Fios, tramas e cores em uma casa sem dono

1 out 2026 | 0 comentários

Foto Leila Alberti

A Casa de Todos 

Por Cadu Cinelli

Leila Alberti anseia igualmente, com o projeto, incentivar a valorização do fazer coletivo e resgatar as artesanias femininas, na busca em desmistificar as questões de gênero, imposições sociais e preconceitos sexistas que a sociedade carrega. Justificativa rememorando Bachelard quando disse que “(...) a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” (1993, p. 220).

“A Casa de Todos” é um convite à ocupação de uma superfície física e imaginária que proporciona acesso ao lúdico e onde é possível conectar-se com sua própria casa mental, ouvir e aprender. A partir do diálogo, marcado pela troca de ideias e de gestuais do grupo participante, é que a obra vai sendo criada. A artista se coloca na contramão do fluxo alienado da metrópole, realizando um trabalho de produção em conjunto que aciona o fazer coletivo. É certo que a construção de um processo artístico/social exige paciência, então ao investirem tempo e afeto em cada ponto dado, os participantes, juntos, possibilitam a reflexão a respeito do uso e do valor do mesmo, descolando o espectador de um estado de “semi-amnésia” em que vivemos devido ao excesso e à velocidade de informações que nos atropelam.

Frente às facilidades proporcionadas pelo avanço da tecnologia, o objetivo é estimular a sensibilidade para o fazer manual e lembrar o papel fundamental de homens e mulheres na construção diária e harmônica de nossas relações. Visa-se, assim, à complementaridade das atuais formas de se viver, sem desvalorizar as que nos precederam. Esse pequeno espaço envolto em crochê, no qual se pode adentrar, vem representar um lugar de comunhão do sujeito consigo mesmo, de encontro com o íntimo e de reflexão para as inquietações da alma. “A Casa de Todos” não seria tanto um objeto, mas também a representação de um estado de sentimento ou um estado de ser, que é consistente, profundo e que pertence à natureza humana. A casa, através da centralidade, levará para o sentido da cabana de Bachelard. “A casa é imaginada com toda a simplicidade, a primitividade, o aconchego de uma cabana. Ali se dá o encontro com a solidão, as lembranças viram lendas”. A cabana representa a intimidade do refúgio. O autor trata a casa como um “centro de proteção” que se torna o “centro de um devaneio” (1993, p. 56). Adentrar a casa é entrar no convívio com sua verdadeira intimidade na ânsia da sabedoria das escolhas equilibradas. É enfrentar seus medos e encontrar acolhimento na natureza que nada mais é que sua casa de origem. 

As tramas no entorno protegem, limitando o espaço sem a rudeza de uma parede. “O que caracteriza o fechar espaços é o silêncio, a imobilidade, a segurança. Nessa situação de quietude e aconchego, a alma fica aberta ao devaneio, e o espaço delimitado se torna “um armário de lembranças”, Bachelard (1993, p. 151). Kant, ao explicar sobre a matéria, dizia: “A matéria enche um espaço, não através de sua existência pura, mas por meio de uma força motriz particular” (Abbagnano, 2000). A Casa seria uma espécie de manto ou pele pairando no espaço, a proteção que nos divide entre o mundo exterior e interior. O têxtil é a pele desta íntima relação entre o ser que busca e aquele que lhe conforta/orienta gerando uma nova relação com a realidade conforme citou Saltzman (2008): “ O têxtil é a matéria-prima a partir da qual se modifica a superfície do corpo como se fosse uma nova epiderme (...) matéria que cobre ou descobre e gera uma nova relação entre o corpo e o meio”. 

Um projeto que se utilizou da mesma linguagem surgiu no início do século 21, na Europa, através de um grupo chamado Knit the City, que por meio de sua arte silenciosa buscou contestar uma situação estabelecida nos grandes centros urbanos, como problemáticas sociais, políticas, econômicas, além de questões urbanísticas propriamente ditas. Desta forma, o movimento passou a ser chamado de Yarn Bombing (bombardeio de fios). Este movimento ainda existe e consiste em realizar intervenções em locais públicos da cidade, sejam eles monumentos, árvores, calçadas, estações, entre outros, através do uso de materiais sustentáveis e naturais. É feito de uma forma artesanal e em coletivo, envolvendo muitas pessoas no processo criativo e execução. Além disso, se utiliza de uma linguagem da cultura que faz parte da sociedade há tempos; o crochê, o tricô, a costura. Desta forma, mesmo sendo uma intervenção temporária, ela envolve sentimentos culturais, aquece e sutilmente clama pela mudança de hábitos e por uma sociedade melhor.

Neste contexto, a realização do projeto “A Casa de Todos” torna público o que é de foro íntimo: a paciência para conviver e construir junto uma ação, num jogo de ganhos ampliados, e promover a reflexão a respeito da nossa relação com nós mesmos, com o tempo, com os nossos semelhantes e com a sociedade em que estamos inseridos. Potencializa a arte como importante meio de comunicação e expressão social, possibilitando através dela o resgate de várias capacidades nos indivíduos, entre elas a de criar relações afetivas com o próximo. Ao mesmo tempo, torna acessível e viável a utilização do espaço público para uma prática artística que valoriza a cultura das manualidades e ao mesmo tempo se insere na arte contemporânea como uma alternativa de poética visual. Também questiona o lugar do artista em si, pois coloca o espectador como fabricante da obra de arte, onde o processo pelo qual ele passa torna-se mais importante que o resultado. A obra passa a acontecer no coletivo e em suas experiências concretas ou fictícias.

Serviço

Serviço 

Exposição “A Casa de Todos”

Caixa Cultural Recife

Visitação 2 a 25 de outubro


Cadu Cinelli é o curador da exposição 

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