Por Gael Vila Nova
É uma mistura de sensações falar sobre como surgiu a canção “Estou Indo”, coautoria minha e de Miró da Muribeca recém-lançada nos streamings. Isso porque estou muito feliz com o surgimento dessa canção, com a sua existência, e muito honrado em ter uma coautoria com Miró, mas a história do surgimento dessa canção também traz algo de tristeza e saudosismo porque ela foi composta no dia em que o poeta faleceu, 31 de julho de 2022.
Eu lembro que acordei nesse dia e antes mesmo de sair da cama abri o Instagram — péssimo costume, mas que resultou importante naquele momento — e me dei com inúmeras publicações em homenagem ao poeta que havia falecido mais cedo naquela manhã. Foi em meio a essas publicações que li uma da Revista Continente, que trazia um dos poemas de Miró pertencente ao livro aDeus (2015). Fiquei bastante tocado com esse poema porque, lendo-o, parecia um texto de despedida de Miró.
estou indo
carrego música
e um silêncio imenso
dentro de mimestou indo
na mochila
alguns poemas para ofertar
aos corações sem amorpara os que não acreditam
que a vida é possível
que beijar
é melhor que comprar
um revólverestou indo
o dia amanheceu
e Deus não dorme
Então li uma vez, duas vezes, e em algum momento eu comecei a ler cantando a primeira estrofe: “Estou indo, carrego música e um silêncio imenso…”. Peguei o violão, que ficava na época pendurado na parede ao lado da minha cama, e fui procurando os acordes que se encaixavam com aquela melodia recém-criada. Em pouco tempo a canção estava pronta, e tenho que assumir: compor essa canção foi um pouco surpreendente pra mim.
É bastante incomum, no meu processo de composição, que eu crie uma melodia e harmonia para uma letra já pronta, sem mudar versos ou trocar palavras. Sobretudo quando se trata de coautorias, em que o meu caminho costumeiro é compartilhar uma ideia já com letra e música com o eventual parceiro(a) ou vice-versa. A única coisa que mexi na letra, em prol de uma melhor adequação musical, foi a repetição do último verso do poema “o dia amanheceu e Deus não dorme” e a criação da última frase da canção, como uma proposta de homenagem e lembrança, “o dia amanheceu e Miró dorme”.
A homenagem também se fez no mesmo dia em uma apresentação que realizei na tarde daquele domingo e no dia 6 de agosto daquele ano, data do aniversário de Miró, momento em que participava de um festival de música autoral em Caruaru intitulado “Festival Canto da Patativa”.
Apesar de ter composto a canção em 2022 a ideia de gravá-la veio apenas em 2025, a partir do momento em que comecei a pensar no lançamento do meu próximo EP. Para esse novo trabalho, eu queria contar com a participação especial de um querido amigo e artista que admiro, Geraldo Maia. Geraldo foi um dos primeiros artistas reconhecidos e com uma longa trajetória que começou a me convidar para shows que realizava, e para quem estava em início de carreira naquele momento, essa consideração foi bastante significativa, e continua sendo. Então, quando pensei na participação de Geraldo, já me veio a canção “Estou Indo” porque a própria história dessa canção também tem a presença dele.
Em 2024, passei uns dias no sítio de Geraldo, em Taquaritinga do Norte, e em meio às conversas e partilhas musicais, mostrei para ele a canção em coautoria com Miró. Não lembro a exata circunstância que me levou a mostrar a canção, mas sempre me pareceu que Geraldo e Miró tinham uma conexão geracional, além de Geraldo também ser muito ligado à poesia. Após apresentar “Estou Indo”, Geraldo me convidou para apresentar essa canção em seu show que faria no Festival Janeiro de Grandes Espetáculos daquele ano, no Teatro de Santa Isabel, e foi a primeira vez que apresentei a canção no Recife.
“O poema de Miró é muito lindo, desconcertante e muito bem traçado também. Miró foi um poeta singular, um outsider, cuja poesia desconcerta a gente com suas palavras. Elas mexem com o status quo das coisas, da sociedade. E esse poema ficou muito bem acoplado com a melodia que Gael criou. Uma melodia visceral, mas também muito sensível. Fiquei honrado em dividir os vocais com Gael nessa canção”, conta Geraldo Maia.
A canção também foi escolhida para integrar esse EP, pois uma das linhas que costuram as canções entre si é a minha relação com a cultura pernambucana. “Estou Indo” se insere nesse cenário como uma representante da minha relação com a poesia que é feita aqui no estado.
Outro parceiro importante nesse processo foi Wellington de Melo, que é o curador e legatário da obra de Miró. Peguei o contato dele por meio de David Biriguy, amigo poeta que conviveu com Miró e que segue difundindo sua obra através do recital “Quem descobriu o azul anil?”. Desde que mostrei e falei sobre a canção, Wellington também se mostrou bem aberto à ideia, colaborando para que a liberação da utilização da obra fosse feita de forma correta e dentro das possibilidades de produção. Assim, logo depois de acertar a liberação do uso do poema de Miró, iniciei a produção do meu novo EP e da faixa Estou Indo.
Desde o início, pelo peso dramático da canção, eu imaginei um piano acompanhando essa música, e foi essa ideia que levei para o meu parceiro na produção musical nesse trabalho, o multi-instrumentista, produtor musical e professor de música Edson Silva. Inicialmente, pensei em só ter piano e voz, mas ao mesmo tempo que a canção tem uma carga dramática, ela também tem uma força, uma crescente, então logo no início mudei de ideia e pensei em ter também na instrumentação bateria, baixo e guitarra.
O groove da bateria foi criado junto com Edson e com Wagner Santos, que gravou todas as baterias desse EP. A linha de baixo foi criada por Bruno Felipe e a guitarra, apesar de ter sido gravada por mim, teve timbragem e arranjo pensados junto com Edson. Por mim tinha ficado assim, bateria, baixo, piano e guitarra, até porque o orçamento disponível para produção da canção já tinha chegado no limite. Mas Edson teve a linda ideia de adicionar um cello na canção, que ele mesmo arranjou e produziu, sem custos adicionais. O resultado deste trabalho está disponível nas plataformas digitais, provando que a obra de Miró segue viva e pulsante, chegando a novas pessoas e transmutando em outros formatos sem perder sua potência e essência tão singulares.


















































































































































































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