidade de conviver com compositores extraordinários. Chegar aos 90 anos ainda cantando, gravando discos e subindo aos palcos é um privilégio enorme. Enquanto eu tiver voz e emoção para transmitir, vou continuar cantando.

Você sempre esteve atenta aos novos nomes que surgem. Já gravou músicas de Marisa Monte e do pernambucano Junio Barreto, trabalhou com Emicida... Como você vê esses talentos que chegaram depois?

Sempre gostei de ouvir o que está acontecendo. A música não pode parar no tempo. Fico muito feliz quando encontro artistas que respeitam a tradição, mas que também trazem uma linguagem própria. Foi muito bonito gravar "Moço", uma canção da Marisa Monte, cantar "Ata-me", do Junio Barreto, trabalhar com o Emicida, que tem uma sensibilidade artística e humana muito grande. Também gosto muito do trabalho de artistas como Ilessi, Luedji Luna, Vitor Araújo, Amaro Freitas, Zé Manoel… Vejo uma geração muito talentosa, que conhece a história da nossa música e, ao mesmo tempo, aponta novos caminhos.

A renovação de seu público foi uma surpresa para você?

Foi uma surpresa muito bonita. Eu jamais imaginei que, aos 80 e tantos anos, passaria a cantar para tantos jovens. Hoje vejo pessoas de todas as idades nos meus shows e isso me emociona muito. Acho que a música verdadeira atravessa gerações. Esses encontros, as gravações recentes e o carinho de tantos artistas mais jovens ajudaram a apresentar meu trabalho para um público que talvez ainda não me conhecesse. Recebo esse carinho com muita gratidão.

Que lembranças você tem do Recife ao longo de sua carreira?

Tenho lembranças muito bonitas do Recife. Sempre fui recebida com muito carinho pelo público pernambucano, que é extremamente atento e apaixonado por música. Pernambuco tem uma riqueza cultural impressionante e revelou artistas fundamentais para a música brasileira. Sempre que volto à cidade sinto esse respeito pela arte e essa energia tão especial. É uma alegria enorme reencontrar esse público, que sempre me acolheu de braços abertos.

Serviço

Alaíde Costa e Ayrton Montarroyos

  • Com show de abertura do Conjunto Maravilha
  • Teatro do Parque - Rua do Hospício, 81, Boa Vista
  • Sexta, 10 de julho
  • R$ 75 e R$150

Serviço

Jorge Mautner

  • Pocket show + Lançamento do livro Poemas Selecionados
  • Paço do Frevo - Praça do Arsenal da Marinha, 91, Bairro do Recife
  • Domingo, 12 de julho
  • R$ 40 e R$ 100

Cleodon Coelho é jornalista, pesquisador e biógrafo.

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