Desenhar estradas é uma busca que faz parte da minha rotina tanto quanto estar nelas e desde muito antes de entender que esta prática faria parte de ser artista.
Antes desenhei com os olhos. Depois com a memória. Por vezes com a fotografia e mais frequentemente com técnicas da manualidade.
Eu sou dos mares de morros e da neblina, mas também da baixada litorânea e de uns outros tantos lugares mais secos, planos, longilíneos, distantes, infindos.
A perspectiva nos ensina a ver nas estradas. Tem curvaturas que não são nítidas, achatamentos, abaulamentos, dilatações e inclinações (im)previsíveis. Miragens.
Muitas vezes busquei outras estradas, outras contrações e expansões, sob outras formas: nos corrimãos de ônibus e metrôs, nos reflexos nas vidraças das cabines dos motoristas, ou das janelas, no corpo das serpentes, nas nuvens no céu ou nos mares e praias.
Estar em movimento não foi algo planejado, mas algo que estava dado, imposto, implícito nas escolhas e percursos. Só se pode assimilar os percursos por partes, do espaço ou do corpo.
"Polarizadas" é uma série em que tento organizar estas geometrias e aberrações cromáticas e reflexos trazidos pelos anteparos somados das lentes de sol e das películas UV. Só acontece com esta soma de tecnologias para ver. Para isso, misturo superfícies de cor com materiais diversos: aquarela, grafite, bastão de óleo metálico e lápis de cor; o pensamento vai do asfalto quente com poças d'água que não estão lá até o arco-íris, os pavões e beija-flores nas folhagens e copas das árvores, até a terceira margem.

Polarizadas I
Flora Assumpção
Série de 2005 a 2026
Técnica mista (aquarela e bastão de óleo e pigmentos metálicos sobre papel de bambu)
15x21cm

















































































































































































































































































0 Comentários