Ao longo do meu trabalho como artista visual, as conexões entre arte e ciência estiveram sempre presentes, tanto em seu aspecto conceitual quanto prático/construtivo. Através da pintura e da fotografia digital, venho explorando noções de espaço e tempo, gerando novas relações entre suas formas de representação nos dois campos, o que me levou a um contato constante com físicos e matemáticos de vários países, culminando na criação de uma plataforma internacional de colaboração, financiada pela National Science Foundation (EUA) e pelo Isaac Newton Institute (Cambridge, Inglaterra), onde sou membro do seu comitê gestor.
Minhas pinturas são informadas pela experiência que tive em laboratórios de física durante minha graduação em engenharia eletrônica na UFPE, que me levou a uma revisão dos fundamentos tradicionais da pintura ocidental, questionando o uso do pincel e indo além de Jackson Pollock e Morris Louis, abordando as tintas através de suas características físicas além da cor. Transformo fenômenos naturais em ferramentas de trabalho, principalmente a difusão e a gravidade, assim vejo a natureza como parceira. O método é bem estruturado, mas dá espaço ao acaso dentro de faixa que foi reduzida pelo aprendizado através da experimentação e do estudo da dinâmica dos fluidos. A pincelada é substituída pelo controle indireto por meio de uma pulverização delicada e estratégica de água e diversos outros procedimentos incorporados ao longo dos anos. Nasce uma junção muito particular entre a beleza atribuída aos fenômenos naturais e aquela inerente à cultura, que cria paletas de cores e ajusta contrastes.
A manipulação e fixação desses movimentos da tinta na tela geram uma espacialidade particular cuja manifestação formal pode ser facilmente associada ao mundo natural, uma vez que os procedimentos utilizados incluem os mesmos fenômenos que também participam da formação da paisagem, dos tecidos celulares, dos corais, da dispersão de gases estelares etc. Em vez da tradicional metáfora da natureza na Arte, temos um curto-circuito de significados: a apresentação manipulada dos próprios fenômenos constitui a pintura final. Percebendo os fluxos reais de cor sobre a tela, passamos por uma inevitável experiência espaço-temporal, tema que se tornou central na minha trajetória.
Com o tempo, esse desenvolvimento do meu trabalho pictórico gerou desdobramentos em novas séries digitais envolvendo, por exemplo, imagens científicas da NASA (série Hubble) e imagens de registro histórico das obras do mestre barroco Caravaggio (série Matéria escura). Na série Matéria escura o ponto de partida são imagens das pinturas de Caravaggio, uma referência para mim pelo seu uso do espaço, incluindo e ativando o “vazio”, o intervalo entre personagens, objetos e arquitetura. Usando programa de edição em computador, começo transformando as imagens originais coloridas em preto e branco, focando na topologia da cena. Depois apago tudo o que não seja roupa e panejamento, resultando em tecidos flutuantes num espaço escuro e indeterminado, numa associação direta à metáfora científica do tecido espaço-tempo, derivada da teoria da relatividade de Einstein.
Tanto minhas pinturas quanto essa série transformam o “vazio” em algo fundamental, ativo, dentro dos trabalhos, numa conexão entre a física quântica e o zen budismo. Na série Matéria escura, os tecidos que envolvem as figuras, objetos etc. ganham conotação de tecido cósmico. Seu título refere-se a um novo tipo de matéria, em discussão pelos físicos, que não interage com a luz. Sua presença é inferida pelo efeito gravitacional causado por ela sobre a matéria visível. Transpondo esse raciocínio, a “minha matéria escura” é inferida pela curvatura dos tecidos remanescentes dos trabalhos de Caravaggio, ainda sugerindo pessoas, arquitetura etc. No final os trabalhos são impressos sobre tela e esticados em bastidores, num movimento de reaproximação da pintura original, tensionando as noções de pintura e fotografia.
Finalmente, na série Espectros apresentada aqui, realizo uma intervenção pictórica sobre obras específicas da série Matéria escura. Assim a tinta acrílica se torna mais um elemento de ligação entre o panejamento remanescente da obra original de Caravaggio e o espaço escuro e indefinido do fundo. Cria também outras relações e tensões entre partes desse panejamento. O caráter fluido, embora controlado, da minha pintura manifesta visualmente a liberação de energia provocada pelo deslocamento da tinta por difusão, esta causada pela segunda lei da termodinâmica e medida pela variação de entropia do sistema. O resultado é uma relação espectral entre minha pintura e a pintura de representação dos tecidos nas telas de Caravaggio.

Série Espectros #16 (ID 1945)
Manoel Veiga
2026
Acrílica sobre tela com imagem impressa
189x138 cm







































































































































































































































































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